| Al Aaraaf
Parte I Oh! nada de terrestre além da luz do olhar (que em cada flor se reproduz) da Beleza, tal como em jardins, onde o dia de gemas circassianas se desata; oh! nada de terrestre, além da melodia trêmula do regato dentre a mata; ou (música de apaixonado peito) o canto de um prazer suavemente desfeito de que o eco há de, eterno, perdurar, como vive na concha a saudade do mar; nenhuma dor terrena, alanceante; porém toda a beleza e cada flor que o bosque enfeita e escuta o nosso amor, é que adornam o mundo tão distante daquela estrela errante. Para Nesace era esse um tempo abençoado, pois de quatro brilhantes sóis bem perto o seu mundo oscilava no ar dourado... Repouso efêmero... Oásis num deserto de venturas... e longe, longe, em meio a um luminoso mar, em que se alaga de fulgores do Empíreo o espírito liberto... a custo abrindo (tão espessa é a vaga) a estrada dos destinos celestiais, ela, de tempo em tempo, se encaminha a orbes distantes, e hoje ao nosso veio, favorito de Deus. Porém, rainha de reino bem mais firme, atira o cetro a um lado, deixa o leme e por entre hinos espirituais banha em quádrupla luz seu corpo imaculado. Será ela mais feliz, na terra suave e doce, distante, onde nasceu a "Idéia da Beleza" (caída em espirais da estrelada surpresa, qual trança feminil de pérolas cercada para em montes aqueus ter eterna morada)? Olhou para o Infinito... e ajoelhou-se. Nuvem linda à sua volta se recurva - zimbório que seu mundo reproduz - vista só na beleza e que não turva outra visão tão bela, a cintilar na luz... grinalda que entre os atros espirala e a enlaçá-los colore o ar de opala. Em flores ajoelhou-se, avidamente: lírios como os que a fronte erguiam, de alabastro sobre o Cabo Deucato e, de repente, irromperam do chão, para encobrir o rastro fugitivo da que - soberba rara - morreu, tão-só porque um mortal amara; e a Sefálica, que de abelhas mil se inunda, ergue a haste purpurina e os joelhos lhe circunda; e a flor preciosa, a que um engano dava de Trebizonda o nome e que, habitando outrora os mais longínquos atros, quando tudo quanto era belo suplantava, dos céus seu mel dulcíssimo esparzia (o néctar dos pagãos) no orvalho que caía sobre o jardim do pária em Trebizonda e sobre a flor que a imita e que de sol se cobre, tão semelhante à sua irmã da altura que, hoje ainda, atormenta a abelha que a procura, com sonhos e loucuras desvairadas; no céu, perto do céu, da bela planta a flor e as folhas onde, desoladas, e sua fronte, de dor, não se levanta, - remorso. das loucuras já passadas o seio de ar balsâmico a lhe inflar, bela que errou, e que é mais casta e linda; e ao pefurmar a noite ela receia ainda as Nictantes sagradas perfumar; E Clítia, pensativa entre sóis numerosos, a face a rorejar de prantos invejosos; e a magnífica flor que na terra nasceu e morreu, mal a vida começara, rasgando o seio redolente, para que dos jardins de um rei sua alma fosse ao céu, e o lótus valisnério, que a torrente do Ródano atirou, após luta inclemente. e teu perfume rubro e encantador, ó Zante "Isola d`oro! Fior di Levante!" E do Netuno a flor, que ao deus do amor conduz a boiar sempre sobre o rio santo; flores magas a que é dado, em perfume, o canto da Deusa transmitir ao céu de luz. "Deus! Espírito, que habitas lá onde, no céu profundo, o que é belo e o que é terrível na beleza se assemelham; para além da linha azul que marca um limite à estrela, mas quem à vista se desvia da barreira que lhe ergueste, da barreira ultrapassada pelos cometas lançados de seu orgulho e seu trono para até o fim ser escravos, para conduzir o fogo vermelho, que arde em seu peito, incansáveis, em carreira sempre e sempre dolorosa; Tu, que vives (bem sabemos) na eternidade (e o sentimos), que espírito há de mostrar a sombra de tua fronte? Embora tua mensageira, Nesace, encontrasse