O Cruz e Sousa das indas e vindas pelo país

As viagens formam o espírito do homem, quando este possui condições para assimilar o que observa e sabe dialogar com os que encontra. Cruz e Sousa, em 1881, aos seus 20 anos, já cinco anos após o curso secundário concluído, estava relativamente preparado para esta escola. Nela obteve certamente muita experiência, inclusive saber literário.

A longa viagem de Cruz e Sousa pôde acontecer, porque na época pequenas companhias de teatro, em busca de platéia, viajavam de ponta a ponta o País, em grande parte por via marítima. Depois de passarem várias por Desterro, finalmente aliou-se Cruz e Sousa a algumas delas.

Procurou nestas oportunidades um novo status de vida. E, como de início nada conseguisse, ficou num peregrinar de idas e vindas, pelo País, para retornar sempre à Ilha de Santa Catarina, quando lá fora a sua posição se tornava instável.

Aqui reencontrava os velhos pais, Guilherme e Clarinda, B fortes e trabalhadores, com casa própria na romântica Baía Norte da cidade. Continuava também viva, até 1891, Dona Clarinda Fagundes de Sousa, viuva do Marechal protetor. Havia também a oportunidade de pequenos empregos de jornalista e até de balconista. Quando ao final da vida estiver vencido por doença incurável, outra vez pensará num retorno à terra de origem.

O Cruz e Sousa das idas e vindas pelo País é aquele dos 20 aos 30 anos de idade, de um espaço que durará dez anos, ou de 1881 a 1890. Tudo começará pelas suas ligações com o teatro, já na capital da província de Santa Catarina, conforme já referimos. Não teria saído pelo país numa função que já não houvesse praticado na cidade de origem.

Palco e poesia do Rio Grande do Sul ao Pará

Duas vezes na. qualidade de "ponto", ou secretário, Cruz e Sousa acompanha Sociedades Dramáticas ao Rio Grande do Sul. Mas se empregou quando por aqui transitararam, de tal sorte a já atuar nas mesmas quando operavam no Teatro Santa Isabel da capital de Santa Catarina.

A primeira vez isto ocorreu em fins de 1881, talvez desde setembro, quando cessou a publicação do jornal Colombo. As informações procedem das Memórias de Araújo Figueiredo e combinam com as demais circunstâncias conhecidas do poeta negro.

Em 1881, numa "Festa Artística", no Teatro Santa Isabel, entre os dois primeiros atos, declama Cruz e Sousa algumas sextilhas, em homenagem ao principal ator e chefe da Companhia, José Simões Nunes Borges, um português de 54 anos. Àqueles versos de circunstância, - testemunha Araújo Figueiredo, - "palmas estrugiram, bravos se fizeram ouvir". A proeza de João da Cruz repercutiu na sociedade local, fosse para encomiá-lo, fosse para censurá-lo como negro atrevido que não sabia o seu lugar...

Sabe-se que pouco antes a Companhia Simões houvera estado no Teatro São Pedro, de Porto Alegre, numa temporada de março a maio de 1881 (cf. Atos Damasceno, Palco, Salão e Picadeiro em Porto Alegre no Século XIX, p. 191). No giro pelas cidades em torno, passa também por Desterro para finalmente retornar ao mesmo Teatro São Pedro (de Porto Alegre), em segunda temporada, de fins de outubro a 13 de novembro de 1881.

Pelas circunstâncias que envolvem Cruz e Sousa, infere-se que estivera então na cidade de Porto Alegre. Fora sua primeira oportunidade de conhecer um centro já representativo pela sua cultura.

O clima oferecido pela Companhia Simões era o dos autores românticos, entre outros, Alexandre Dumas com sua peça Kean, a Desordem e o Gênio. Em Porto Alegre a Companhia manteve por uma semana em cartaz o riograndense Carlos Ferreira, autor de A esposa. Concluiu-se por isso, que fora agora que Cruz e Sousa conhecera Carlos Ferreira, a quem fará de futuro algumas referências.

