Os espíritos do mar

Nesta minha mania de fossar livros (deve ser doença!), encontrei num sebo a velha edição esfarrapada de um "tratado especulativo e inquiridor dos espíritos do mar", publicado no início do século passado, e que deve ter escapado dos bibliófilos em virtude de seu péssimo estado. Trata-se do volumoso "Les Esprits da Là Mer", de autoria de um certo Prof. Jean-Paul Jolivet, que se autodefine como "investigador dos seres reais mas imateriais e incorpóreos, dotados de inteligência, que habitam as vastidões oceânicas."

Depois de vastos e acurados estudos, concluiu o provecto mestre francês que, sendo céus, mares e terras frutos das mesmas forças naturais, nada mais lógico que tenham moradores misteriosos e voláteis que convivem conosco sem que notemos suas presenças. Assim como existem duendes (aqueles anões, que podem ser bons ou maus), almas do outro mundo e assombrações as mais variadas perambulando pela terra, também existem seres marítimos que se volatilizam facilmente, como acontece com o "esprit-de-vin" ou o "esprit-de-sel", sem falar nas sereias, sobre as quais ele pouco escreveu e de quem pouco tenho ouvido falar. (A última de que tive notícia foi a que apareceu no Sítio do Picapau Amarelo...).

O mais curioso, porém, é que esses espíritos têm uma singular preferência pelas enseadas, como é o caso de Balneário Camboriú, onde gostam de se aglomerar para um descanso das agruras do alto-mar. Estão presentes em toda a parte, bailando nas ondas que se quebram na praia, deslizando no vento que canta (ou chora) na minha janela, escondidos no "entupe" que vem do mar e nas neblinas que escondem os morros, brincando na areia e mexendo com as pessoas, derrubando seus chapéus, provocando desencontros, fazendo-as perder dinheiro e até a compostura, quando bebem, brigam, cobiçam a mulher ou o marido do próximo, ainda mais quando não está próximo, ou dirigem piadinhas indecorosas às moças que passam em seus recatados biquínis. Às vezes eles parecem encarnar outro espírito - o "esprit-de-porc" - e inspiram o vandalismo, os jogos de bola na praia, as corridas de bicicletas nas calçadas, a jogar o lixo no chão e outras práticas elogiáveis e educadas como essas. Mas, acima de tudo, a presença maciça desses espíritos do mar explica tanta coisa inexplicável que acontece por aqui, diante das quais é vã toda nossa filosofia.

Agora a Ilha não pode se vangloriar diante de nós. Se ela tem suas bruxas e bruxedos, de que tanto se gaba, nós temos incontáveis "esprits de là mer", com o requinte de que nos foram revelados por um pesquisador do Primeiro Mundo. Nada mais nos falta.

Enéas Athanázio