O pensamento de Cruz e Sousa

João da Cruz e Sousa tem um pensamento filosófico, estético, religioso e ético, o qual pelos seus trinta anos se manifesta relativamente bem definido. Reflete mais ou menos o espiritualismo eclético francês, sobretudo aquele da linha intuicionista, no qual também vinham os demais simbolistas.

Acresce ainda advertir que Cruz e Sousa se debate apostolarmente por esse seu pensamento, seja pela poesia, seja pelos ensaios em prosa, que buscando mais aprofundamento, quer escrevendo sobre os resultados obtidos.

Em vez da dissipação social, preferia o estudo e particularmente a palestra erudita. "Cruz e Sousa para fugir às contingências de sua amargura social, dava-se lucubrações excessivas, cinco sonetos de uma sentada, três, quatro, ensaios psicológicos e emotivos por semana" (Carlos Dias Femandes Fretana, citado por A. F. Montenegro).

É um estudioso que se maravilha com os resultados do conhecimento e fica surpreendido pela diferença estabelecida entre o sábio e o ignorante. Luz e Treva ( publicado em Novidades, de 23-10-1891) é a expressão do sentir de Cruz e Sousa como intelectual maravilhado, expressando-se em texto suficientemente longo, para definir a estrutura geral do seu pensamento metafísico e religioso: "Não sei que Luz estranha ilumina os espíritos superiores; eles refletem cousas extraordinárias que os seres vulgares nem sequer percebem, cambiantes de mágico brilho, fulgurações de astros incendidos no céu através a bruma transparente estendida no espaço".

Mais adiante afirma o transcendente: "Há um mundo, uma natureza além das cousas terrestres superior a todas as cousas, em que vivem deuses fabulosos, arcanjos e sombras, que a vulgaridade não conhece. É a grande visão do imenso olhar do talento, que se debruça para dentro do próprio cérebro, que reverbera como um grande foco elétrico, deslumbrado, refletindo visões que pairam no pensamento, aureoladas e fúlgidas, como as causas sublimes que o escritor transporta á tela incomparável dos seus quadros fantásticos, luminosos..."

Diz a respeito dos outros, os seus contraditores: "Só os cérebros apagados não sabem ver assim; só os que não possuem o reflexo da luz suavíssima e aurifulgente das auroras do pensamento, só eles não podem ver, na cinza escura da sua esterilidade, as grandes telas esbatidas e enfeixadas de raios, estrelas e sóis dentro de infinitos azulados e tranquilos; é que na escuridão vazia e tenebrosa que eles têm em si, nada distinguem, nada compreendem, porque não lhes chameja a imaginação, essa peregrina centelha acendida no cérebro como um grande farol na imensidade, essa luz fertilizante que vê as cousas inauditas que nos deslumbram; é que eles têm dentro do crâneo a maldição da treva a esterilizar-lhes a mente, a mergulhá-los na sombra implacável do vácuo e do nada!"

Há a estudar, com mais detalhe:

- Qual a origem genética do pensamento de Cruz e Sousa, enquadrando-o no seu meio ambiente histórico do pensamento catarinense.

- Qual a ideologia geral?
- Quais os conceitos estéticos?
- Quais as meditações sobre si mesmo?
- Finalmente, qual o nível temático alcançado?

Origem genética da ideologia.

O pensamento de Cruz e Sousa principia como uma herança da inteligência catarinense. No quadro catarinense ocorreram todavia algumas fases.

Por convenção social de origem João da Cruz e Sousa era católico desde o nascimento em 24 de novembro de 1861, e foi efetivamente batizado no quarto mês, em 4 de março de 1862 na igreja matriz de sua cidade natal.

À medida que passou a tomar posições conscientizadas, suas idéias foram sendo transformadas, para uma visão de síntese discorde da Igreja católica, da qual discretamente se afastou, assumindo uma posição similar a do espiritismo, já então em formação na capital de Santa Catarina. Aliás a doutrina do professor Allan Kardec (1804-1869) se enquadra no espiritualismo eclético francês, do qual foi o ramal espírita, e passou a ser muito lido também no Brasil, graças à então influência da literatura francesa.

A linguagem litúrgica e os episódios rituais a que se refere Cruz e Sousa passaram a ser utilizados apenas como recursos literários de conotação com o transcendente, tal como também procedeu com os mitos gregos e nórdicos, ou com a linguagem adotada do satanismo dos simbolistas franceses.

Já cedo, ainda como jovem da Província, duas influências ideológicas se estabeleceram na mente de Cruz e Sousa, - o naturalismo evolucionístico e o monismo. Com referência a este, fora talvez inicialmente ao modo do monismo naturalista e positivista de Spencer, Haeckel, Fritz Müller; mas logo terá sido transformado no monismo espiritualista. A primeira forma do monismo como que se transforma na segunda, fenômeno que também acontece com outros intelectuais brasileiros da época, Farias Brito em especial.

O pensamento de Cruz e Souza trouxera pouco do seu passado africano, no que se refere ao ponto de vista ideológico, senão o vago e atávico misticismo da raça e a tendência panpsiquista peculiar dos povos primitivos, de onde aliás sua predisposição para o monismo espiritualista.

Cruz e Sousa assimila, encantado, o pensamento europeu, que o encontrou desde os bancos da escola, sobretudo na nova diretriz dos professores do ensino médio oficial então criado pelo governo da Província em substituição do colégio dos jesuítas. Este encanto pela civilização ariana se mantém no decorrer de todos os anos operosos de sua vida de artista da palavra.

"Cruz e Sousa é um poeta maravilhado. Ingênuo no meio da civilização ocidental, para a qual seus antepassados concorreram apenas com o braço físico, ele olha para tudo com os olhos de Epimênides. Tudo nele se transforma nas sensações do náufrago de uma raça, que pelos seus dotes se encontra iniciado na grande vida e relativamente acomodado no seio arminoso (como ele mesmo diz) dessa deliciosa movimentação" (Araripe Júnior, O movimento de 1893, p. 90).

Do ponto de vista da história do pensamento de Santa Catarina, o naturalismo evolucionista remonta aos primeiros professores do ensino médio oficial da Província, - primeiramente do Liceu, depois do Ateneu, - os quais criaram uma tradição, dentro da qual se formou o espírito de Cruz e Sousa. A mentalidade a que nos referimos contestava algum tanto o espiritualismo tradicionalista e cristão. Sob este ponto de vista, João da Cruz e Sousa foi verdadeiramente discípulo dos seus mestres.

Há, pois, aqui, relembrar elementos biográficos e a situação do ensino médio da Província quando nele estudava Cruz e Sousa (vd 16 e 17), agora enquanto ofereceu condições que romperam com a maneira tradicional de pensar. O tema que já fora tratado em função à sua educação meramente escolar, volta a nos ocupar de novo com vistas à ideologia herdada do mesmo ambiente.

As ideologias do mundo exterior repercutem em Desterro (4). Tiveram o estímulo fácil, e cedo, através dos intelectuais da imigração germânica, sobretudo de Fritz Müller. E ainda através dos professores vindos do centro para a província. Como sucedeu a João José das Rosas Ribeiro de Almeida e aos irmãos Nunes Pires, além do instrumento da literatura francesa circulando por todo o país.

Encerrado o Colégio dos jesuítas espanhóis em 1853, em conquência da febre amarela, o governo da província teve de cuidar do restabelecimento do ensino médio. Criou por lei de 6 de maio de 1856 o já citado Liceu Provincial, iniciando as aulas a 1º de fevereiro de 1857.

Este acontecimento, que reuniu professores de variadas tendências, foi o ponto de partida para o desenvolvimento de uma pequena intelectualidade viva em Santa Catarina, com manifestações na cátedra, na imprensa, na tribuna política, com prós e contras, que repercutirão também nas igrejas de diversas confissões, e que terá influência na diversificação das religiões, no desenvolvimento da maçonaria e do espiritismo, do positivismo e novas maneiras de pensar.

Anote-se inclusive que também agora há uma biblioteca pública estável que oferece as mais variadas leituras aos elementos intelectuais da cidade. A imprensa, também estabilizada, difunde idéias e transcreve textos europeus.

Deve-se ao Dr. Blumenau, fundador da colônia hoje cidade Blumenau (1850), a vinda, para o Liceu Provincial de Desterro, do Dr. Fritz Mülller (1822-1897). Filho de pastor protestante, com 22 anos colou grau de Doutor em filosofia, estudando depois medicina, aderindo ao evolucionismo de Darwin. Deixou em 1852 a Alemanha, para se estabelecer na colônia do já seu conhecido Dr. Blumenau, no Brasil. Mas foi habilmente afastado pelo fundador da colônia, para o magistério na capital da província, para que suas idéias materialistas ou monistas não criassem problemas religiosos entre a população protestante daquela comunidade.

Proveram-se inicialmente no Liceu Provincial as cadeiras de francês, - João José das Rosas Ribeiro de Almeida; de inglês - Guilherme Wellington; de latim - Ricardo Becker (Diretor); matemática - Fritz Müller. A liberdade mental de todos e o caráter protestante dos três últimos, expressa algo inteiramente novo na tradicional capital da província.

Os supersticiosos atribuíram à presença protestante as dificuldades que o Liceu veio a sofrer. Ainda continuarão a lecionar e a influir sob novas modalidades que o ensino venha a tomar até o final da província e vésperas da república.