Ainda podemos imaginar que o poeta de circunstância repetirá muitas vezes nos palcos do Sul as sextilhas de homenagem a José Simões Nunes Borges. E assim outros e outros versos românticos elaborados ao tempo do jornal Colombo, Esses sucessos iniciais revelam as razões porque ainda retornará uma segunda e terceira vez ao Rio Grande do Sul. Todavia, no final, já será parnasiano.

A segunda grande oportunidade de viajar foi oferecida a Cruz e Sousa em 1883, pela Companhia Teatral de Francisco Moreira de Vasconcelos (1859-1900). Em vista da desistência de um dos empregados de Moreira de Vasconcelos, abriu-se logo a oportunidade para Cruz e Sousa ingressar mais uma vez no Teatro como "ponto" ou secretário.

Fora Vasconcelos um ator jovem, como Cruz e Sousa, e que, como este também não terá longa vida. Talvez a afinidade da idade, com ele permanecerá mais tempo, servindo não somente como ponto, mas também como poeta e orador sobre o palco. Agora, aos seus 20 anos, Cruz e Sousa principia uma fase de crescente inquietação, como se depreende de suas manifestações.

No grupo se encontra também uma atriz prodígio, de 10 anos, Julieta Santos; havia já transitado por Desterro em 1879, então integrada numa outra Companhia, de Ismênia Santos.

A estréia da Companhia Moreira de Vasconcelos em Desterro se deu em 26 de dezembro de 1882, mantendo-se em cartaz até fevereiro do ano seguinte.

Ocorreu um relativo entusiasmo da população. Em 13 de janeiro de 1883 realiza-se uma noite especial, de homenagem da sociedade local ao elenco de artistas visitantes. Executa-se o "Hino artístico" de José Brasilício de Sousa, pernambucano radicado em Desterro. Também Cruz e Sousa colheu na oportunidade uma grande sucesso, com o Soneto de circunstância, homenagem ao teatrólogo Moreira de Vasconcelos. Ainda que modesto, ele surgia com importância aos olhos juvenis do poeta:

Soneto

(Desterro, 13 jan. 1883) A Moreira de Vasconcelos

É um pensar flamejador, dardânico
uma explosão de rápidas idéias,
que como um mar de estranhas odisséias
saem-lhe do crânio escultural, titânico!...
Parece haver um cataclisma enorme
lá dentro, em ânsia, a rebentar, fremente!...
Parece haver a convulsão potente,
dos rubros astros num fragor disforme.'. . .

Hão de ruir na transfusão dos mundos
os monumentos colossais, profundos.
as cousas vãs da brasileira história!

Mas o seu vulto, sobre a luz alçado,
Oh! há de erguer-se de arrebóis c'roado
como Atalaia nos umbrais da glória!

Nestor Vitor destacou também a importância desse acontecimento e o comenta:

"No fácil entusiasmo desses primeiros anos, quando seu espírito ainda se formava, o poeta negro ganhou muita paixão pelo teatro. Fez relações com todas as companhias dramáticas de passagem por Desterro. Estas lhe aproveitavam as aptidões como secretário ou como ponto, entre elas a Companhia Julieta dos Santos, dirigida pelo ator F. Moreira de Vasconcelos, também muito amante das letras e que colaborava com brilho relativo nos jornais das cidades por onde ia passando. Vendo este simpático ator a penúria em que se achava Cruz e Sousa e as hostilidades que sofria de sua terra, afetuosamente chamou-o e levou-o como ponto secretário. Proporciona-lhe assim ir de S. Catarina ao Rio Grande do Sul e depois voltando a percorrer todo o litoral do Brasil até o Amazonas" (N. Vitor, Introdução às obras completas, 1923, p. 12-13).

Seguiu para a longa jornada pelo País, em 15 de fevereiro de 1883. O jornal do partido liberal, A Regeneração, consignou o fato:

"Segue como empregado da Companhia o jovem e inteligente patrício João da Cruz e Sousa".

