Aflora a vida

As conchas do mar guardam preciosa vida em seu interior. Quando molestadas
fisicamente, desenvolvem glóbulos brilhantes que adornarão vaidades que se
esquecem da preciosidade daquela vida anterior.

Ao ser concebida, a vida pode ser entendida como a mais terrível das
doenças, pois seu envelhecimento é constante e sua morte inevitável.

Ou pode ser encarada como a confirmação da própria existência na imensidão
da eternidade. Uma dádiva perene do universo.

Ela está à sua disposição. Usá-la com sabedoria é o que difere o sujeito do
verbo da ação. Ela é parte do todo. Única e própria. Na curva do tempo ocupa
espaço individual. Não é semente do bem nem do mal. É apenas fruto sem
igual.

Entre o céu e a terra há um glorioso animal. É a mulher. Gera vida em seu
interior e no espelho do milagre universal é o reflexo de seu toque final.

Sem a mulher não há vida humana. Nem ela nem o homem, seu parceiro na
concepção da alma como objetivo existencial.

Não há dia a glorificar-lhe. Nem há data a exaltá-la. É parte indispensável
da vida. É existência querida que ao amor dá guarida.

É o sol que ilumina mansamente todos os prazeres. Que beija seu rebento e o
protege do homem que teima em esquecê-lo aos dissabores do vento.

É a inteligência que presa ao fio pendular dá ritmo ao mundo com sua
sensibilidade peculiar. É a gota de chuva que molha o solo no momento da
seca pela falta de paz secular.

É a alma incandescente que ilumina todos os caminhos e leva a chama da
liberdade a todos os povos com seu amor fraterno e maternal.

É a condução firme do leme na escuna que molha de encanto o toque do cinzel
que imprime beleza em todos os encontros sensuais.

Ela é o pulso que determina o rumo das marchas dos excluídos sociais em
busca de um pedaço de chão para o plantio do milho e do trigo que os livrará
dos grilhões infernais.

Ela é a mulher de todo ano. A dona da vida. Que é amada, odiada, querida,
afastada, pressionada, subjugada e que se sujeita - infelizmente - a
comemorar um dia como sua data oferecida.

Mal sabe o poder que tem nas mãos. Pode ser a condução dos ditames mundiais
na divisão com o homem que se preocupa apenas em ter, enquanto tem ela o
equilíbrio de saber que mais vale o ser.

É ela que aflora vida como salvação da fauna e a da flora no sonho que
sustenta as mais belas utopias. Mas também pode ser a rainha perseguida e
decapitada na exploração das mais loucas fantasias sexuais.

Chega de mansinho e se aloja no peito do homem como broche de coração, para
em seguida prendê-lo entre as pernas como prazer suado de ocasião.

Deita-se ao lado do macho como mulher em oração, quando o quer abraçado em
seu corpo a chamando de louco tesão.

Perdoe-me se a injuriei, mas a tenho na mais alta conta. A quero como flor
perfumada. Na poesia o pecado lindo que sempre amarei.

Saiba que o mundo vive por seu sorriso. Pegue-o em suas mãos e o embale
antes que de tristeza morra. Ferido está. Sangra em dor lancinante.

Não há dia a glorificar-lhe. Nem há data a exaltá-la. Isso é hipocrisia de
homem. Não mais aceite nossa condição imposta. Somos iguais com nossas mais
belas particularidades. Desiguais, por dádivas celestiais.

Com meus respeitos! Profundos e poéticos.

Douglas Mondo