Ricardo Becker, também imigrante de Blumenau e protestante luterano, falecerá mais cedo, o que motivou, em parte, o declínio e o fechamento do Liceu, que, uma nova política de ensino, substituiu pelo Colégio Jesuítico SS. Salvador (1865-1870), com mestres italianos.

Ficaram os professores do anterior Liceu Provincial, na qualidade de avulsos, com os seus direitos, - Fritz Müller, como de matemática, João José das Rosas, como de francês. Na de inglês já está agora Anfilóquio Nunes Pires, também de idéias avançadas. Discordando eles da nova modalidade que se dera ao ensino secundário por contrato com os jesuítas, avisam que vão reabrir, gerando confusão. Os jesuítas, que são italianos, sofrem dura oposição, sendo combatidos não só pedagogicamente, mas também pelas suas pregações puritanas nas igrejas de Desterro (vd 55).

Um artigo assinado por "Anti-jesuíta" em O Mercantil de 7 de março de 1868 tece um arrazoado histórico-filosófico sobre a inconveniência da entrega do ensino secundário a professores estrangeiros, a "uma ordem sem pátria, os jesuítas". Debates contínuos pela imprensa criam uma certa versatilidade do espírito desterrense em torno da problemática do ensino, da modernidade dos métodos, da liberdade de consciência, etc.. Finalmente o Colégio jesuítico fechou tempestivamente em começos de 1871

Os primeiros líderes do ensino oficial restabelecem à anterior diretriz progressista. No campo das letras e da filosofia não era nada mais que a participação com a mentalidade inovadora da Europa.

Um destaque para o Dr. Fritz Müller (1822-1897). Entrementes o Dr. Fritz Müller, recebera o título de "Doutor Honoris Causa" conferido em 1868 pela Universidade alemã de Bonn, quando já onze anos professor no Liceu Provincial, depois Ateneu Provincial, "...por ter ampliado de muito os conhecimentos no ramo da botânica e da zoologia e por ter, com os seus estudos sobre a evolução dos crustáceos do litoral brasileiro, ajuntado sólidas argumentações e provas ás teorias darwinianas".

Recebia ainda o sábio Fritz Müller o mesmo título de "Doutor Honoris Causa" da Universidade de Tübingen.

Em 1859, ao publicar Charles Darwin seu livro famoso Origem das espécies, citará também a "Fritz Müller de Desterro". Este publicará na Alemanha Pro Darwin, em 1864, com versão inglesa em 1869, francesa em 1883, resumo em português em 1907. O total de seus escritos e cartas de informações científicas estão hoje publicadas em 4 volumes.

Tudo isto prova que a Escola de Recife (Tobias Barreto, Sílvio Romero, Clovis Bevilacqua), em suas doutrinas monísticas não era tão pioneira quanto se têm dito e se supunha. Pelo contrário, os pensadores de Recife aprenderam nos livros de Darwin, e Haeckel, nos quais se argumentava com o professor Fritz Müller de Desterro, e professor de Cruz e Sousa.

Demoramo-nos em descrever o que acontecia na Capital de Santa Catarina, para destacar o clima em que se desenvolveu a adolescência de João da Cruz, onde ainda esteve até seus 29 anos, saindo então para o Rio de Janeiro, com sua cabeça já ideologicamente feita. O clima descrito foi também aquele em que se formaram todos os novos de sua geração, e que então foram seus companheiros. Dentre eles se deve citar em primeiro lugar o mesmo filho de João José das Rosas.

Dentre estes novos se deve citar em primeiro lugar o poeta Oscar Rosas, em vista da relação linear de pai para filho e a estreita ligação de Cruz e Sousa como seu mestre de francês, idioma a que se dedicou e que lhe valeu o contato fácil com as inovações européias.

Quando Cruz e Sousa em 1884 transitou por Recife, ali encontrando a presença da ideologia da escola de Tobias Barreto, serviu como que de elemento de ligação entre o pensamento do sul e o do nordeste. A ligação também fora estabelecida pelo catarinense João Silveira de Sousa (1824-1906), político liberal e poeta romântico, que para lá seguira em 1852 e exercera a função de professor na Faculdade de Direito de Recife.

Em 1874, tempo áureo do Ateneu Provincial, com 109 alunos, entre eles Cruz e Sousa, são professores: Dr. Genuíno Firmino Vidal (eloquência e poética); José Maria Branco (gramática portuguesa); Luiz Augusto Crespo (filosofia); Fritz Müller (matemática, com 46 alunos) ; Anfilóquio Nunes Pires (inglês); João José das Rosas Ribeiro de Almeida (francês, com 49 alunos) ; João Carlos Watson (história e geografia); Pe. José Leite Mendes de Almeida (Latim, com 12 alunos). Diretores sucessivos: Cap.-Tte. da Marinha Paes Leme (1874-1876), João José das Rosas Ribeiro de Almeida, por último Pe. José Leite Mendes de Almeida.

Ao tempo de Cruz e Sousa jovem, há uma grande movimentação colegial em Desterro. Funcionam estabelecimentos de ensino paralelos aos oficiais, - Colégio Catarinense de Guilherme Wellington e Colégio Franco-Brasileiro do professor Leon Eugênio Lapagesse, o Colégio Ramos do professor José Ramos da Silva.

O governo da província criara também a Escola Normal em 1880; vindo a abrir em 1882, foi absorver definitivamente em 1883 o Liceu Provincial. A atividade estudantil chegou ao desenvolvimento de se organizar em diretórios e possuir imprensa própria.

A par destas condições oferecidas pelo ensino médio ao desenvolvimento da intelectualidade da província, ocorre ainda o contato com o ensino superior das faculdades de direito e de medicina de São Paulo e Rio de Janeiro, onde muitos jovens da província iam estudar. É o caso de Gama Rosa e Paranhos Schuttel, políticos liberais que influenciarão Cruz e Sousa, conforme voltaremos a tratar adiante.

O positivismo filosófico (de Comte, Taine, Littré), combinado com o evolucionismo e o monismo (de Herbert Spencer, Charles Darwin, Ernst Haeckel, Fritz Müller) atua no pensamento brasileiro e catarinense desde a segunda metade do século 19.

Cruz e Sousa não chegará a ser um positivista, como seu bem sucedido colega Dr.José Boiteux, secretário dos primeiros governos da República e fundador em 1896 do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina; diferentemente deste, Cruz e Sousa evoluírá numa direção espiritualista e eclética.

Não obstante foi também influenciado pela discussão dos positivistas. Lê e cita alguns dos seus expoentes, sobretudo aqueles que combinam positivismo e evolucionismo, como Spencer, Haeckel, Darwin, Littré, sem contar os nomes que transpõem esta mentalidade para o plano da literatura, como Zola e Eça de Queiroz.

É possível acompanhar alguns detalhes deste contato com o pensamento contemporâneo.

Já em soneto de 23 de julho de 1883, - Idéia Mãe, - escrito de trânsito em Rio Claro, São Paulo, cita nomes como Victor Hugo, Haeckel, Litré.

Em São Luiz do Maranhão escreveu, em 1884, e publicado em Desterro, o ensaio critico Espectro do Rei - Versos de Moreira de Vasconcelos, em que cita Comte: "Agitar a alma a todas as sensações capazes de robustecer o espírito, ter a penetração do "Grande Meio" na frase de Comte..."eis o que é ser poeta".

Este foi portanto o tempo em que na capital de Santa Catarina se desenvolveu intensivamente o movimento literário da Idéia Nova, ou do parnasianismo, que é de fundo naturalista e positivista. Ao mesmo tempo, o naturalismo expressa oposição sobrenaturalismo da Revelação cristã.

Gama Rosa. O movimento da Idéia Nova (vd 44), da década de 1880, sobretudo da fase Presidente Gama Rosa (1883-1884), não é, do ponto de vista ideológico, nada mais que o desabrochar pleno das sementes que os mestres anteriores, do Liceu Provincial e do Ateneu Provincial, já vinham lançando e que têm novas florescências aos contatos frequentes com o Rio de Janeiro e com a Europa.

O Dr. Francisco Luiz da Gama Rosa ocupou destaque especial na continuidade ideológica do pensamento naturalista e evolucionista do sábio Fritz Müller, em Santa Catarina. Nascido embora, em 1851, na cidade de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, quando ali seu pai, de idêntico nome, prestou serviços, veio, em 1860, depois de reformado o seu pai, estabelecer-se em Desterro.

Aconteceu assim que "aí cursou as aulas do Liceu Provincial, sendo discípulo dileto do célebre naturalista darwiniano, Fritz Müller ... Frequentou também um colégio de jesuítas, sucessor do Liceu, vindo, em seguida para a cidade do Rio de Janeiro, a prestar exame de preparatórios, preparando-se, para esse intuito, no colégio Marinho... Ultimando, no espaço de dois anos, os preparatórios, matriculou-se, em 1871, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, formando-se em 1876. Durante seis anos exerceu uma clínica humanitária e quase gratuita, no arrabalde da Gávea, até ser, em 1883, nomeado presidente da província de Santa Catarina, por arguta e selecionada escolha do Imperador, do Ministro do Império Antunes Maciel e do Almirante Lamare" (Virgílio Várzea, Notas biográficas, publicadas no início do livro de Gama Rosa, Sociologia e Estética, 1914, p. 18-19).