O fato se torna cada vez mais acontecimento. Será muitas vezes lembrado, porque as notícias chegam, bem como cartas e poesias. O futuro Presidente Gama Rosa, - como depois anotaremos os delhares e implicações,- o mandará inclusive convidar para uma promoção a promotor público.

Além da oportunidade que se oferecia, Cruz e Sousa poderia ter tido outras razões particulares que o movessem ao afastamento da Província. Tivera alguns aborrecimentos com a colônia alemã, por causa de um conto, no qual as personagens eram alemãs. Descrevera um rico homem alemão, feliz, contrariado depois pelo adultério da esposa. Razões não conhecidas despertaram a reação de uma família abastada da colônia alemã da cidade.

No Rio Grande do Sul. O roteiro do poeta e Ponto-Secretário ficou marcado pelos recitais nas diferentes cidades, onde a publicação das poesias revela sua presença. Restam também crônicas e cartas datadas.

A Companhia segue de Santa Catarina, em navio, para o Rio Grande Sul, terra de Julieta Santos (nascida em Alegrete). Dessa primeira viagem ao Rio Grande do Sul não se conhecem pormenores reveladores da presença do poeta, como acontecerá no Centro e Norte do País. Este fato mostra que sua versatilidade se formou aos poucos.

Em 1886, quando retornar uma segunda vez ao Rio Grande do Sul, ele se fará muito mais notório (cf. n. 58).

Na Província de São Paulo. Está Cruz e Sousa em São Paulo em 1883. Sobrescreveu então o soneto O final do Guarani, Santos, 15 de julho de 1883 (Publicado em Desterro, O Despertador de 18-8-1883).

Recita o soneto Idéia Mãe, no Gabinete de Leitura de São José do Rio Claro, em 23 de julho, no Teatro São João daquela cidade (Publicada em O Despertador, de 18-8-1883).

Em 18 de agosto de 1883 o referido jornal de Desterro dá a conhecer que Virgílio Várzea, escrevendo ao redator de O Despertador - José Lopes Júnior, recebera de Cruz "uma carta alencarinamente elaborada e humedecida ainda pelas gotas sublimes do pranto de saudade do filho estremoso que, longe do berço e da família, sente definhar-se-lhe no jardim imenso do peito, as magnólias rubras da alegria, à pressão horrivelmente forte e estranha da nostalgia".

Pelo Rio de Janeiro transitou Cruz e Sousa na primavera de 1883. Uma grande cidade se abriu aos seus olhos, marcada por edifícios palacianos em estilo acadêmico, ajuntamentos populares frequentes, comércio vibrátil, jornais de grandes folhas, teatros movimentados.

O poeta se encanta com outras companhias teatrais e aprecia uma figura feminina que consagrou num soneto. Este sentimento deixou a marca de sua exultante admiração pela cidade maravilhosa. Sobrescreve o referido soneto da seguinte forma: O seu boné, Corte, outubro, 1883, a atriz Adelina Castro. Descritivo, é um dos raros textos alegres e jocosos do poeta.

É um boné ideal, de feltros e de plumas,
que ela usa agora, assim como um turbante
turco, aveludado, doce como algumas
nuvens matinais que rolam no levante.

Lembro quando ao vê-lo a rubra marselhesa,
Lembro sensações e cousas de prodígio

e penso que ele tem a máscula grandeza
desse sedutor, vital barrete frígio!...

Às vezes meu olhar medindo-lhe o contorno
e a flácida plumagem que serve-lhe d'adorno,
- satânico, voraz, esplêndido de fél

Exclama num idílio cândido e singelo,
por entre as convulsões artísticas do Belo;
Oh! tem coração e alma, esse boné!...

