Metralhando a dor de todos nós

Remoto e presente
vive aqui o drama de milhões
esparrama-se no chão sem brilho
deita-se sobre a cadeira solta entre os jornais
mantém-se quieto mas exala de seus poros
aquele som
que enoja
que esbarra em nossas dimensões cordatas
pacatas
e faz virar tudo de cabeça
sem cabeça para cima
ou para baixo
cabeça sem neurônios
sem maneiras de gravar os discos novos
os cedês de plutônio e cal
para queimar no fim
endurecer
e retirar da luz o que restou de nossas almas tolas
e abobalhadas
a enxergar o ensaio de algum filme
que se acaba
de uma estrada de desejos
ou de puros solfejos de cetim do sol
de cada um de nós

Brilha atira
mata e se revela a todos quase uma geleira de glacê
seio de prata
ou uma verdadeira fonte
de cascatas em vermelhos cor-de-sangue
e tons de lei
perdida em desafios de viver naquela doida corda-bamba
a derreter chorar minguar
ceder ao pranto
ao nome de algum santo amém amém
ou simplesmente escorregar na dor
no sem-amor

de cada dia

17 de outubro de 2001