seres que à sua medida e imagem Teu Infinito sonhassem, tua vontade, ó Deus, foi feita! A estrela pairou, na altura, entre imensas tempestades, sob o teu olhar ardente; e hoje, a ti, em pensamento (pois só o pensamento pode ascender a teu império e partilhar de teu trono) pela Fantasia alada minha mensagem envio, até o dia em que o segredo se revele junto aos céus." Calou-se e mergulhou a face ardente e bela entre os lírios, humilde, a procurar abrigar-se do ardor de seu olhar; porque treme, ante Deus, a própria estrela. Nem respira, imóvel, pois ouvia uma voz, dominando as amplitudes quietas, um rumor de silêncio, que aturdia o ouvido e que, em seus sonhos, os poetas "musica das esferas" denominam. O nosso mundo é feito de mil termos e chamamos "Silêncio" à quietude dos ermos, a mais vã das palavras existentes. A Natureza inteira fala e os entes imaginários, mesmos, disseminam sombras de sons das asas de ficção; mas, ah! tal não se dá no reino alto e fulgente onde perpassa a voz de Deus, eternamente, e o vento rubro murcha na amplidão. "Que importa, nesses mundos apagados, a um pequeno sistema e a um sol ligados, seja loucura meu amor a multidão minha cólera veja no trovão em tormentas, tremor de terra, iras do mar (por que vêm meu caminho irado assim cruzar?); que importa se, com um sol somente, em tais planetas, se extinguem, a correr, do Tempo as ampulhetas? Teu é meu resplendor; recebe-o e leva o meu segredo ao céu que mais se eleva. Voa, deixa deserto o cristal de teu lar, vai com tua corte pelo céu lunar (e apartando-vos, como, em noite siciliana, os pirilampos), leva em sua asa a outros mundos, a luz que agora de ti emana. Os mistérios a ti confiados revelam a cada mundo que a soberba abrasa; e por barreira os corações te tomem, barreira e maldição, para que a estrela não vacile perante os crimes do homem." Pôs-se a virgem de pé na noite amarelada de um só lua! Aqui, na Terra, é só adorada uma lua e só de um amor fica a alma presa; não o possuía mais o berço da Beleza. Como a estrela nascida em horas de alvorada, ergueu-se a virgem da florida alfombra e por montes de luz e planícies de sombra seguiu, sem, entretanto, abandonar ainda sua morada teraseana e linda. Parte II Num cume de montanha em flor, alcantilada, tal como a que o pastor, imerso no seu leito de imensa pradaria, satisfeito, vê, atônito, erguendo a pálpebra pesada e "espero ser perdoado" então murmura, sob a luz que paira, há muito, na ampla altura; num cume cor-de-rosa, que se erguia no éter iluminado e recebia, à tarde, a última luz dos sóis morrentes: sobre esse cume, em plena noite, quando mais bela e estranha a lua vai dançando, é que se ergue um palácio; resplendentes colunas riem, cintilam no leve ar e o mármore de Paros, a faiscar, ri de novo, bem longe, sobre vaga que no abismo reflete essa montanha maga. É sua base de estrelas em fusão como, no ébano do ar, as que tombam e vão prateando, ao morrer, a mortalha que as veste, para assim adornar a morada celeste. A abóbada, que ao céu prende radiosa tela, nas colunas, de leve, a coroá-las, se deita. Redonda, de um diamante, apenas, feita, olha o espaço purpúreo uma janela. E a luz vinha da mão de Deus, atravessando a cadeia meteórica, abençoar toda aquela beleza, a não ser quando, entre o Empíreo e esse liame, sacudia algum espírito a asa impaciente e sombria. Dos pilares tombou, dos serafins, o olhar nas trevas deste mundo; e as verdes cores graves e plúmbeas, que costuma a Natureza preferir para a tumba da Beleza, contornaram cornijas e arquitraves. E cada querubim, ali em volta esculpido, que olhava de seu lar marmóreo, comovido, parecia terrestre, em seu nicho, à penumbra, como estátua da Acaia, em região que deslumbra. Ó frisas de Balbec, Persépolis, Tadmor, da Gomorra de encantos abissais, oh, a onda hoje