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A ilusão americana Este trabalho, já editado no Brasil e agora reimpresso no estrangeiro, mereceria vir de novo à luz, ainda na falta de próprio interesse. Este despretensioso escrito foi confiscado e proibido pelo governo republicano do Brasil. Possuir este livro foi delito, lê-lo conspiração, crime havê-lo escrito. Antes da dolorosa provação que sob o nome de república, tanto tem amargurado a pátria brasileira, nenhum governo se julgou fraco e culpado ao ponto de não poder tolerar contradições ou verdades, nem mesmo as de uma crítica impessoal e elevada. Eram jovens os nossos bisavós quando foi extinto o Santo Ofício. Desde então, em nosso país, nunca mais o poder ousou interpor-se entre os nossos raros escritores e o seu escasso público. Julgavam todos definitiva esta conquista liberal, mas o governo republicano do Brasil, tristemente predestinado a reagir sempre contra a civilização, a todos desenganou. Na república o livro não teve mais liberdade do que o jornal, do que a tribuna, nem mais garantias do que o cidadão. Disse um romano que os livros têm o seu destino. O deste não foi dos piores, honrado, como foi, com as iras dos inimigos da liberdade. A própria Verdade não proclamou felizes os que sofrem perseguição pela justiça? Londres, 7 de novembro de 1894. Eduardo Prado Pensamos que é tempo de reagir contra a insanidade da absoluta confraternização que se pretende impor entre o Brasil e a grande república anglo-saxônica, de que nos achamos separados, não só pela grande distância, como pela raça, pela religião, pela índole, pela língua, pela história e pelas tradições do nosso povo. O fato do Brasil e dos Estados Unidos se acharem no mesmo continente é um acidente geográfico ao qual seria pueril atribuir uma exagerada importância. Onde é que se foi descobrir na história que todas as nações de um mesmo continente devem ter o mesmo governo? E onde é que a história nos mostrou que essas nações têm por força de ser irmãs? Em plena Europa monárquica não existem a França e a Suíça republicanas? Que fraternidade há entre a França e a Alemanha, entre a Rússia e a Áustria, entre a Dinamarca e a Prússia? Não pertencem estas nações ao mesmo continente, não são próximas vizinhas, e deixam, porventura, de ser inimigas figadais? Pretender identificar o Brasil com os Estados Unidos, pela razão de serem do mesmo continente, é o mesmo que querer dar a Portugal as instituições da Suíça, porque ambos os países estão na Europa. O México deprime, oprime e tem, por vezes, invadido a Guatemala, que tem sangrentíssimas guerras com a república do Salvador, inimiga rancorosa do Nicarágua, feroz adversária do Honduras, que não morre de amores pela república de Costa Rica. A embrulhada e horrível história de todas estas nações é um rio de sangue, é um contínuo morticínio. E onde fica a solidariedade americana, onde a confraternização das repúblicas? A Colômbia e Venezuela odeiam-se de morte. O Equador é vítima, nunca resignada, ora das violências colombianas, ora das pretensões do Peru. E o Peru? Já não assaltou a Bolívia, já não se uniu depois a ela numa guerra injustíssima ao Chile? E o Chile, já não invadiu duas vezes a Bolívia e o Peru, não fez um horroroso morticínio de bolivianos e peruanos na última guerra, talvez a mais sangrenta deste século? E o Chile não tem somente estes inimigos: o seu grande adversário é a República Argentina. Este país, que tem usurpado territórios à Bolívia, obriga o Chile a conservar um exército numeroso, e ninguém ignora que um conflito entre aqueles países é uma catástrofe que, de um momento para outro, poderá rebentar. O ditador Francia, o verdugo taciturno do Paraguai, que Augusto Comte coloca entre os santos da humanidade venerados no calendário positivista1 , por ódio aos argentinos e aos outros povos americanos, enclausurou o seu país durante dezenas de anos. A República Argentina é a adversária nata do Paraguai. Lopez atacou-a, e ela secundou o Brasil na sua guerra contra o Paraguai. E que sentimento tem a República Argentina pelo Uruguai? Não há um só homem de estado argentino que não confesse que a suprema ambição do seu país é a reconstituição do antigo vice-reinado de Buenos Aires, pela conquista do Paraguai e do Uruguai. Eis aí a fraternidade americana. __________ Voltado para o sol que nasce, tendo, pela facilidade da viagem, os seus centros populosos mais perto da Europa que da maioria dos outros países americanos; separado deles pela diversidade da origem e da língua; nem o Brasil físico, nem o Brasil moral formam um sistema com aquelas nações. Dizem os geólogos que o Prata e que o Amazonas foram em tempo dois longos mares interiores que se comunicavam. O Brasil, ilha imensa, era por si só um continente. As aluviões, os levantamentos do fundo daquele antigo Mediterrâneo soldaram o Brasil às vertentes orientais dos Andes. Esta junção é, porém superficial; são propriamente suas e independentes as raízes profundas e as bases eternas do maciço brasileiro. Por isso não vêm até as praias brasileiras as convulsões vulcânicas do outro sistema. Quando