De retorno ao Rio de Janeiro, depois do ativar o meio intelectual catarinense, continua ligado a diversos autores nossos, como Cruz e Sousa e Virgílio Várzea. Dá início, então, aos seus freqüentes artigos na imprensa, difundindo idéias e notícias, de que resultaram seus livros. Tais são :Educação intelectual; Biologia e Sociologia do Casamento; Simbolismo ou Decadismo; Estudos críticos e filosóficos (sobre Spencer e Comte) ; Sociologia e Estética - Comentários.

A ligação de Gama Rosa com Fritz Müller é clara, no artigo que o mesmo dedicou ao sábio imigrado para aqui: "Conhecêmo-lo em Santa Catarina, quando professor de matemáticas, no Liceu Provincial, de que fomos juvenil aluno, durante três anos, de 1862 a 1865" (Sociologia e Estética, 1914, p, 106).

E continua seu valioso depoimento: "Fritz Müller singularizava-se, como naturalista, por intensíssima e universal intuição filosófica, como assinalado intérprete das doutrinas de Darwin, com quem ativamente correspondia-se... Fritz Müller, apesar de aparências abstratas e reservadas, era vivacíssimo espírito, sempre a par não só de progressos científicos, como de todos os sucessos ocorridos no mundo, e muito especialmente no Brasil, acompanhando-os detidamente em prolongadas leituras de jornais da Alemanha e nas do nosso invencível decano, o Jornal do Comércio" (lbidem, p, 106-107).

Retirou-se Fritz Müller definitivamente, para Blumenau, em 1876., ano em que também Cruz e Sousa concluía o curso no Ateneu Provincial. A presença jovem, de Gama Rosa, retornado a Santa Catarina em 1883 e 1884, já agora como Presidente da Província, reativou um pensamento naturalista já estabelecido. E não escapou a Virgílio Várzea a percepção do paralelismo com a ação de Tobias Barreto no Nordeste: "Qual avultadamente se constata, essa intensa e extensa evolução estética e mental catarinense., oriunda do célebre filósofo dos Comentários .(livro de Gama Rosa), só é comparável ao movimento despertado, no norte do Brasil, pela ação de Tobias Barreto" (em Sociologia do pensamento, Notas biográficas p. 22).

A significação de Gama Rosa é apreciável, tanto pela influência pessoal, como da que exerce pelos livros de sua autoria. Virgílio Várzea o chamará pouco depois de sair da presidência, "o pai do seu espírito e o protetor magnânimo do seu destino", em discurso a 25 de dezembro de 1885 no Liceu de Artes e Ofícios. Cruz e Sousa não é menos magnânimo em apreciações. Em carta a Gonzaga Duque, de 11 de abril de 1894 diz de trânsito, conforme já citado - "penso também que o único homem fora da nossa linha artística (da Revista dos Novos).., é o Dr. Gama Rosa, que podemos considerar, à parte toda a nossa independência e rebelião, como um austero e curioso Patriarca do Pensamento! "

Biologia e Sociologia do Casamento, do Dr. Gama Rosa, tem o efeito de um impacto. Um artigo, com título deste livro, que João da Cruz e Sousa apreciou, artigo que talvez deixou inédito, datando provavelmente de 1887, enuncia o pensamento do poeta sobre as novas idéias. Seu pensamento se completa em outro artigo Um livro novo (do Dr. Gama Rosa e que de fato não saiu), publicado em abril de 1887, complementa o anterior (cf., n. 63).

O relacionamento desde a infância. com o médico e político liberal, Dr. Duarte Paranhos Schuttel, também é apreciável no estudo genético do pensamento estético e naturalista de João da Cruz e Sousa. O Dr. Schuttel já vinha sendo culturalmente ativo desde os bancos do Colégio D. Pedro II do Rio de Janeiro, onde se bacharelou em 1885. Estudando medicina, foi membro da Academia Filosófica, fundada pelos alunos da Faculdade de Medicina, quando apresentava o trabalho Primeiras noites do bardo (1857) e posteriormente Análise das obras de Álvares de Azevedo.

Ideologia geral ou metafísica

Faltam textos para definir claramente a metafísica de Cruz e Souza. De fundo monista e espiritualista, seu pensamento , - muita vez oculto sob a frase, - admite uma espécie de unidade geral do universo, muito mais que a grande síntese de Comte, por que complementada pelo universalismo evolucionístico de Spencer, Darwin, Haeckel, Fritz Müller..

Mais para final dos seus anos o pensamento de Cruz e Sousa reforça o elemento espiritualístico da grande unidade da natureza.

Não está livre, agora, de conceber o espírito à maneira singela do orfismo, pitagorismo e platonismo, isto é, o espírito em estado de esforço constante de aperfeiçoamento e superação da matéria, até liberar-se definitivamente dela, quando de todo purificado.

Neste seu pensamento final, tende Cruz e Sousa a perder de vista o monismo inicial, para retornar a ser um dualista. Passa a matéria a não mais se consubstanciar com o próprio espírito, como se os dois elementos se reduzissem a um só, com duas faces da mesma realidade. A matéria seria um cárcere do espírito.

Efetivamente define Cruz e Sousa a vida como Auma abstração, na qual o pensamento é, sem dúvida, uma doirado pássaro, viajando pelas mais altas regiões etéreas, inacessíveis à vontade da matéria (no inédito Horácio de Carvalho, apud Virgílio Várzea, Correio da Manhã, 17-3-1907).

Nirvanismo é expressão do mesmo Cruz e Sousa e que sugere algum tanto seu modo de pensar como se aproximando do monismo budista. Em Evocações (1898) um item leva este nome - Nirvanismos... Numa frase de cabeçalho diz:

"Há loucuras que, como as noites polares, se transformam em verdadeiras auroras boreais reveladoras da mais perfeita lucidez e são a ponte mágica de cristal e azul sobre a qual emigramos do gólfão infernal da Terra para as alvoradas de ouro de um ldeal."

Imitando ao estilo de Nietsche, assume seu pensamento. Á semelhança de uma personagem deste. Araldo (ficção de Cruz e Sousa) é o filósofo em andanças e preocupado com o problema, em meio à natureza em transformação e eterno retorno ascensional:

"Madrugada verde, madrugada de esmeraldas liquefeitas que cintilavam na folhagem tenra, foi essa em que Araldo se fez de marcha, florestas densas a dentro, através da frescura e da virgindade lirial da luz que ondulava...

Já todo o extremo limite do mar, no horizonte longe, acendia, rebrilhava, num polimento de cristal sonoro e a última estrela tardia, terna e doce, vagava, peregrinalmente vagava na Boêmia celeste, extinta já no esplendor verde da madrugada subindo, a intensidade viva da sua chama branca das cândidas vigílias esponsalícias dos astros.

Pairava no ar um anseio voluptuoso de despertar, um espreguiçamento, de braços lânguidos, uma revelação genésica, o nebuloso sentimento da renascença da terra, sempre casta e fecundadora, sonhando e gerando as perpetuidades da vida".

Depois de muitas páginas simbolistas, sobre os anos que se desenrolam para Araldo, conclui com frase verbosa, todavia em síntese mais teórica, sobre seu pensamento nirvanista:

"No meio desse tétrico deserto nunca imaginado, desse luar inquisitorial, mortal esse vento sinistro tinha uma ressonância subterrânea, funesta e cruel de clamor nihilista, evocava as florescências e as quintessências doentias das sensibilidades do Budismo.

E Araldo, cada vez mais Espectro em meio à Natureza toda, cada vez mais silhuético, mais perdido, mais apagado, mais vago no vácuo tremendo daquelas vastidões dolorosas, o vulto cada vez mais diminuído, sumindo-se, sumindo-se, sumindo-se na distância, na absorção da Imensidade circunvolente, absurda e insensivelmente mergulhou nos turbilhões do vendaval terrível, foi arrebatado nas malhas atrozes e negras do simoun, envolto na lúgubre mortalha dos areais - louco, no auge da sua loucura, na crise formidável dos acordados e alucinados pesadelos, que lhe abalavam assim, sempre, fundamente, o cérebro e eram, no entanto, através da grande alucinação da Vida, do abismo eterno da Vida, as únicas horas mais felizes e puras em que ele se enclausurava nos tabernáculos fechados da sua Paixão, os únicos instantes sagrados, os únicos momentos lúcidos para os sóis febricitantes, esquisitos e majestosos da sua fabulosa e sobre-humana Imaginação de louco...".

O pensamento de Cruz e Sousa tem afinidades com o pessimismo de Schopenhauer (1788-1860) e Eduard Hartmann (1842-1906).

A natureza, como universal aspiração ou vontade de querer, é um processo doloroso. Assim acontece que há uma dor universal, de que os casos particulares ou episódicos, não são mais que manifestações. O pensamento de Cruz e Sousa é mais otimista. Quando deixa entrever este seu modo de ver, se percebe que tem conhecimento daqueles filósofos alemães.

Na análise do pensamento de Horácio de Carvalho, em artigo inédito sob este título, da fase final de sua vida, aborda a situação deste amigo enquanto seguidor dos mencionados filósofos pessimistas. Ao mesmo tempo vai revelando seu ponto de vista pessoal.

A posição filosófica que atribui a Horácio de Carvalho é também ilustrativa de qual era o pensamento então reinante em Santa Catarina, ambiente de onde procedeu Cruz e Sousa.

