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O búzio
A Sophia de Mello-Breyner
Glosa: A tua poesia
é como um búzio de Cós.
* * *
Búzio, som do mar,
som primordial,
vindo do fundo do tempo,
do mar caótico da vida.
Pelo teu pórtico escuto
o marulhar das ondas,
cântico suave e envolvente,
do meu corpo morno
do líquido elemento.
Eco do grito desesperado,
vindo do tempo primitivo,
onde fui gerado.
Rasgado o ventre do mar,
rolei no todo da onda,
e vim cair nesta praia
onde esperei, longamente,
a tua mão suave e fria
da água em que te banhavas.
Levaste-me para casa,
e ali me deixaste,
abandonado ao pó,
em cima do cesto,
da tua roupa engomada.
É demasiado prosaico
um tal destino
para qualquer búzio como nós.
Sim, porque eu sou
um Búzio de Cós!
Fernando Costa Quintais
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