Um Natal diferente

Cerca de 1930, tinha eu seis anos, vivia num quinto andar da Rua Augusta, em Lisboa, e tudo à minha volta, visto daquela altura, me parecia alegre e feliz. Mas na realidade foram anos bem difíceis, aqueles, de revoluções, depressão, penúria e desemprego.

Talvez por isso mesmo, aquela casa estava sempre cheia de gente, vinda da terra e do mar. E foi assim durante vários anos, até cerca de 1939.

Foram dois lustros plenos de movimento, em que aprendi muitas coisas com muitas e desvairadas gentes. Primos (eram seis), todos consideravelmente mais velhos do que eu.

Havia ainda as outras primas (mais velhas), pois eram primas de meus pais, a que eu chamava tias: a tia Clemencinha, minha madrinha de batismo, a tia Micas, irmã daquela, que era mãe de duas lindas raparigas, um pouco mais nova do que eu, e a tia Clemência, imponente de corpo e voz, que vivia no Rossio. Íamos para casa dela com freqüência e ali organizávamos as nossas brincadeiras.

Das águas-furtadas avistava-se o Castelo e todo o bulício das Praças, onde ainda havia carruagens com cavalos à porta do Restaurante Irmãos Unidos e os então modernos Táxis Palhinhas, na praça ao lado da Estação do Rocio. Dali, da janela do meu quintal em Lisboa, assisti à passagem das tardes de muitos dias, a olhar para o movimento da Primeira Feira do Livro, descendo à praça, de quando em quando, para recolher com avidez as folhinhas de papel colorido que anunciavam as novidades literárias: Sinais dos Tempos __ um tenebroso pasquim apocalíptico __, fazia nessa altura, sensação.

A Feira do Livro era, no seu conjunto, um arraial de barraquinhas de livreiros e alfarrabistas, dispostas em redor dos lagos, onde, aqui e ali, algumas editoras dispunham as suas edições mais ousadas, a preços acessíveis. A grande clientela, porém, era a dos consumidores dos livros de capa e espada e dos romances policiais e de mistério, como os de Ponson Du Terraille, de Arsène Lupin e do tenebroso Eugène Sue.

Discretamente, a polícia, eufemisticamente chamada de costumes, vigiava estas atividades, estando atenta, sobretudo, às vendas dos livros que saíam debaixo do balcão. E estes, ao contrário do que alguns leitores possam imaginar, eram apenas inocentes livros de literatura cor de rosa, ou um pouco mais azuis, como os de Paulo de Mantegaza, onde os rapazes procuravam algo que tivesse a ver com a sexualidade, tabu que era sempre apresentado de modo a despertar os sentidos recalcados da juventude.

Os livros eram lidos à socapa de pais e professores, entre duas passas de Provisórios, nas casas de banho das escolas ou mesmo, quando a trama era mais absorvente ou ousada, na própria sala de aula, enquanto o professor fazia o melhor que sabia para explicar os primores verbais da voz passiva e do condicional futuro. O aspecto das barracas daquelas primeiras Feiras do Livro, pouco mudou de então para cá, mas hoje o seu conteúdo é o de um mar, comparado com os dois pequenos lagos da Praça, onde as Tágides continuam de guarda aos repuxos, que então eram brilhantemente iluminados, realçando o bronze verde das fontes.

Os primos tinham vindo para Lisboa, uns atrás dos outros, à procura de emprego. Naqueles anos difíceis, minha mãe, preocupada com tanta gente lá em casa, além do marido e dos quatro filhos, procurava resolver a situação de uma forma prática:

mandou fazer umas cabeça de pau e umas cabeleiras, e foi ensinando, a cada um deles, a arte subtil de frisar os cabelos, que colocados naquela cabeça de pau, tão bem simulavam os das cabeças reais.

Ela própria permitia que trabalhassem na sua cabeça, para que as lições tivessem maior realismo, desprezando assim o que pudesse vir a acontecer à sua bela e preciosa cabeleira, pois possuía uns lindos cabelos negros, sedosos e longos, fazendo com que eles se sentissem à vontade, quando tivessem de enfrentar as cabeças das damas que, naquela época, raras eram as que não frisavam os cabelos. O perigo de chamuscar os caracóis era permanente, pois os ferros de frizar não passavam de toscas tenazes aquecidas em lamparinas de álcool.