"Horácio de Carvalho parece viver apenas numa flirtation com as idéias, numa despreocupação de touriste e num diletantismo d=Arte, a que as asperezas e arestosidades do meio emprestaram já as cores tristes e carregadas de um pessimismo pungente que se originara primeiro nas leituras intensas desse intenso e artístico Schopenhauer, conquanto, na transparência dessa despreocupação aparente, ele analise, perceba e sinta passar, como entre a difusa e doce luz do crepúsculo matinal os primeiros espectos do dia que sobe, as formas vivas e as manifestações dos fenômenos naturais".

Em artigo de 26 de março de 1892, entitulado Doença Psíquica, são relativamente pronunciadas as restrições ao pessimismo de Schopenhauer. É o início claro da virada de Cruz e Sousa para o simbolismo.

"Que mal vos fez a vida, ó serenos filósofos, para a encherdes do mais negro Pessimismo, como de uma treva noturna e dolorosa e de um rio de sangue eterno!"

Estabelecida a pergunta do intróito, Cruz prossegue, interpretando:

"Para ti, Schopenhauer, a existência é a materialidade, o alimento, para ti, é apenas a necessidade de prevalecer na luta, a força para a função dos órgãos nervosos, a bem de que se propague a espécie; - enquanto que para outros, ò sombrios monges do Pensamento, o alimento é a lascívia, a lascívia da Carne, que fazia, desde os romanos, a carne viçosa e rica.

Basta, para ti, que o estômago metodicamente funcione, na normalidade cronométrica de um relógio, a fim de que tenhas a positiva segurança de que subsiste aos vermes e à seca dissecação dos fenômenos da natureza.

No entanto, para outros, o sentimento palatal educado, gozando o requinte das iguarias faustosas, de incomparáveis gourmandises, as vaporosas luminosidades de dourados vinhos, apenas bastam para que os sonhos sejam felizes e o sorriso seja alegre.

Para esses, os alimentos, como no Oriente o fumo, têm insubstituíveis encantos, voluptuosas graças de viver, que afilam, acendem a imaginação, fazem abrir e flamejar por todos os pontos do mundo, infinitamente, os mais inauditos sóis do espírito".

E volta a carregar sobre Schopenhauer: APara ti, Schopenhauer, os seres orgânicos não têm senão o caráter essencial da consciência vital e representam no mundo, funcionalmente, o mesmo valor dos elementos inorgânicos, químicos e físicos da terra.

Por isso, ó egrégio, magnificente filósofo alemão, eu, que no entanto sinto e percebo a sua radiante e clara verdade, que brilha e fere como as arestas agudas de um cristal, - verdade aceita pelos homens sob a nebulosa denominação de Pessimismo, - eu tenho tédio, profundo, supremo, e inesgotável tédio, vendo que a vida orgânica é toda ela adstrita á matéria, e que apenas, para ser feliz, nada mais é preciso do que ter a estrutura de um forte e belo animal, premunido de garras pára o assalto, de dentes para devorar e com a regular circulação do sangue pára o equilíbrio do coração e do cérebro".

Oração ao Sol, abrindo as páginas de Missal (1891), tem a solenidade e o arrojo de Nietzsche no Intróito do seu Assim falou Zaratustra (1883). Temos aqui o Cruz e Sousa do Rio de Janeiro, em novo meio, definindo-se com o entusiasmo de quem possui uma intuição nova e grande sobre a realidade geral.

"Sol, Rei Astral, deus dos sidérios Azuis, que fazes cantar de luz os prados verdes, cantar as águas! Sol imortal, pagão, que simbolizas a Vida, a Fecundidade! Luminoso sangue original que alimentas o pulmão da Terra, o seio virgem da Natureza! Lá do alto zimbório catedralesco de onde refulges e triunfas, ouve esta Oração que te consagro neste branco Missal da excelsa Religião da Arte, esmaltado no marfim ebúrneo das iluminuras do Pensamento".

Pouco adiante reaparece o tom da coragem direta de Nietzsche:

"Concede, Sol, que os manipanços não possam, grotescamente, chatos e rombos, com grimaces e gestos ignóbeis, imperar sobre mim; e que nem mesmo os Papas, que têm à cabeça as veneráveis orelhas e os chavelhos da Infalibilidade, para aqui não venham, com solene aspecto abençoador, babar sobre estas páginas os clássicos latins pulverulentos, as teorias abstrusas, as regras fósseis, os princípios batráquios, as leis de Crítica-megatério".

É claro que João da Cruz e Sousa se refere simbolísticamente aos Papas da arte parnasiana.

Mas, o espírito com que estrutura o texto de Oração ao Sol se inspira em algo como sua concepção global do Universo. Na Oração ao Sol se apresenta otimista, em uma luta para maior, em que admite a vitória final. Ainda que tenha seu pensamento afinidades com o universalismo da vontade de querer de Schopenhauer, não é pessimista. Tem, pelo contrário, o impulso valente da vontade de querer de um Nietzsche.

A metafísica da dor universal, que paulatinamente se desenvolve na mente de Cruz e Sousa, requer mais algumas considerações. O tema schopenhaureano da Dor, como tema, ganhou progressiva ênfase no poeta e escritor negro e teria sido, talvez, a futura linha de sua temática, se não viesse a falecer prematuramente.

Participa com Schopenhauer, enquanto admite esta dor universal. Discorda dele, enquanto deixa o seu pessimismo, para entender a dor à maneira de um esforço de luta, capaz de purificar e conduzir a bom termo.

No conceito geral da metafísica da dor, de todas as Filosofias do gênero, inclusive do nirvanismo oriental, a universal transformação, se procede por um esforço dolorido, de que, conforme já adiantamos, os casos particulares de sofrimento não são senão episódios do mesmo esforço geral. O episódio, quando alegado, não é senão a oportunidade que leva Cruz e Sousa a ter a intuição da dor universal, que então trata sob perspectiva metafísica.

Até certo ponto, Cruz se encanta com a contemplação da dor universal, como um destino a enfrentar e viver, com a previsão final do dever cumprido e da liberação do seu espírito. A dor, assim entendida, é a tensão do espírito em marcha evolutiva e de transcendentalização a ser concluída no momento da morte, quando o espírito se libera. Tal preocupação órfica, que dominou a Sócrates ao se preparar para a morte, apossou-se de Cruz e Sousa, que também previa o termo final dos seus dias.

Ocorrem fases evolutivas na metafísica da dor universal de Cruz e Sousa.

O problema da dor via-o primeiramente em círculos menores, como o do negro, de onde participar no movimento abolicionista, ou como o de sua difícil ascensão pessoal, de onde perambular em busca de um emprego.

Depois tem a intuição da dor como um problema do homem em geral. Finalmente, passa a considerações eminentemente metafísicas de toda a Natureza, como um todo em transformação, luta, sofrimento, para atingir um resultado maior.

As diferentes esclas de dor ocorrem em escritos também distintos:

"Em Broquéis (1891) é, substancialmente, a dor de ser negro que se exprime; em Faróis, a dor de ser homem, o que já representa, com relação a Broquéis, um ponto muito mais alto na escalada; em Últimos sonetos, a dor, mas também a alegria e a glória de ser espírito, de comungar com o eterno e heroicamente sobrevoar os abismos e as sombras da pobre terrealidade. Claro que se trata de simples esquematização, para efeitos didáticos" (Tasso da Silveira, Cruz e Sousa, Poesia, Apresentação, Rio 1960, p. 7).

Foi o império das circunstâncias que conduziu o poeta a meditar com mais intensidade o tema e a desenvolvê-lo. Os ecos de Sohopenhauer continuam em sua alma, todavia repensados e sublimados no otimismo da vitória final do espírito.

Este império das circunstâncias o fazem repetir os temas, às vezes cansando o leitor, mas sempre com alguma progressão e nova perspectiva.

Já o anotava Nestor Vitor: "Últimos sonetos têm um dos defeitos que prejudicam Broquéis: falam-nos quase só de um estado geral de alma que não posso lê-lo ininterruptamente. Anseia-me, lacera-me a própria monotonia dessas voltas aos mesmos motivos" (Introdução, 1923, p. 57).

Os temas baudelairianos, que influenciaram Cruz e Sousa, consistem nas conexões entre a noite e a morte, o sono e o túmulo, como um final de jornada sem esperança de paraíso e sem inferno, um final que nos entristece. As coisas exteriores só podiam conectar-se com a realidade infeliz, - o céu como tampa de sepultura, a penumbra da noite, as larvas, as bruxas, o sono, etc., tudo como conotando com algo sombrio para nosso destino, no rolo da universal transformação.

Por estas veredas e técnicas se encaminhou Cruz e Sousa, compelido pelo sofrimento negro, insucesso social e econômico, pela desgraça suprema de um mal incurável. Com uma diferença, a de que Cruz e Sousa acreditava no destino panteístico favorável do todo e sobretudo na soberania final do espírito, que, sofrendo enquanto se esforça, chega a sobrevoar nas alturas.

A doutrina baudelairiana da purificação era mais linear, ao rés do chão terrestre, menos ambiciosa que a do devaneio órfico do poeta brasileiro.

Baudelaire serviu mais à lama de Satã, Cruz e Sousa mais ao nirvana de Buda. O francês é satanista. O brasileiro é nirvanista.

Uma direção cristã e até católica é o que alguns pensaram ver na possível chegada final de Cruz e Sousa.

