| Israfel
"E o anjo Israfel, em quem as fibras do
coração formam um alaúde e que tem a
mais doce voz de todas as criaturas de
Deus." (Alcorão)
Há no céu um espírito "em que as fibras do coração formam um alaúde". Canção nenhuma tem a mágica virtude do teu canto, Israfel! Quando a voz vibras, os astros que andam no fimamento (contam as lendas) em desatinos cessam seus hisnos, emudecidos de encantamento. Vacilante, flutua no seu zênite a lua; mas, se te ouve a canção, enamorada, enrubescida de paixão, a luz purpúrea no céu detém, e as sete Plêiades, ante essa voz, cessam também a carreira veloz. Diz o coro estrelado, a multidão de astros que o ouvir-te encanta, que deves, Israfel, a inspiração ao alaúde de teu coração; ele é que canta quando, trêmulas, vibras as suas vivas, singulares fibras. Mas os céus, Israfel, percorreste onde cumpre um dever quem fundamente pensa e onde o Amor é um deus sem par; onde o olhar das huris se reveste dessa beleza imensa que só na estrela vamos adorar. Tu não erras, portanto, Israfel, se te esquivas a um desapaixonado canto! Sejam-te dados todos os louvores! És o melhor, és o mais sábio dos cantores! Feliz eternamente vivas! Os êxtases do céu perfeitamente se harmonizam com teu ritmo ardente; teu pesar, a ventura, e ódio, e amor, de tua lira se casam ao fervor. Bem deve cada estrela estar silente! Sim, teu é o Céu, mas esta Terra é um mundo de doçuras e de dores; nossas flores nada mais são que flores, e o que de sombra encerra tua perfeita ventura é, para nós, a luz do sol mais pura. Se eu, porém, Israfel, morasse onde viveste, se vivesses onde eu vivo, magicamente assim não poderias cantar terrestres melodias; e um hino mais audaz, talvez, do que este, de minha lira iria arrojar-se no céu.
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