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Carta ao amor possível
Madrugada insone...à minha volta, o sentimento do já visto. Nem a
poesia acalenta o fremir dos olhares. No ritmo das pálpebras, o balé
das lembranças e o murmúrio do teu rosto despido em meu olhar. Concedo-me
ao desalinhar das emoções e a alucinação de todas as vésperas, em
que te aguarda a minha espera.
No silêncio de um novo dia que se anuncia, o pensamento cruza o horizonte,
buscando nas asas da serenidade, um pouso para os olhares. A voz da
saudade cala-se em meus lábios... sabe que há palavras que não se
escrevem. Necessitam apenas do aconchego do peito e da cumplicidade
do sentir inconfesso.
Há na lua que me espreita, um perfume de solidão que me convida a
introspecção e ao caminhar para os meus espelhos. No quarto, todas
as nuanças que me denunciam, como se cada matiz contasse a nossa história,
em meio a vigília que faço de mim mesma. Nas paredes nuas, o eco da
minha respiração suspensa e a sombra da inquietude das mãos. As coisas
inanimadas também aguardam o som dos teus passos, enquanto te esqueces
em vidas que não são tuas.
E é assim que sempre me vens: no desdobrar do corpo, no calor aveludado
e sutil, enquanto meus sonhos perdidos encontram a mim e a ti. Não
posso imaginar outro momento que não esse, quando meu desejo te invoca
e te fazes em mim, precipício, loucura, suspiro e vertigem. Não há
qualquer gesto meu que não te traga ao ardor da memória.
Deito-me aos meus pés e abraço-me a tua ausência. Em mim, a vaga esperança
de que virás... talvez a sensatez acuse-me de delirante, enquanto
sussurro a minha saudade nos corredores da insônia.
Um dia chegará a manhã possível e serás mais que todas as letras que
alinho nos versos que talvez não leias. Regressarás de onde nunca
partiste.
Fernanda Guimarães
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