"Tendo começado a evoluir para mais definido espiritualismo, mas ainda inseguramente, em Faróis, só nos Últimos sonetos ele apresenta uma feição nitidamente cristã, feição essa que sempre foi nossa, e que ora, como em toda parte depois da Guerra, melhor, outra vez, se verifica na nova geração" (Nestor Vitor, Introdução, 1923 p.59).

Efetivamente, ao longo do simbolismo se formou uma corrente de pensamento católico.

Na França o principal representante desta linha foi o poeta católico Paul Claudel, nascido em 1866, com retorno à Fé católica em 1886.

Sucedeu o mesmo no Brasil, com Nestor Vitor e Tasso da Silveira.

Diz Tasso da Silveira, sob seu ponto de vista pessoal de católico, a respeito de Cruz e Sousa:

"Esta oração à Virgem (Regina Coeli) vale muito mais como condensação poética de vago impulso para a Igreja do que, propriamente, como expressão de fé católica. Filho de um tempo em que, no Brasil, os homens de inteligência ou preconceito se afastavam de Cristo, Cruz e Sousa nunca pôde descobrir a plenitude de beleza, verdade e consolo do catolicismo" (T. da Silveira, Cruz e Sousa, Poesia, 1960, p, 18, nota 4).

A tendência espiritualista geral não deve ser confundida com a Fé sobrenaturalista. Esta não tem aumentado entre os modernos, como parecem acreditar alguns convertidos da época simbolista. Pelo contrário, a interpretação histórico-crítica do cristianismo, como produto meramente cultural, alcança cada vez mais adeptos.

O mesmo Cruz e Sousa se refere à religiosidade de Renan, o qual de outra parte foi um dos grandes promotores da nova visão meramente cultural do cristianismo. As obras de Renan (1823-1892), aliás, circulavam então também em Florianopolis em Florianópolis.

Quanto ao Regina Coeli de Cruz e Sousa, sua data é bastante remota, publicado que foi em Broquéis, de 1891, quando o pensamento definitivo do poeta ainda tem vários anos de desenvolvimento. Mas, no mesmo Regina Coeli está muito claro que se trata de "Mistério.., d'estranhos Missais de um novo Rito!", como está no seu último verso.

A liturgia antiga serve, na poesia de Cruz a um novo pensamento. E de que forma admirável, quase tanto quanto em Oração ao Sol, no intróito de Missal, do mesmo ano de 1891. Leia-se Regina Coeli:

Ô Virgem branca, Estrela dos altares,
Ò Rosa pulcra dos Rosas polares

Branca, do alvor das âmbulas sagradas
e das níveas camélias regeladas.

Das brancuras da seda sem desmaios
e da lua de linho em nimbo e raios.

Regina Coeli das sidéreas flores,
hóstia da Extrema-Unção de tantas dores.

Ave de prata e azul, Ave dos astros...
Santelmo aceso, a cintilar nos mastros...

Gôndola etérea de onde o Sonho emerge...
Água Lustral que o meu Pecado asperge.

Bandolim do luar, Campo de giesta,
Igreja matinal gorjeando em festa.

Aroma, Cor e Som das Ladainhas
de Maio e Vinha verde dentre as vinhas.

Passa o poeta das aclamações glorificantes, a preces:

Dá-me, através de cânticos, de rezas,
o Bem, que almas acerbas torna ilesas.

O Vinho douro, ideal, que purifica
das seivas juvenis a força rica.

Oh! faz surgir, que brote e que floresça
a Vinha d'ouro e o vinho resplandeça.


Pela Graça imortal dos teus Reinados
que a Vinha os frutos desabroche iriados.

Que frutos, flores essa Vinha brote
do céu sob o estrelado chamalote.

Que a luxúria poreje de áureos cachos
e eu um vinho de sol beba aos riachos.

Virgem, Regina, Eucaristia, Coeli,
vinho é o clarão que teu Amor impele.

Que desabrocha ensanguentadas rosas
dentro das naturezas luminosas.

Ó Regina do Mar! Coeli! Regina!
Ó Lâmpada das naves do infinito

Todo o Mistério azul desta Surdina
vem d'estranhos Missais de um novo Rito!...

Ali está nada mais que a elevação otimista de Cruz e Sousa, aqui muito distinta da visão pessimista de Schopenhauer. Mas, como este, se move numa visão extasiante diante de tudo, o que ocorre na universal natureza em expansão ascensional na direção da conscientização, como vontade e representação.

Em Cruz o tom é apenas mais espiritualista e tocado, na poesia, pelas manifestações ritualísticas.

O uso abundante das expressões da liturgia, para a sua nova maneira de ver, não é um recuo para o catolicismo, mas uma intenção clara de chegar a "um novo Rito", como já sucedera a Comte e acontece naturalmente a todos os espíritos de tendência monista e panteísta.

Cruz e Sousa não vai mais longe do que a idéia geral do simbolismo, como o definiu Eça de Queiroz:

"É uma outra e renovada ansiedade de descobrir neste complicado universo alguma coisa mais do que força e matéria; de dar ao dever uma sanção mais alta do que a que fornece o código civil; de achar um princípio superior que promova e realize no mundo aquela fraternidade de corações e igualdade de bens, que nem o jacobinismo nem a economia política podem já realizar; e de achar, enfim, alguma garantia tia prolongação da existência, sob qualquer forma, para além do túmulo" (E, de Queiroz, Notas contemporâneas, p. 247).

Também se pode discutir sobre uma certa aproximação de Cruz e Sousa à concepção incarnacionista do "espiritismo" kardecusta. Ou seja da velha conceituação órfica sob formas sempre renovadas, de que o espírito é um ser substancial autônomo do corpo e que neste vive apenas transitoriamente como spectrum in machina.

Com efeito é a impressão que podem dar muitas das criações de Últimos sonetos, como Cárcere das almas, Sorriso interior, Anima mea, Triunfo supremo.

Uma concepção monística rigorosa não permite entender o espírito como isolado do grande ser geral da natureza, porque toda a matéria seria viva. Não obstante, a ascensão progressiva da complexificação evolucionista, que tem no topo as manifestações do espírito, pode ser, ao menos imaginativamente, apresentada como uma separação crescente do espírito, até se isolar, ainda que seja de maneira meramente intencionalística.

Seria uma interpretação possivel para o conteúdo dos sonetos indicados acima. Confirmam esta interpretação a presença de sonetos de pensamento de sentido tipicamente monista como Êxtase búdico, além dos textos em prosa.

Leia-se primeiramente Cárcere de almas.

Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
soluçando nas trevas, entre as grades
do calabouço olhando imensidades,
mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
quando a alma entre grilhões as liberdades
sonha e sonhando, as imortalidades
rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
nas prisões colossais e abandonadas,
da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!

Pelo contexto impresso pelo título, diferente é Êxtase búdico;

Abre-me os braços, Solidão profunda,
reverência do céu, solenidade
dos astros, tenebrosa majestade,
ó planetária comunhão fecunda!

Óleo da noite sacrossanto, inunda
todo o meu ser, dá-me essa castidade,
as azuis florescências da saudade,
Graças das Graças imortais oriunda!

As estrelas cativas no teu seio
dão-me um tocante e fugitivo enleio,
embalam-me na luz consoladora.
Abre-me os braços, Solidão radiante,
funda, fenomenal e soluçante,
larga e búdica Noite redentora!

Conceitos de filosofia da arte, estetica e poesia.

Cruz e Sousa enunciou alguns conceitos de Filosofia da Arte, Estética e Poesia, além de praticá-los. Foi movido a isto em decorrência da luta pelos novos padrões que adotou e por causa de sua tendência apostolar de pregar o que sentia e tinha convicção. Por mais um título, portanto, Cruz e Sousa participa da história do pensamento em Santa Catarina e no Brasil.

Primeiramente conheceu os estetas franceses positivistas, como Taine e Veron, que são filósofos, além dos literatos desta diretriz, chamados realistas e naturalistas, parnasianos ou do movimento Idéia Nova.

Depois também conhecerá os nomes ligados ao simbolismo, já mencionados quando se estudou Cruz como simbolista, Baudelaire, Verlaine, Mallarmé, Rimbaud (vd 104).

Acompanhou Cruz e Sousa os acontecimentos literários da França inclusive lê os teóricos franceses da arte. Menciona eruditamente textos dos já citados Taine, autor de uma Filosofia da Arte, e de Eugéne Veron, de uma Estética.

Já em abril de 1887, em Desterro, no artigo Um novo livro, argumenta, citando:

"H. Taine, o soberano crítico francês, diz, na sua Philosophie de L'Art, o que aqui damos, textual e autêntico, no próprio idioma, que AChaque artiste a son style, un style que se retrouve dans toutes ses oeuvres. Si c'est un peintre, il a son coloris, riche ou teme, ses types préférés, nobles ou vulgaires, ses atitudes, sa façon de composer, même ses procedés d'execution, ses empâtements, son modèle, ses couleurs, son faire. Si c'est un écrivain, il a ses personagens, violents ou paisibles, ses intrigues cómpliquées ou simples, ses dénouenients, tragiques ou comiques, ses effets de style, ses périodes et jusqu'a son vocabulaire".

Escreve sobre Emílio Zola (1887, publicado em O Tempo, Rio, 3-7-1891) e o cita com frequência em outros ensaios.

Alguns pensamentos de Filosofia da Arte e Estética de Cruz e Sousa remontam à sua fase de autor de estilo realista e naturalista, anterior a 1891.