a vós se veio sobrepor e é, para vos salvar, tarde demais! Gosta o som de brincar nas noites de verão; testemunha-o o rumor do entardecer cinéreo, que em Eiraco escutava, outrora, em seu mistério, quem contemplasse os astros da amplidão, e que ouve sempre quem, perdido ao longe o olhar, vê numa nuvem fusca a treva se adensar. Não possui forma e voz mais palpável, sonora, Mas, que é isto? Alguém chega e traz, consigo, agora, um rumor musical... bater de asas parece... silêncio... e o som depois se arrasta e desvanece. Nesace está de novo em sua linda morada. O esforço da veloz carreira alucinada fá-la ofegar e as faces lhe enrubesce; e a faixa que rodeia os seios virginais rompeu-se com o bater do coração. Parou, a descansar, no centro do salão, sob a mágica luz, que lhe beijava o cabelo dourado, e que aspirava repousar, porém só podia brilhar mais! Cada flor jovem a outra flor e cada árvore a outra, em doce melodia suspirava, feliz, na noite iluminada. E a música, a gemer dentre as fontes, caía sobre bosques, que a luz das estrelas recobre, vales vestidos de lua; mas sobre as belas flores, as cascatas de ouro e asas de querubins, o silêncio imperava; e só o som a irromper do espírito era o coro da encantada canção que a donzela cantava: "Sob lianas, campânulas e sebes de mata que abrigam quem sonha dos raios da lua, erguei-vos, ó seres de luz, que pensais nos atros, que atônitos dos céus extraístes para, dentre as sombras, sobre vós descerem, como o olhar da virgem que agora vos chama. Erguei-vos dos sonhos por entre violetas, cumprindo os deveres desta hora estrelada. Sacudi das tranças pesadas de orvalho o hálito dos beijos que o repouso embalam! (sem ti, Amor, seriam felizes os anjos?), beijos de amor puro que o repouso embalam! Sacudi das asas tudo que as detém: que o orvalho da noite os vôos retarda. E as doces carícias deixai-as de parte! São plumas nas tranças, mas chumbo no peito. Ligéia! Ligéia! Tu, que és a mais bela e a mais rude idéia exprimes em música, será teu desejo na brisa embalar-te? Ou, calma, em descanso, como os albatrozes na noite estendidos (tal ficas nos ares), vigiar, encantada, a harmonia célica? Ligéia, por onde surgir tua imagem, que magia pode soltá-la da música? Prendeste os olhares num sono de sonhos, mas erguem-se sempre cantos protetores de tua vigília: o ruído da chuva que salta nas flores e volta dançando no ritmo das gotas; e o rumor que brota da relva crescendo, música das coisas, não passam de cópias. Corre, então, querida, às fontes mais claras que jazem ao luar... ao lago ermo, rindo num sonho de morte, às ilhas de estrelas que o seio lhe adornam, e onde as flores toscas misturam as sombras, lá dorme, nas margens, multidão de virgens. Algumas, deixando a fria clareira, repousam com a abelha. Desperta-as, ó virgem, na várzea e no prado. Sussurra, em seu sonho, de leve, no ouvido, o ritmo cantante que esperam, dormindo. Pois nada desperta mais rápido os anjos, que assim adormecem, sob a luz fria, do que o doce encanto nunca superado do ritmo cantante que embala o repouso." Anjos vieram, e espíritos alados, mil serafins cortaram os espaços, sonhos jovens aspirando em vôos estonteados... Seres que sabem tudo, exceto a Ciência, aquela luz que, ó Morte, caiu, refratada em teus laços, longe, do olhar de Deus, sobre a distante estrela. Doce era essa ignorância; e essa morte, mais doce. Doce era essa ignorância: em NÓS, o próprio alento da Ciência embaça o espelho da alegria. para eles, um simum arrasador seria. Que lhes adiantaria o atroz conhecimento de que a Verdade é Engano e a Ventura é Má Sorte? Era doce sua morte e, para eles, morrer de um vida saciada era o enlevo final; para além dessa morte inexiste o imortal, mas o sono que pesa é do "Não-Ser". Possa minha alma, exausta, ali habitar do eterno Céu distante, e