Cantiga do desterro de uma dor

É como recostar aqui
e murmurar uma canção antiga
quase de ninar
para o bebê que não consegue suportar a luz

Por que nem um nem dois
nem todos os sentidos
que em corrente emendam nossa teia de tecidos
caleidoscópio de funções
transformariam esta clave de senões
em chave milagrosa

A pauta atrapalhada
de complexa envergadura
faz brotar pontas de arpões de nossos ossos
trincando a Vida
e transformando-nos em pilhas
de destroços

Enquanto a música e n t o r n a
devoção
e o bebê vai d e v a g a r abrindo seus olhinhos
numa contínua l e n t a e surda aprendizagem
que principia por acostumar-se
à luz

Nosso delírio vai em vão estremecendo
tal qual nos filmes sai de si
e de seus medos

Inventa
doses impossíveis de morfina pura
Como pudesse estancar
em nós
o arremedo

de l o u c u r a

Eliana Mora