Escrevendo em 1884 Da Bahia (em A Regeneração de 23 de abril) enaltece o realismo de Idéia Nova praticado por Virgílio Várzea e Santos Lostada, porque "sabem na luta do talento, na batalha do livro e do estudo, atirar o seu cartel, a sua luva de desafio à ignorância e à insensatez que não ousa dar um passo na vanguarda do Belo Filosófico, do Belo estético de que fala Eugène Veron no admirável livro L'Esthetique".

No Maranhão, ainda no mesmo ano de 1884, conceitua a arte em termos naturalistas. É o que denomina sinceridade.

"Poesia quer dizer emoção, quer dizer sinceridade, quer dizer alma e consciência. Todos os dias criam-se trovadores, mas não se criam poetas; criam-se máquinas, mas não se criam corações.

Da fecundidade espontânea e livremente franca do espírito, do estudo superior e partilhar de todas as coisas das existências, das frases pequeninas, das minuciosidades notáveis do ser, dos compridos vôos de aspirações, firmados em claros alicerces de verdade, deve nascer o poeta, boêmio eterno das incomensuráveis estâncias do Ideal.

O Evolucionismo, que tende a aperfeiçoar, completar, dar razoabilidade a tudo, exige da poesia uma transfiguração natural da forma, uma regularidade matemática no metro e uma selva brilhante de concepções elevadas e límpidas.

Pela forma ser nítida clara como os cristais a cintilarem batidos pelas arestas do gás; pelo metro ser correta como Ângelo Buonarotti na admirável arte da escultura; pela concepção ser elevada, grande como a frase de Girardin, delicada como o espírito das flores - o perfume".

Fazendo balanço da situação brasileira, dominada até então pelo romantismo, aponta para a posição que deverá assumir: "Se tivéssemos de caracterizar uma poesia brasileira, genuinamente nossa, seria a lírica, porque é essa a nossa índole e afeição poética, porque os nossos primeiros cantores foram líricos, porque a mor parte de todos os elementos e princípios de vitalidade intelectual, dão em resultado a poesia lírica. No meu modo de pensar, calmo e refletido, acho que a transformação absoluta e normal que alguns sérios poetas brasileiros têm dado à poesia, é indiscutivelmente superior e de resultados seguros e mais dignos" (Cruz e Sousa, O espectro do rei, - Versos de Moreira de Vasconcelos).

Ainda é de sentido realista e parnasiano o conteúdo proclamado nas estrofes de Arte, publicado no Rio de Janeiro em 10 de janeiro de 1891 (vd 100, o texto).

O objeto da arte é uma das preocupações de Cruz e Sousa. Segundo ele, a arte tem por objeto revelar o algo mais, que está oculto e transcendente nas coisas, Aliás, este é o conceito simbolista da arte. Reencontrar-se-á depois na filosofia da arte de um dos maiores expoentes do pensamento moderno, Martin Heidegger.

Emparedado, último item de Evocações (1898), ainda que escreva a propósito de sua situação pessoal, Cruz e Sousa enuncia conceitos de arte, para justificar sua atitude adotada nas letras.

Foi sempre taxativo em afirmar que a arte não está presa a moldes consagrados no tratamento do objeto.

Terá todavia a arte por objeto revelar a verdade total. Inclusive o que transcende à forma naturalística visual, a que pretendiam reduzi-la os realistas.

"Ah! benditos os Reveladores da Dor infinita! Ah! soberanos e invulneráveis aqueles que, na Arte, nesse extremo requinte de volúpia, sabem transcendentalizar a Dor. Tirar da Dor a grande significação eloqüente e não amesquinhá-la e desvirginá-la! A verdadeira, a suprema força do artista está em caminhar firme, resoluto, inabalável, sereno através de toda a perturbação e confusão ambiente, isolado no mundo mental criado, assinalando com intensidade e eloquência o mistério, a predestinação do temperamento".

O conceito enunciado em Emparedado é apenas vagamente previsível no texto poético Arte de 1891, porquanto este ainda está sob espírito parnasiano. A vaga percepção do novo conceito estético é possível encontrá-lo na décima segunda estrofe:

Enche de estranhas vibrações sonoras.
a tua Estrofe, majestosamente. . .
Põe nela todo o incêndio das auroras
para torná-la emocional e ardente.

E mais ainda na última:

Faz estrofes assim! E após na chama
do amor, de fecunda-las e acendê-las,
derrama em cima lágrimas, derrama,
como as eflorescências das Estrelas... (vd 148).

Em literatura, como na arte em geral, Cruz e Sousa prega o impressionismo. Quando mal ia deixando o naturalismo parnasiano, escreve De volta dos Prados (Novidades, de 8-10+1891), dizendo com nitidez:

"Na natureza de cada objeto, na essência de cada ser, há, nos livros que se propõem a mais alguma cousa do que divertir, e a agradar mais a convencer, a impressionar, a comover pela psicologia e a análise, uma resplandecente verdade que ilumina de um largo clarão de filosofia a consciência do escritor".

Mais para o fim de seu apreciável De volta dos Prados se refere ao movimento impressionista em que ele mesmo está envolvido:

"Agora, porém, é que vem rompendo uma floração de talentos, artistas do Atlântico, mais complexos, mais dúcteis, com toda a delicadeza da expressão e o colorido de cinzelada forma - artistas preocupados da correção suprema, que num trecho de prosa fazem vibrar os seus nervos, palpitar a vigorosa força dos seus músculos, resplandecer a flamante aurora vertiginosa do seu sangue.

Esses são os impressionistas, os coloristas, os estilistas, dando à escrita a intensa vibração dos órgãos humanos, fazendo da linguagem o mais prodigioso aparelho que, como um estranho instrumento de ouro, brilha nos nossos olhos, canta nos nossos ouvidos, impressiona e sensibiliza a nossa alma.

Todo o processo literário depende, primeiro que tudo, das tendências, do caráter objetivo do escritor. E, quem conseguir ter idéias gerais das coisas e souber dispor de elementos de observação e análise será necessariamente um escritor, dentro dos limites do seu alto dever artístico, pintando a natureza como a natureza se apresenta, e dando a cada particularidade a cor e o estilo que cada assunto e cada particularidade pedir. Assim far-se-ão escritores e máquinas reprodutivas de toda uma natureza morta, de todo um clichê de idéias por bitola, e isso para o bem, pára a inteira perfeição da Arte".

Em Signos (República, de 16 e 23 de agosto, 1897), longo artigo sobre a obra simbolista de Nestor Vitor, enuncia conceitos gerais a respeito da literatura e do ideal do simbolismo. Participa, com Nestor Vitor, do mesmo ideal :

"O surpreendente e curiosíssimo artista dos Signos, que agora tão soberbamente se manifesta nas páginas deste livro de alta significação estética, tão anunciante de segredos, tão revelador de mistérios e tão sugestivo de majestade, é um dos raros poderosos que têm o dom magnífico e mágico de violentamente arrebatar a nossa alma, de a fazer tremer e soluçar de comoção diante da sua, e a fazer dignamente humilhar-se, na curva doce, aristocrática, nobre, das profundas admirações diante da sua".

Frisando a observação, adverte que não se pode reter na exterioridade naturalista dos objetos :

"Superiormente dotado, ele sabe que essa observação, tão aclamada pelos medíocres e pelos estacionários em Estética, não constitui a fonte, ou antes, a causa primordial da elevação maior ou menor de um espírito. É lógico que quem tem a seu dispor qualidades estéticas singulares, elementos seguros e radiantes para as interpretações mais belas da Arte vê na observação uma preliminar, uma força elementar dessa Arte, mas nunca a sua melhor ou maior expressão.

Ter simplesmente observação, por mais vasta e completa que ela seja, é, na Região do Pensamento, estar apto a fazer alguma coisa ainda, mas não considerar já essa coisa feita pelo único fato de possuir observação.

Assim, a observação não é mais do que uma acidental nos grandes planos do Pensamento, subordinada, dependendo de outras forças muito mais complexas e abstratas.

Um livro do qual só se pode dizer - tem muita observação, mesmo muita, e exata - é, quando menos, um livro que olha e perscruta, com toda a correção, embora tenha certos lados inferiores, cheira e palpa muito as cousas, mas que não se eleva nem se projeta, profunda e emocionantemente, em esferas superiores.

Cerebração séria e serena, na mais absoluta expansão da Arte, perscrutador penetrante do coração humano, psicólogo de novas faces e de novos mundos humanos, vendo quase tudo por uma visão de hora de ocaso de outono, com certas linhas langues, mornas e mórbidas, mas desse mórbido que é soluço e que é dor na atmosfera mental, o glorioso artista dos Signos conseguiu enfeixar na sua obra os símbolos mais expressivos e belos, alguns de um fundo bem cruel e bem funesto, mas onde ressaltam, vivas e dominantes, as sensações e as idéias que uma rara fé desperta nos espíritos definitivos".

A arte combina o objetivo naturalístico com o impressionismo subjetivo, acentua claramente Cruz e Sousa:

"Ele (Nestor Vitor) vem para o alto objetivismo. Mas sabe, no entanto, que não há puro e perfeito objetivismo sem puro e perfeito subjetivismo, porquanto o objetivo não pode deixar de depender do subjetivo, isto é, porquanto o mundo interior do eu não se pode desprender do mundo exterior que a visão abrange ou, mais claramente, porquanto o temperamento não se pode separar do documento do real e nem o falo prescindir da alma, a fim de persistirem as essenciais concordâncias, baseadas na Sinceridade do ser, que formam o fundo das legitimas naturezas artísticas".