Assim nasceu, ao fim de algum tempo, a legião dos mais hábeis e famosos cabeleireiros de Lisboa, os quais, um após outro, foram conseguindo trabalhar nos poucos salões de cabeleireiro que então existiam e dos quais, em pouco tempo, se tornaram proprietários. Dos manos Machado, o Germano, foi especialmente meu amigo, e veio a ser, depois de longo e árduo trabalho, proprietário de dois salões de cabeleireiro numa das zonas mais chiques de Lisboa. No meio da balbúrdia daquele quinto andar, num constante vai e vem de gente, uns vinham da Beira-Alta, a caminho do Brasil e outros, desiludidos e doentes, tinham abandonado os sertões ou as cidades madrastas de Manaus, São Paulo ou Rio de Janeiro, para voltarem às carícias rústicas do linho e da lã cardada, generosamente oferecidos pela Terra-Mãe.

Neste ambiente, ia eu crescendo e traquinando entre o roçagar permanente de saias e anáguas nas paredes pintadas a tinta de óleo, cor de rosa-alface.

Os cheiros fortes do manjericão, do alecrim e do cebolo fresco da Beira Alta impregnavam a casa, de mistura com os coentros do Alentejo, e todos juntos, faziam na cozinha um festival culinário para excitados apetites.

Meu pai, a quem a rudeza dos quartéis ocultara a natureza suave, fingia, freqüentemente, voz zangada quando eu me excedia (o que

acontecia com demasiada freqüência) e gritava como ameaça: Ai, ai, Fernando, Fernando! E aquele alerta era de tal intensidade e timbre, que um papagaio da vizinha da frente aprendeu o som daquelas palavras e passava as manhãs a palrar Ai, ai, Fernando, Fernando, tornado-se assim, eco da minha própria consciência e ressonância de culpas.

Por esses dias, durante um sarampo, aprendi a ler pela Cartilha Maternal, como todos as crianças da minha época, encerrado no quarto mais resguardado da casa, com os vidros cobertos de papel vitreau vermelho, metido na cama debaixo de cobertores de baeta vermelha, da mesma cor da pele da minha cara.

Lembro-me de que a primeira palavra que li com desenvoltura foi jaqueta, à qual achava especial sabor e não me cansava de a repetir. Nesse mesmo ano fui para a escola primária de S. Nicolau, anexa à Igreja, onde lecionava uma jovem professora que habitava o quarto andar do prédio das traseiras. Submetido, no primeiro dia, aos testes de leitura da Cartilha, passei nessa mesma tarde para a segunda classe.

Quando regressei a casa e comuniquei o fato à família, ninguém queria acreditar, e foi preciso que do outro lado do saguão viesse a confirmação da notícia pela boca da jovem professora, pela qual me tinha "apaixonado" logo nesse dia.

Adensavam-se então na Europa as sombras dos tenebrosos acontecimentos, que viriam a eclodir no final dessa década fatídica. Apareceu então lá em casa, onde viveu muito tempo como hóspede, um homem que falava uma estranha língua, e que apenas saía à rua de noite. Vinha da Alemanha, e tinha estampada no rosto uma profunda tristeza. E foi precisamente esse homem que me deixou ficar uma das impressões mais profundas e marcantes da minha infância.

Pelo Natal desse ano, armado o presépio, fez-se à noite a consolada, para a qual foi convidado o hóspede estrangeiro. Este compareceu à mesa, trazendo um grande e estranho objeto debaixo do braço.

Fiquei, naturalmente curioso para saber do que se tratava. No final da ceia o homem triste abriu pausadamente a caixa preta, forrada de veludo carmesim, e dela retirou um violino e o respectivo arco.

Lentamente, aproximou o instrumento do queixo e experimentou o arco. O que se passou então é indescritível por palavras. Para os meus sete anos, acabados de azer, aquele foi um verdadeiro omento mágico.

A música que nessa noite ouvi pela primeira vez, e que depois, ao longo da minha vida, tenho escutado com enlevo, tantas e tantas vezes repetida, em tantos outros Natais, era a Silent Night. Dormi, naquela noite, como se tivesse sido embalado por anjos. Na manhã seguinte o estrangeiro tinha partido. Nunca mais ouvi falar dele e nem sequer o seu nome conheço.

Fernando Costa Quintais