muito, chegam as vibrações longínquas, tênues e sutis que os instrumentos registam, mas que os sentidos não percebem. Conta o missionário jesuíta Samuel Fritz que em 1698 uma terrível erupção andina transmudou o Solimões, o rio brasileiro, num "rio de lama", e que, apavorados, os índios viam naquilo a cólera dos deuses. Parece que, na ordem política, tais têm sido as erupções espanholas e revolucionárias que, afinal, conturbaram as águas brasileiras. A torrente, porém, não é só de lama, porque é de lama e é de sangue ... Estudem-se, um por um, todos os países ibéricos americanos. O traço característico de todos eles, além da continua tragi-comédia das ditaduras, das constituintes e das sedições, que é a vida desses países, é a ruína das finanças. E na ruína das finanças o ponto principal é o calote sistemático, o roubo descarado feito à boa fé dos seus credores europeus. Os ministros da fazenda das repúblicas espanholas, por meio de empréstimos que não são pagos, têm extorquido mais dinheiro das algibeiras européias do que jamais a Europa tirou das minas de ouro e prata da América. Tomemos os fantásticos orçamentos destes países; e, no meio dos déficits pavorosos e das mais indecentes falsificações, na irregular contabilidade pública que conservam estes países, onde os dinheiros do estado são gastos e apropriados pelos presidentes com uma sem-cerimônia de que é incapaz o Czar da Rússia, o que é que vemos? Lá está o celebérrimo orçamento da guerra a tudo devorar. Lá estão as dezenas dos generais, as centenas de coronéis e os milhares de oficiais. É a prova de que não existe a fraternidade americana. Se as nações americanas vivessem ou pudessem sequer viver como irmãs, não precisariam esmagar de impostos o contribuinte nem arrebentar os respectivos tesouros, defraudando os credores com a compra desses armamentos e aparatos bélicos tão destruidores da prosperidade nacional. Falemos agora da grande república norte-americana, e vejamos quais os sentimentos de fraternidade que ela tem demonstrado pela América latina, e qual a influência moral que ela tem tido na civilização de todo o continente. ________________ No último quartel do século passado, homens extraordinários, da velha estirpe saxônia, revigorada pelo puritanismo, e alguns deles bafejados pelo filosofismo, surgiram nas treze colônias da América do Norte. Resolveram constituir em nação independente a sua pátria, e não lhes entrou nunca pela mente fazer proselitismo de independência ou de forma republicana na América. Nem isso era próprio da sua raça. O fim que tiveram em vista foi um fim imediato, restrito e prático. Fazendo a independência da sua pátria, tinham como aliados os reis da França e de Espanha. Como poderiam eles querer que este último, a quem eram gratos pela sua intervenção em favor da independência, perdesse as suas ricas colônias americanas? Se alguma simpatia houve entre eles pela emancipação de outros países da América, essa simpatia apareceu trinta ou quarenta anos depois quando já toda a América latina, à custa de sacrifícios, ultimava a sua independência sem auxílios norte-americanos. É altamente cômica a ignorante pretensão com que escritores franceses superficiais procuram ligar a revolução americana à revolução francesa, querendo por força que as idéias revolucionárias francesas tenham influído na América, quando, a ter havido alguma influência, foi antes da América sobre a França. A pessoa de Franklin, com os seus calções pretos, sem espada ao lado, nem bordados, nem plumas, com os seus grossos sapatos de enfiar, com o seu prestígio de sábio e libertador, passeando através das galerias de Versailles; a fama de ter ele sido um simples operário na sua mocidade, isso sim foi uma influência real em França. Quando ele, no seu ceticismo cheio de bonomia, ria-se da pomposa divisa que lhe arranjou Turgot, o célebre: Eripuit coelo fulmen sceptrumque tyrannis, - dava uma prova de que ao seu terrível bom senso não escapava a insensatez suicida da aristocracia francesa. Quando rebentou a revolução, quando ela começou a matar e a incendiar, houve em toda a América uma grande simpatia por Luís XVI e Maria Antonieta, os antigos aliados, os generosos protetores da independência americana. Pouco tempo depois o governo de Washington rompeu relações diplomáticas com a república francesa. Onde a solidariedade republicana, onde a fraternidade? Vejamos na história: Que auxílio prestou o governo americano à independência das colônias ibéricas da América - Qual tem sido a atitude dos Estados Unidos quando estes países têm sido atacados pelos governos europeus - Como os tem tratado o governo de Washington - Qual tem sido o papel dos Estados nas lutas internacionais e civis da América latina - Qual a sua influência política, moral e econômica sobre estes países. Tudo o que se vai ler neste trabalho é referente a esses pontos, que serão todos discutidos, embora nem sempre na ordem da sua enumeração. 1 É antiga, como se vê, a predileção positivista pelos déspotas sul-americanos. (A ilusão americana, 1895, 2ª edição)
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