O ideal simbolista de adensamento metafísico do conteúdo temático da arte, vem mais uma vez expresso no final do seu ensaio:

"Nestor Vitor vem com a compreensão nítida e absoluta da missão livre da Arte, do ser por ser, de logicamente produzir por logicamente sentir".

Ele vem com este arrebatamento emocional, esta doce volúpia de amor de sentir uma alma, mas uma verdadeira alma, e ir espontaneamente ao encontro dela. Com esta ansiedade nervosa e transcendente, com este grande soluço para alargar, dar mais amplidão e mais ar às esferas da Vida, a fim de ficar mais sereno e mais puro diante da transformação da Morte!

Nesta hora violácea de ocaso, em que o Egoísmo tomou conta da Terra; nestas confusões, neste caos dos Espíritos e do Tempo, faz-se mister largas investigações mortais, mergulhamentos, fundas e profundas sondagens luminosas, para achar e ter a nobre coragem de levantar, clara e pura no Espaço, a Radical de um Espírito".

Pintura. A estética da arte da pintura é abordada por Cruz e Sousa em Policromia publicado na Revista Ilustrada de julho de 1893 (e Rosa Cruz, junho, 1904). O estudo, dedicado embora ao pintor simbolista Maurício Jubim, aborda a pintura em geral.

Defende a liberdade da expressão, sem os moldes clássicos. Destaca ainda o impressionismo peculiar ao início da pintura moderna, sobretudo a pictoricidade. Habituado a explorar a poeticidade das cores, o ensaio Policromia apresenta a grande versatilidade de Cruz e Sousa na descrição da atividade de um pincel.

"Pintar a cor sangrenta da vida, a cor gelada da morte; dizer a dor dos tons, todo o cromatismo das tintas, interpretar, à maneira nova, fresca, original, palpitante, de forma que os pincéis comuniquem com veemência uma alma à tela, que os coloridos vivam e cantem na trinalagem vibrante de pássaros matutinos.

Exprimir as tonalidades quentes e possantes, os rubores humanos, e purpurejamento dos sangues, com tintas acres e com tintas delicadas, numa expressão forte de luxúria ou numa branda nuance de carne virginal e saudável, onde a aurora das seivas puras resplende.

Pintar toda a pungência latente de uma cabeça triunfante da vida, perfumada de graça, idealizada por algum sonho enevoado; dar-lhe a afeição da tua sensibilidade artística, linhas vagas, fugitivas, linhas angélicas e pulcras, firme e fundo cavando-lhe a negro ou a louro a onda torrencial dos cabelos, dando-lhe luz estrelar aos olhos, sangrando-lhe álacre a massa tenra dos lábios, traçando-lhe a meia lua dos seios lácteos gerando-a, enfim, com tintas dúcteis, de modo que a cabeça surja maravilhosamente da tela, te fascine, te deslumbre e tu a ames, como se ela possuísse o recôndito sentimento chamejante da Vida".

Depois de destacar o que faz a arte da pintura, sintetiza:

"e, assim, boca, olhos, cabelos, nariz, seios e faces, pintar a claro, na limpidez d'ouro da luz, banhando a tela de luz, inundando-a de luz, descrevendo as curvas da primorosa cabeça com o pincel encharcado em sol, no clarão sideral de uma luz ampla, larga, alastrante...

Com esse fulgor de execução sem os empirismos clássicos, com toda a expansão da liberdade de sentir e de ver, de traçar, de apanhar os efeitos, de aparelhar as tintas, é que te fora prodigioso pintar, dum golpe altivo de concepção, fora da tacanhez dos moldes, já célebres embora, já afamados e já universais, mas por isso mesmo acadêmicos, arcaicos, sem o grito rubro das grandes revoltas, o clamor agudo das naturezas inquietas que lutam para significarem, à parte das confusões e leis preestabelecidas, a seleção das faculdades estéticas.

Estilo. A maneira de escrever, é estudado teoricamente por Cruz e Sousa em artigo O Estilo (Novidades, 2-10-1891, reformulado de um ensaio anterior do Jornal do Comércio de 2-5-1886). É incisivo:

"O estilo é sol da escrita. Dá-lhe eterna palpitação, eterna vida. Cada palavra é como que um tecido do organismo do período.

No estilo há todas as gradações da luz, toda a escala dos sons. O escritor é psicólogo, é miniaturista, é pintor - gradua a luz, tonaliza, esbate e esfuminha os longes da paisagem. O princípio fundamental da Arte vem da Natureza, porque um artista faz-se da Natureza.

Toda força e toda a profundidade do estilo está em saber apertar a frase no pulso, domá-la, não a deixar disparar pelos meandros da escrita.

O vocábulo pode ser música ou pode ser trovão, conforme o caso. A palavra tem a sua anatomia; e é preciso uma rara percepção estética, uma nitidez visual, olfativa, palatal e acústica, apuradíssima, para a exatidão da cor, da forma e para a sensação do som e do sabor da palavra.

Um, porém, pode desvirtuar toda a ação e vitalidade do estilo, como podem também segurá-lo e afiná-lo. Os utensílios da escrita são extraordinários, o jogo da frase é poderoso".

Depois de exemplificar com Zola, prossegue:

"O escritor nada se tem que importar que os fatos e os assuntos lhe sejam simpáticos ou não. Não há mais nas evoluções das idéias, exterioridades, púrpuras de palavra vestindo um assunto de pau tosco. Pelo contrário! as vestes, as púrpuras da palavra, são de conformidade com os assuntos. E é isso que faz a inteireza do caráter da escrita.

A inspiração do artista nasce de um fundo alógico, não de todo racional. Eis uma convicção que se generalizou por um longo tempo entre os teóricos da arte.

Discordando da estética classica e que se repetiu no parnasianismo, Cruz e Sousa participa do conceito romântico e moderno da inspiração e que vem desde o Sturn und Drang (1760-85), de Klinger, Goethe, Wagner, Schiller, Herder, que o panteísmo de Schelling e Schopenhauer relacionou com o Gênio Inconsciente Universal. O simbolismo não é senão uma nova forma deste deste modo de interpretar a expressão artística.

Em Intuições. (longo item de Evocações), começando por dizer que "toda a Natureza é triste", relaciona mais adiante este caráter com a arte, que entende como uma das "Manifestações supremas" da realidade geral. Prossegue com uma página típica da filosofia moderna da inspiração artística alógica:

"O certo é que a humanidade erra pelo fantástico, que a natureza está toda sobrecarregada de fantástico. E nem mesmo há homem que não tenha o seu lado extravagantemente ideal, fantasioso; que não percorra, nas vagas horas da Desolação, as galerias sinistras dos fantasmas, ou que não vá em busca do Sonho, que existe na Realidade, como os fenômenos físicos existem esparsos no organismo concreto do Universo.

O Ideal é real, desde que radia no mundo criado à parte, na circunvolução cerebral de cada ser. Tudo está em saber acordar, com estilo e emoção, esse sonho, onde ele exista, ou na alma do selvagem ou na alma do culto. Para isso os Artistas de todos os tempos produzem as suas Obras que nascem sempre por um movimento de meia inconsciência conceptiva, para serem assim mais fortemente vivas e mais transcendentemente sensacionais.

Porque o real é cheio de brumas e sobrenatural, o verdadeiro é cheio de brumas de fantástico e no futuro original da grande Causa está o Sonho.

Ah! Sim! Sim! Clamou o outro, um grito de alvoroçado sentimento: - o natural na Arte é o alto Absurdo, é o Absurdo, o Fantástico, o Intangível".

Esta passagem é a demonstração máxima de que João da Cruz e Sousa alcançou uma filosofia da arte perfeitamente conceituada, que não é racionalista, mas alogicista.

Meditação sobre si mesmo.

Na condição de introspectivo e de acossado pela má sorte do destino, Cruz e Sousa se encaminhou para .a meditação de si mesmo. Sem ocupar-se com os aspectos particularizantes dos episódios, analisa o significado mais geral que eles exercem na vida do homem atribulado contrariado em seus ideais.

Não há quem, lendo Cruz e Sousa, não aproveite de suas meditações algo para si mesmo. As vivências, quer de sua poesia, quer de sua prosa, desenvolvidas no que têm de valor geral, merecem ser lidas, não só pelo que informam sobre Cruz, mas sobre o que ensinam a respeito da realidade do indivíduo e da sociedade. O método da meditação sobre si mesmo deverá ser o da leitura comentada, portanto com o predomínio dos textos selecionados.

Iniciado, texto com que abre o livro Evocações (1898), é uma excelente meditação sobre seus próprios caminhos na direção da arte, caminhos estes que os isolam dos seus e que importam na dor da luta.

"Vieste da tua paragem feliz e meiga, - amplidão de bondade patriarcal, primitiva, - mergulhar na onda nervosa do Sonho, que já de longe, dos ermos rudes do teu lar, fascinava de magnéticos fluidos, de imponderados mistérios, o teu belo contemplativo e sensibilizado. Chegas para a Via-Sacra da Arte a esta avalanche imensa de sensações e paixões uivantes, roçando esta multidão insidiosa, dúbia, que de rastos, de rojo, burburinha, farejando ansiosamente o vício".