Na Bahia se encontra Cruz e Sousa em janeiro de 1884 (Cf. Gazeta da Bahia, 24.1-1884). A cidade de muitos pretos, de muitos senhores severos, de muitíssimos intelectuais abolicionistas, está sob o impacto emocional dos versos de Castro Alves, falecido ainda há não muitos anos.

A Companhia Dramática explora o tema, levando ao palco A filha da escrava, de autoria de Artur Rocha.

Cruz e Sousa extravasa sua atividade funcional e pronuncia uma conferência pela libertação dos escravos. Quando em 1885 estiver de retorno em Desterro, sendo então um dos redatores de O Moleque, será dada a público esta conferência. Na apresentação preliminar se lê: O Moleque que sempre alargou todos os seus sentimentos altruístas pela causa da humanidade servil, que é a causa do futuro, começa a publicar hoje alguns fragmentos de uma brilhante conferência abolicionista do seu pujantíssimo redator, sobre este assunto, feita na sala da redação da Gazeta da Tarde da Bahia" (O.M., n. 43, 12-10-1885).

E proferiu mais outra conferência no teatro São João. Ocorreu então o episódio narrado por Horácio de Carvalho:

"Assim é que, contava ele rindo com a verve a mais simples, estando na Bahia durante a efervescência abolicionista, sendo secretário de uma empresa dramática, numa noite festiva em favor da Abolição, em um teatro daquela cidade, fora instado por alguns amigos para ser o orador oficial da festa, e a sua palavra tendo produzido tal impressão calorosa no auditório, o satisfizera muito. Porém qual não fora a grande surpresa depois daquele acolhimento tão fidalgo e glorificante, quando chegando- se-lhe um homem do povo, uma dessas pessoas cuja grandeza de generosidade excede em muito a pequenez intelectual, perguntara-lhe quanto é que ele queria para a sua alforria, que todo o seu dinheiro estava à sua disposição, ao que ele respondeu com toda a polidez, que nada havia pedido ao público nesse sentido, que sua palavra estava sempre ao serviço de seus irmãos de raça, que os seus votos eram em nome daqueles infelizes" (H, de Carvalho, em A Pena, 14-9.1902).

A Bahia ainda deu mais assunto aos catarinenses, quando lá se encontrava Cruz e Sousa, a quem fora remetido um folhetim com versos de Santos Lostada e criações de Virgílio Várzea, segundo o último figurino da Idéia Nova, ou seja do realismo. Devolve Cruz um texto laudatório a respeito, e que foi publicado em A Regeneração, de 23.4-1884, sob o título Da Bahia:

"Acabo de receber jornais com o espírito hors ligne de ambos. Maravilhoso! Único! Li, reli, treli os versos e quinqueli o folhetim.

Admirável! O Lostada, com a sua palavra toda irisada de florões levantinos, arquitetando uma fraseologia própria, original, levada nas claridões aurorais, cinzelando um pedaço de marfim, cheio de salpicações multicores de azul, rouge, e ouro, traçou um dos folhetins mais cheios de verve que eu tenho lido".

Depois de mais uma carga de elogios adjetivos, que bem marcam o estilo de Cruz, faz uma referência aos moços da renovação literária em Desterro: "Ainda bem! Principiam eles a ter as imponências de águia condoreira, nessa infeliz terra que eu tanto amo, que defendo sempre que o senso mo manda fazer, e que lhes tem sido ingrata! Oxalá saibam os catarinenses, como os dous bandeirantes, compreender o evolucionismo do século e agitar o cérebro pensante de Desterro. Eu cá estou de longe para guardar no sacrário de minha admiração convicta e séria, as pérolas e as flores de luz e ouro, do ideal desses combatentes moços que se chamam Virgílio Várzea e Santos Lostada e que, como uns intrépidos soldados da Idade Média, sabem na luta do talento, na batalha do livro e do estudo, atirar o seu cartel, a sua luva de desafio à ignorância e à insensatez que não ousa dar um passo na vanguarda do Belo estético de que fala Eugéne Veron no admirável livro L'Esthétique! Mais adiante, concluindo: "A perfectibilidade moral e intelectual de um povo depende da mocidade, essa vigorosa e audaz fundidora do porvir. Salve! Que a minha alma adeje nas asas polícromas da inspiração, para saudar os dois talentos mais amplos e os dois poetas mais perfeitos da nova idade literária catarinense".

