| A crise e a crase
Em meio à grave crise que assola a paz, nesses tempos onde defender a vida tornou-se batalha feroz contra a mediocridade humana, deparei-me com um importante problema lingüístico.
A crase é minha crise pessoal. Não me furto aos grandes temas nacionais e internacionais, nem ao meu papel enquanto ator social, como outro qualquer, já que sei da importância da cidadania em qualquer sociedade humana, mas essa fusão de duas vogais iguais, tirou-me do sério.
Escrevi um texto em homenagem a Nelson Rodrigues e coloquei crase, entendendo que estivesse oculta a pessoa de, exigindo a tal crase. Fui enganado num complô da preposição a com o artigo definido a, num elementar triângulo amoroso.
O escritor ao qual me referi, se fosse escritora, levaria crase e ficaria assim: a escritora à qual me referi. Ora, se Nelson Rodrigues fosse mulher, eu não estaria em crise ao me dedicar à literatura.
Meus Deus! Descobri o sexo dos anjos! Se Nelson Rodrigues o fosse, então pornográfico seria, em não levando crase, escritor foi e somos, enquanto não dominá-la, em crise eu viverei!
Ora, crase, um estilo à maneira Nelson Rodrigues, num elementar exercício textual, posso voltar tarde a casa, sem crase nem crise, mas não posso voltar à minha casa onde passei a infância, pela crise sem crase que me fez vendê-la.
Ora, quanta bobagem para extrair do humano sua essência única. A fragilidade ao ser gente!
Nelson, se no mar estivesse e em contrapartida voltasse a terra, no lugar onde nascido tivesse, teria regressado à terra natal, com crase e guerra civil, quase a dominar seu amado Rio.
Melhor suas crônicas de desamor verdadeiro, ao invés de tanta filigrana por dois as, que nem valem alguma grana!
Ó língua pátria, se ficar a distância, sem interferir em minha ânsia de certo escrever, à distância de dez palmos de minha tola insignificância, devolverei a sanidade ao escritor que ora escreve sobre texto que a outro dediquei.
Ó língua divina, quem dera enlaçar a terra, em dia que o pôr-do-sol no ocaso iria. Ó flor sentia, do beija-flor a língua porvir, na busca do alimento à vida lhe servir. Ó língua pátria, dera maestria a outro poeta não daria. Adentrar Brasilis, na casualidade língua diversa não seria!
Ó língua portuguesa, abrasileirada de norte a sul, filha de colonizadores, de escravos e de feitores, da terra e do sal, ainda vertem lágrimas dos sonhos de Portugal.
Ó crase que me atormenta, fui à China, no natal daquele ano. Nem me lembro mais, pois se China não fosse e sim Curitiba, crase não haveria. Voltei de Curitiba e de lá, crase não trouxe não.
Crise sim, pela volta da inflação! Comeu todo meu dinheiro. Maldito dragão!
Professor de português, acabe com todo mal, Tufano, amigo de literatura, seu Tira-Dúvidas virou livro de cabeceira. Por ora, deixarei de escrever crase e asneira. Ó língua divina, inculta e bela, esplendor e sepultura, morrerei em seus braços, pela pátria ofereço amor e toda ternura.
Em meio à grave crise que assola a paz, nesses tempos onde defender a vida tornou-se batalha feroz contra a mediocridade humana, solucionei um importante problema lingüístico: desejo toda infelicidade a Walker Bush, por ser portador da morte. Se mulher fosse, desejaria felicidade à Maria, facultativo o uso da crase. E a vida, por certo, venceria!
Douglas Mondo |