As páginas que seguem são de uma elevação indizível e merecem ser lidas e relidas em alguns detalhes. No final, parece-nos ver o vulto magnetizante de Cruz e Sousa seguindo valoroso e altivo, emocionante e heróico, estimulando-se a si mesmo:

"Vai sereno, belo Iniciado! Vai sereno para esta prodigiosa complexidade de Sentimentos, agora que abandonaste a franqueza rude das montanhas, além, longe, na solidão concentrativa, no silêncio banhado de impressionante, comunicativa e augusta poesia, da tua tejra de selvas e bosques bíblicos! Vai sereno! A cabeça elevada na luz, vitalizada e resplandecida na nevrosidade mordente da luz e os fatigados olhos sonhadores graves, ascéticos, atraídos pelo mistério da Vida, magnetizados pelo mistério da Morte...".

O Emparedado um texto de 20 páginas, dos mais apreciáveis de Evocações é a luta existencial do homem contra o impossível. Seu conteúdo remonta aos anos 1896 ou 1898. A prosa é imponente e vigorosa. Apresenta uma visão de síntese de si mesmo, como homem, sobretudo como homem de África, homem de arte, homem de espírito, homem de grande ideal, homem-humanidade, por todos os lados com paredes subindo mais alto que sua feroz vontade de querer ser, por isso existencialmente reduzido a um ser emparedado. Nesta meditação extraordinária, Cruz e Sousa não permite a intrusão de episódios particularizantes, de sorte a elevar o texto a uma validade universal como pensamento. Principia pela forma evocativa nas caladas da noite, das solidões panteisticas

"Ah! Noite! feiticeira Noite! ó Noite misericordiosa, coroada no trono das Constelações pela tiara de prata e diamantes do Luar. Tu que ressuscitas dos sepulcros solenes do Passado tantas Esperanças, tantas Ilusões, tantas e tamanhas Saudades, ó Noites! Melancólica Soturna! Voz triste, recordativamente triste, de tudo o que está morto, acabado, perdido nas correntes eternas dos abismos bramantes do Nada, ó Noite meditativa! fecunda-me, penetra-me, dos fluidos magnéticos do grande Sonho das tuas Solidões panteístas e assinaladas, dá-me as tuas brumas paradisíacas, dá-me os teus cismares de Monja, dá-me as tuas asas reveladoras, dá-me as tuas auréolas tenebrosas, a eloquência de ouro das tuas Estelas, a profundidade misteriosa dos teus sugestionadores fantasmas, todos os surdos soluços que rugem e rasgam o majestoso Mediterrâneo dos teus evocativos e pacificadores Silêncios!".

Depois da múltipla meditação que envolve temas de arte e de sociologia, escreveu um vigoroso e taxativo texto final, muitas vezes citado, em que ele aparece como Emparedado, isto é, o negro, que na sociedade vigente não alcanáva triunfo. Não somente isto. Emparedado como todo o ser humano em meio às limitações ontológicas da vida.

"E, mais pedras, mais pedras se sobreporão às pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras.., pedras destas odiosas, caricatas e fatigantes Civilizações e Sociedades...Mais pedras, mais pedras! E as estranhas paredes hão de subir, - Longas, negras, terríficas!. Hão de subir, subir, subir mudas, silenciosas, até às Estrelas, deixando-te para sempre perdidamente alucinado e emparedado dentro do teu Sonho...".

Ali está o longo documento, preciso e eloqüente, de quanto João da Cruz e Sousa sentiu e conceituou seu problema pessoal, frente às limitações da vida.

Nível temático.

Verifica-se uma elevação temática crescente na obra de João da Cruz e Sousa, na medida que os anos decorrem. A falta de um curso de nível superior certamente o entravou de melhores resultados. No seu tempo não havia sequer curso de letras no Brasil. Os poetas se formavam nas faculdades de direito ou de medicina. Não poderiam, em conseqüência, oferecer ao público criações de grande lastro e finuras artísticas, no primeiro instante.

Foi como autodidata pertinaz, que João da Cruz e Sousa conseguiu ser um alguém no panorama das letras nacionais e oferecer algum elemento temático útil de ser lido. E, como ele, muitos outros.

Antes de 1893, quando publicava Broquéis e Missal, havia em seus textos algo como muito pano para pouco vento. Já o advertia Altino Flores em O Dia, de 24 de março de 1916, a este respeito: "rotundos quais velas de galeão e como essas velas só continham vento".

De outra parte se sabe que foi nos demorados anos anteriores a 1893 que paulatinamente Cruz e Sousa foi lendo e estudando, ouvindo e praticando, viajando e observando. Ainda que se deva atribuir ás virtudes intrínsecas do simbolismo a elevação metafísica do seu verso, sua grandeza se deve antes de tudo às virtudes intrínsecas do mesmo João da Cruz e Sousa e a seu esforço pessoal, sem muitos livros em casa e sem ter tido a oportunidade de cursar Universidade.

A intelectualização da poesia cruzeana é notória nos últimos sonetos. A par da evocação, eles transmitem o estado de alma geral do homem implantado em relação a todo o universo e a existência como tal, insiste em algo de grande a alcançar. De tal modo insiste, que seus versos adquirem o caráter apostolar. Já não se trata do apostolado das pessoas de nível inferior a fazer proselitismo trivial de sua religião, pensando com isso fazer uma caridade ao espirito alheio, O caráter apostolar de Cruz e Sousa é o grito imenso do poeta vivendo e expressando o eterno evolver da Natureza em movimento ascensional.

A intelectualização por vezes domina os versos, entrelaçando a afirmativa lógica com a associatividade da evocação poética. O fenômeno ocorre especialmente no soneto Piedade, em que a idéia de salvação e consolo mais se afirmam, que surgem por despertar de imagens:

O coração de todo o ser humano
foi concebido para ter piedade,
para olhar e sentir com caridade,
ficar mais doce o eterno desengano.

Para da vida em cada rude oceano
arrojar, através da imensidade,
tábuas de salvação, de suavidade,
de consolo e de afeto soberano.

Sim!...Que não ter um coração profundo
é os olhos fechar à dor do mundo
ficar inútil nos amargos trilhos,

É como Se o meu Ser Compadecido
não tivesse um soluço comovido
para sentir e para amar meus filhos."

Conclusão

Um homem negro, numa época mais difícil que a do negro de hoje, superou ao homem comum do seu tempo.

Os negros de sua etnia pouco tinham com que ajudá-lo. Teve a sorte de receber a ajuda dos brancos. Bem aproveitou o que recebeu, e se tornou o maior poeta simbolista do seu tempo.

Se maior não foi, isto se deveu à mà sorte do Destino, que o levou aos seus 38 anos. Que de vitórias não teria tido, se mais vivesse. O pouco que viveu foi suficiente para que a posteridade o inscrevesse no rol dos inesquecíveis.

Na sua convicção do eterno evolver das coisas, João da Cruz e Sousa permanece com Triunfo Supremo e Sorriso Interior (títulos de dois dos seus sonetos). Ficou sonhando (como diz o Triunfo Supremo) e cantando por entre as águas do Dilúvio (como diz o Sorriso Interior).

Nestas criações há algo de verdadeiramente impressionante. A energia de Triunfo Supremo se transpôs, nos versos finais, para os dizeres do seu próprio túmulo, porquanto eram verdadeiramente dignas do bronze.

Quem anda pelas lágrimas perdido,
Sonâmbulo dos trágicos flagelos,
é quem deixou para sempre esquecido
o mundo e os fúteis ouropéis mais belos!

É quem ficou do mundo redimido,
expurgado dos vícios mais singelos
e disse a tudo o adeus indefinido
e desprendeu-se dai carnais anelos!
É quem entrou por todas as batalhas
às mãos e os pés e o flanco ensangüentado,
amortalhado em todas as mortalhas,

Quem florestas e mares foi rasgando
e entre raios, pedradas e metralhas,
ficou gemendo, mas ficou sonhando!

O ficar "sonhando" de Cruz e Sousa não é apenas uma figura imaginativa. É a sua mesma filosofia, pela qual tudo permanece e se transforma, evolui e retorna, reascende e de algum modo permanece, com a vitória do espírito, concebido como Sonho, que é sentimento e pensamento. Cruz e Sousa julga permanecer...florestas e mares rasgando... entre raios, pedradas e metralhas. Verdade é que ficou gemendo, mas ficou sonhando.

O mesmo conceito da vida se expressa de outro modo, quando diz que o ser se transforma e que para ironizar as próprias dores, canta por entre as águas do Dilúvio. Sorriso Interior é o último soneto composto pelo Cisne Negro a navegar por entre as águas do grande Dilúvio que o levou a 19 de março de 1898; poucos dias depois de ser conduzido á sepultura, publicava-se a 21 de março, quando ainda sorriam vagamente as flores das grinaldas que seus amigos haviam posto junto à sua derradeira morada:

O ser que é ser e que jamais vacila
nas guerras imortais entra sem susto,
leva consigo este brasão augusto
do grande amor, da grande fé tranqüila.

Os abismos carnais da triste argila
ele os vence sem ânsias e sem custo. ..
Fica sereno, num sorriso justo,
enquanto tudo em derredor oscila,

Ondas interiores de grandeza
dão-lhe esta glória em frente à Natureza,
esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores...
e para ironizar as próprias dores
canta por entre as águas do Dilúvio.