Da outra frente da guerrilha literária revida o "Quebedo", pelo Jornal do Comércio: "Essas Águias Condoreiras que te arrebatam às realidades da vida, para elevar-te nas amplidões do espaço, lá no capricho das tuas fantasias, largar-te-ão do bico, tarde ou cedo, e quebrar-te-ão o costado de tartaruga, na primeira pedra que se servir aparar-te na queda". E mais: "Tu és um bom rapaz em literatura, os literatos bons como tu não estão isentos da Bem-aventurança prometida, salvo se eles abjurarem o Evolucionismo do século a agitar o cérebro pensante de Desterro".

Entre parênteses, importa advertir aqui um eco da influência de Fritz Müller, representante máximo do evolucionismo entre os catarinenses.

Houve ainda quem saísse em defesa do poeta negro, a falar dos elevados púlpitos do SS. Salvador da Bahia lendária, alinhando outros e outros artigos pelo jornal A Regeneração do liberal Duarte Paranhos Schuttel, que não eram senão o fenômeno que, desde a entrada da década até o seu final, foi conhecido por guerrilha literária catarinense.

O evolucionismo já tivera origem nas lições do Dr. Fritz Müller. Fora assunto do movimento realista. E teve em Dr. Gama Rosa um instante alto. Cruz e Sousa encontrará a mesma ideologia no Nordeste, patrocinada por Tobias Barreto. Mas, não é movimento ideológico que chegasse antes a Recife, que ao Sul, porquanto aqui há muito, pontifica o imigrante alemão Fritz Müller (vd 978sc131).

Na Bahia estabeleceu Cruz e Sousa ainda importantes contatos intelectuais. É possível mesmo que viesse a conhecer novos autores franceses, pois era um porto de contato fácil com a Europa. Entre eles poderiam estar autores relacionados com o simbolismo, conforme abordaremos depois (vd 102).

Em Salvador foi conhecido pelo escritor, depois da Academia Brasileira de Letras, Constâncio Alves. Fez do poeta negro um longo depoimento no Jornal do Comércio do Rio Janeiro:

"... Nas noites em que não havia espetáculo, passávamos longas horas falando de poesia e de arte".

Revela Constâncio Alves que a preocupação de então era fazer versos com habilidade :

"Às vezes entretinham-se alguns dos presentes em fazer versos: e mais de uma vez a improvisação consistiu em arranjar sonetos escritos a dois, no prazo fatal de um quarto de hora, marcado num relógio aberto em cima da mesa. Escolhida o título, um poeta escrevia o primeiro verso, o outro rabiscava o segundo, até o final".

Também fala do estudioso: "Cruz e Sousa, ponto da Companhia Julieta Santos e companheiro de casa de Moreira de Vasconcelos, preferia ao vozerio das palestras e à declamação das poesias o afastamento e a mudez. Como que tecera em torno de si um casulo. Calado, sentado a um extremo da comprida mesa de pinho, folheava cadernos de papel".

Aproximando-se dele diz mais Constâncio Alves, "Cruz e Sousa não era inimigo de convivência. Era um tímido, a quem o rumor aturdia, um recatado, a quem a exibição vexava, um triste, a quem um mal secreto entenebrecia. Adivinhando a agudeza dos que sofrem, a minha simpatia entreabriu a sua alma, abrindo os seus cadernos de versos. Tive assim a ventura de admirar esse delicioso lírico, ainda inédito ou quase".