também tão distante do Inferno. Que espírito culpado, em seu bosque trevoso, não ouviu, daquele hino, o apelo clamoroso? Dois só; caíram, pois o céu não dá perdão a quem só ouve o bater do próprio coração. A angélica donzela e o seráfico amado... Mas onde estava o Amor, o cego amor sempre fiel ao Dever austero? (Esforço vão e buscá-lo na célica amplidão.) Sem guia, o amor, caiu, desnorteado, por entre "prantos de perfeita dor". Tombou: que belo espírito era esse! Vagueava pelas fontes que a hera veste a contemplar a luz da abóbada celeste, junto de seu amor, sonhando ao luar. Cada estrela não é qual doce olhar que sobre as tranças da Beleza desce? E elas, e as fontes, tudo era sagrado para seu coração, de amor povoado e de melancolia. A noite foi achar Ângelo, o jovem (noite de pesar) junto a escarpado monte, numa penha erguida sob o céu solene a que desdenha os mundos estelares a seus pés. Sentou-se com sua amada, o negro olhar, qual de águia, o firmamento a pesquisar. Para ela se voltou depois e, novamente, até a Terra desceu, tremulamente. "Que débil luz, não vês, querida Iante? Como é delicioso olhar tão longe assim! Bem diversa, naqueles outono, para mim era ela, quando à tarde abandonei, sem lastimar, seu paço fulgurante, ó tarde que jamais esquecerei! Beijava o sol morrente, em Lemnos, com magia o arabesco salão dourado em que jazia, os tapetes sem conta, os meus olhos fechados, sob o peso da luz na noite mergulhados, e antes cheios de amor, das flores, da neblina, que no seu Gulistan evoca o persa Saadi. Mas essa luz!... Dormi... E a Morte invade os meus sentidos, na ilha peregrina, tão de leve, que nem sequer pressente o adormecido, que ela está presente. "O último ponto então por mim pisado foi Parthenon, o templo sublimado. Suas colunas são de maior maravilha do que a beleza que em teu seio brilha; e quando o Velho Templo soltar veio minhas asas, alcei meu vôo, alcei-o como águia que da torre se alcandora, vendo fugirem séculos numa hora. Enquanto assim nos ares me embalava, metade do jardim terreno se mostrava a meus olhos, tal como um mapa aberto, com sua ermas cidades do deserto. E tanta era a beleza, Iante, ali presente, que quase desejei ser homem novamente." "- Meu Ângelo! E por que a eles voltar, se aqui possuis mais luminoso lar, campos mais verdes que nesse mundo afastado, carinhos feminis... e amor apaixonado? "- Mas ouve, Iante! Quando o ar me faltou, tão suave, e a alma às alturas se lançou, talvez numa vertigem, cuidei ver o mundo, que eu deixara, a abismar-me num caos, turbilhonando, ao léu de ventos maus, rolando em chamas no ígneo firmamento. Querida, então julguei que, em lugar de ascender, eu caía, num lento movimento oscilante, através de luminosa estrada, até pousar em áurea estrela: nesta! Mas foi rápido o tempo da descida, pois era a tua estrela a menos distanciada... Terrível astro! a vir, numa noite de festa, como um Dédalo rubro, à Terra comovida." "-Viemos... Só os da terra... mas não nós... da deusa podem discutir a voz: viemos de toda parte, meu amor, pirilampos alegres, em revoada, não indagues por quê; basta que o visse impor, num gesto angelical, ELA, por Deus mandada. Jamais o velho tempo, Ângelo, se deteve, sobre mundo mais velo a abrir a asa de neve! O olhar dos anjos, do pequeno e baço globo não via mais que o fantasma, no espaço, quando Al Aaraaf lançou-se a atravessar, para alcança-lo, o mar que se constela! Mas quando sua glória aos céus veio pompear, como a Beleza, exposta a olhar terreno, brilha, detivemo-nos, ante a humana maravilha, e, tal como a Beleza, estremeceu a estrela." Os amantes assim falavam e escorria a noite, a declinar, sem que trouxesse o dia. Caíram: porque os Céus esperanças não dão a quem só ouve o bater do próprio coração.
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