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Ainda os acontecimentos do Brasil III A atenção pública na Europa não abandonou de todo os negócios do Brasil, onde a revolução, sempre pacífica, mas contínua, revelada a 15 de novembro, se vai desenvolvendo em suas conseqüências. Não custa muito aos historiadores o assinalar as datas do início das revoluções; é mais incerta, porém, a época do seu termo natural. Carlyle encerra a Revolução Francesa no dia 15 vendimiário, quando a metralha, à voz de Bonaparte, varreu das portas das Tulherias e esmagou nos degraus de São Roque a anarquia popular. No Brasil não houve sangue, nem haverá decerto metralha; a anarquia não é popular, a revolta não saiu da população. Os revolucionários foram uns trezentos oficiais do exército e da armada; os anarquistas foram os generais e coronéis. E, por isso, os cartuchos podem continuar azinhavrados nas espingardas, a pólvora umedecida nos armazéns, entre montões de balas de artilharia cobertas de bolor. O calor que arruína as armas abate os temperamentos. Não serão os cidadãos que se deixaram privar de um governo livre que, por verem a liberdade suprimida, hão de sair à rua para reclamar justiça, ou reivindicar direitos. Os tempos não comportam másculas virtudes, nem espartanismos perigosos, na república que não é também ateniense, nem pela cultura, nem pela agitação patriótica; e, Pisistrato das Alagoas, o sr. Deodoro não colecionará versos de Homero, nem mesmo os maus sonetos e as quadrinhas chochas com que os bacharéis pretendentes e os alferes (tão fracos na disciplina métrica, como na militar) lhe exaltam os sublimados méritos. No suntuoso palácio, onde, à custa do Tesouro, ele se instalou; quando percorre as ruas, levando atrás de si numerosa escolta galopando em cavalos comprados no Rio da Prata (escolta que os republicanos tanto exprobravam ao Imperador), o Marechal há de pensar que no oficio de fundador de república e de salvador da pátria, a dez contos por mês, não deixa de haver encantos. Ele tem, pelo menos, e com certeza, a segurança de espírito, que é o dom dos satisfeitos, e a contente afoiteza de quem, por suas mãos, obteve o poder, o fausto, a fortuna. O bravo Marechal, que, há três meses, derramou pela liberdade o sangue do barão de Ladario, acredita, decerto, na imortalidade de sua tirania! Hoje, no Rio de Janeiro, em conversas particulares, aparecem, a todo momento, indivíduos reclamando para si todas as glórias do glorioso 15 de novembro. Pela imprensa, já começaram as reivindicações, e já os oficiais discutem entre si prioridades de heroísmo incruento nessa memorável data. Na discussão, os interessados desassombradamente assinam pseudônimos por baixo dos seus artigos; trocam galhardamente entre si epítetos impertinentes e, com bizarra fraternidade, fazem-se pouco honrosas insinuações. Os jornais chegados nas primeiras semanas, depois da pacífica epopéia, vinham todos negros de retratos, mais ou menos desenhados, formando uma série interminável de heróis, cujas feições tinham sido votadas à imortalidade de um dia, no centro da primeira página, com a prontidão que o entusiasmo requer, a nitidez que a estereotipia barata permite e a rapidez que as condições da venda avulsa impõem. E, no texto, o jornalista, entusiasmado, explicava a gravura à Nação: - Este é aquele major que viverá para sempre na história e que tinha resolvido dar a sua vida pela República, que, felizmente, não lha pediu! - Este é aquele tenente que tão heroicamente deixou de morrer no dia 15 de novembro, mas que, não morrendo, se cobriu de glória! - Este é aquele tenente-coronel que, com jamais igualada bravura, declarou que recusava bater-se contra os regimentos revoltados! etc. etc. etc. E a mocidade das escolas, que tão pouco estuda, aprende assim quão pouco custa e quanto rende o ser herói revolucionário. O entusiasmo de certos jornalistas não cessou, nem mesmo com a instituição das comissões militares destinadas a reprimir o delito da expressão de qualquer pensamento contrário aos interesses do governo. O decreto aplicando aos escritores públicos os artigos 15 e 16 do Regulamento do Conde de Lippe é, todavia, um monumento da mais desgraçada brutalidade e a prova do terror que o governo tem da verdade. São, decerto, duras as penas de forca e de trabalhos de fortificação consignadas nesses artigos; não serão, porém, mais cruéis do que as condenações da História contra os governantes militares do Brasil, militares que o Conde de Lippe, agora ressuscitado, arcabuzaria logo por indisciplina e traição. Todos os homens de espírito limpo, de alma decente, em todos os países onde chegar a notícia da reação bárbara efetuada hoje nos costumes políticos do Brasil, hão de estigmatizar o procedimento dos membros do Governo Provisório. Será, porém, injusto quem só condenar os militares; menos dignos e mais andáveis nas valentias sem perigo, são os bacharéis-ministros, antigos advogados e jornalistas encanecidos na prática inveterada do artigo em favor de todas as liberdades e do arrazoado em defesa dos direitos do homem, em geral (e dos raros clientes, em particular). Os militares, como grande parte da população do Rio de Janeiro e das cidades do Brasil, sofrem de um nervosismo especial, talvez próprio dos países quentes, onde a ociosidade é comum; onde a raça é de impressões fáceis; onde a palavra, sob a forma de discurso, é um prazer, quer na função ativa de orador, quer na função passiva de ouvinte, e é, em todo caso, a mais barata das distrações. Este nervosismo não toma a forma trágica de sangrentas insurreições, nem é causa de explosões de sentimentos fortes. A corrente nervosa difunde-se em expressões de alta admiração, de carinho, de afeto, de gratidão, de apreço, por todas as formas. O nervosismo intenso dos anêmicos do Rio de Janeiro apresenta formas quase histéricas nas suas manifestações coletivas. O abolicionismo serviu durante muito tempo de derivativo para esta moléstia social. Aquele povo doente chorou nas ruas quando o Imperador partiu enfermo para a Europa, e 100.000 pessoas, em delírio, saudaram-no à sua volta. Há no Brasil indivíduos e associações que vivem vigilantes, à espreita de que em qualquer parte do mundo surja um acontecimento, fausto ou desgraçado, que sirva de pretexto ao furor exibicionista, de motivo, para virem à praça pública, para correrem aos jornais, a manifestar, externar, seja o que for, júbilo, pesar, ódio, afeto, patriotismo, indignação, ou simples cumprimentos. E quando esta mania da praça pública, esta agora-mania, aparece larvada de caridade ruidosa, abrem-se subscrições, organizam-se quermesses, formam-se bandos precatórios, que percorrem as ruas a pedir esmola. Esta forma delirante é, contudo, a menos duradoura; a subscrição fecha-se por si mesma, sem a pompa com que se abriu; e, muitas vezes, a precária coleta do bando precatório tem misteriosos destinos. Ao ser proclamada a república, foi aberta uma subscrição nacional para o pagamento da dívida interna da Nação. O ministro da Fazenda presidiu a uma sessão de patriotas, em que o projeto se lançou, os jornais ocuparam-se de assunto com fervor e o assunto caiu no mais completo esquecimento, rendendo a subscrição, em todo o país, seiscentas e tantas libras! Quando o nervosismo na sua forma manifestante não é contrariado pelo desembolso de dinheiro (que logo acalma os espíritos), o entusiasmo não conhece limites. Um viajante francês, chegando ao Rio de Janeiro poucos dias depois da revolução, ao desembarcar, achou suspenso o serviço da alfândega, e as salas daquela repartição, atapetadas de flores, com grinaldas de folhagens pelos muros. Era o dia de anos do guarda-mor. E os empregados faziam-lhe uma manifestação: discurso! resposta comovida! abraços ardentes! oferecimento de álbum! etc. etc. Dois meses antes da revolução, chegou ao Rio de Janeiro um encouraçado chileno. Existem laços de simpatia entre o Brasil e o Chile, porque os governos dos dois países se consideram aliados prováveis em caso de guerra contra a República Argentina. Havia pouco tempo, os oficiais de um navio brasileiro tinham sido muito festejados no Chile. Não foi preciso mais. Durante dois meses, todo o Rio de Janeiro, desde o Imperador até ao mais obscuro sujeito, não fez outra cousa senão obsequiar os chilenos: recepções, bailes, almoços, jantares, visitas, discursos, poesias, artigos, marches aux flambeaux, corridas, regatas, pirotecnias, tudo! Foi um delírio sem nome e sem fim! Esta superexcitação da sensibilidade, moléstia própria dos tempos agitados e das sociedades em crise, enfermidade que a ciência reconhece e que, na Idade Média, tomava as formas estranhas de verdadeiras epidemias mentais, como a dos flagelantes, dos adamitas e outras, é, em suas formas atenuadas deste século, uma epidemia reinante em certa parte da população brasileira. Nenhuma classe deixa de pagar-lhe tributo mais ou menos largo. A profissão das armas, que é, no Brasil, quase que uma profissão sedentária, porque no regime dos quartéis não há os rigores viris da disciplina, nem o hábito fortificante dos exercícios enérgicos, é uma profissão que não escapa a estas mórbidas e especiais condições fisiológicas. O soldado brasileiro que, na guerra do Paraguai, mostrou uma bravura tão constante, uma abnegação tão comovente nos maiores sofrimentos, tem ainda hoje as mesmas qualidades. Infelizmente, não é boa a direção dada a essas qualidades. O oficial novo é de um tipo bem diferente do antigo. Já não existe mais o velho militar, descendente direto da milícia portuguesa das campanhas peninsulares, raça de oficiais aguerridos nas lutas do Sul do Brasil, que salvou a unidade do país, sufocando as revoltas, sustentou a honra brasileira e defendeu a civilização, destruindo as tiranias militares de Rosas e de Lopez. Não eram talvez muito instruídos, esses bravos; mas eram claros exemplos de fidelidade à honra dos seus juramentos. Suas idéias simples, feitas mais de sentimento e de hábitos de dedicação do que de complicados raciocínios, não lhes permitiam sutilezas e distinções, quando se tratava do dever militar. O oficial novo, no Brasil, ouviu nas escolas maior número de professores. Esses professores (pelo menos muitos deles), ou são bacharéis discursadores, ou são militares de livro francês, filosofantes do positivismo, desses que para a exposição desta escola tiveram a habilidade de criar no Brasil uma retórica especial. (...) O governo monárquico cometeu um erro imenso, deixando ao ensino militar o seu caráter exclusivamente teórico. O sr. D. Pedro II, tão ocupado das ciências, não fez senão bacharelar o oficial do exército, que agora naturalmente revela um tão pronunciado furor politicante, discursante e manifestante. O resultado seria outro, se o governo olhasse para as escolas do exército, se mantivesse na Europa constantes missões militares, se promovesse o bem-estar, a boa educação, o conforto, a confraternidade bem entendida, o mútuo respeito, criando para o oficial uma atmosfera de distinção, reformando e organizando com decência e ordem os quartéis, dando uniformes mais elegantes aos jovens oficiais, aumentando-lhes o soldo, criando clubes com a instalação que exige o decoro da oficialidade de um país civilizado. (Fastos da ditadura militar no Brasil, 1902) |