Comparando-o enfim com seu empresário e amigo, refere ainda Constâncio Alves: "A dessemelhança entre Moreira de Vasconcelos e Cruz e Sousa era absoluta. Ambos continuavam na vida a situação que ocupavam no teatro. Moreira de Vasconcelos, espigado, torcendo os grossos bigodes castanhos, movendo-se, falando com entusiasmo e vibração, trazia à idéia claridades de gambiarras. Era o ator e Cruz e Sousa o ponto. Parecia estar sempre dentro da caixa ignorada. Um pouco curvo, como que para se adatar à exiguidade desse local, falando de raro em raro e brandamente, uma voz quase silêncio, acomodado à função discreta de soprar o papel dos artistas".

Em abril de 1884 a Companhia dramática deixa a Bahia, volteando pelo Nordeste.

Em Pernambuco. No Teatro Isabel de Recife a estréia ocorreu em 24 de abril de 1884. Repercutindo ali os acontecimentos do Ceará, que já libertara os escravos, ocorreu em 4 de maio matinée abolicionista. Foi declamada então a poesia de Cruz e Sousa - Nova Orientação. A imprensa também publica Aleluia, versos dedicados por Cruz e Sousa ao Clube Ceará Livre, de Recife.

Em 8 de junho de 1884 a Companhia seguiu para o Ceará, onde permaneceu dois meses. Cruz e Sousa pronuncia conferência sobre o Abolicionismo. Quando já de retorno a Santa Catarina, seu jornal O Moleque, de 12 de Outubro de 1885, ao dar início à publicação da conferência da Bahia, promete ainda: "Concluída que seja esta (conferência da Bahia), publicará um discurso do mesmo (Cruz e Sousa), pronunciado no Teatro S. João, por ocasião da libertação total do luminoso Ceará, e assim sucessivamente (em fragmentos)".

Não conseguimos ver este discurso, porquanto a coleção de O Moleque existente na Biblioteca Pública Estadual não atinge aquela data. A que encontramos na Universidade Federal de S. Catarina também não alcança esta altura dos acontecimentos. Talvez já não exista possibilidade de reencontrar o texto. Seguramente será semelhante ao da Bahia, mudado apenas o auditório e acrescentados aspectos cearenses, como os de terra cheia de sol, terra de Alencar, etc.

A apresentação do discurso em O Moleque, poderá ter sido redigida pelo mesmo Cruz, porquanto contém ecos de vivência cearense. Expressam seu próprio júbilo ao entrar naquele país de luz. Isto certamente é Cruz e Sousa: "O Ceará, que foi o berço da literatura que deu Alencar, quis também ser a cabeça libertadora da raça escrava deste país e, a golpes de direito e a vergastadas de clarões, conseguiu este aleluia supremo: - Não há mais escravo no Ceará".

Este Ceará sem escravos se encontra no soneto 25 de março (Recife, 1885), de que uma informação colhida por Abelardo F. Montenegro, diz estar dedicada àquela Província em vista de sua atitude humanitária e atenção ao Direito:

Bem como uma cabeça inteiramente nua
de sonhos e pensar, de arroubos e de luzes,
o sol de surpreso esconde-se, recua,
na órbita traçada - de fogo de obuzes.

Da enérgica batalha estóica do Direito
desaba a escravatura - a lei de cujos fossos
se ergue a consciência - e a onda em mil destroços
resvala e tomba e cai o branco preconceito.

E o Novo Continente, ao largo e grande esforço
de gerações de heróis - presentes pelo dorso
à rubra luz da glória - enquanto voa e zumbe

O inseto do terror, a treva que amortalha,
as lágrimas do Rei e os bravos da canalha,
o velho escravagismo estéril que sucumbe.

O ilustre cearense, com trânsito por Santa Catarina, Abelardo F. Montenegro, autor de Cruz e Sousa e o movimento simbolista no Brasil (Fortaleza, 1954), conhecedor dos assuntos cearenses, enunciou o seguinte sobre o simbolismo no Ceará e a presença de Cruz e Sousa.

"Em 1900, Joaquim de Araújo Domingues Carneiro, membro do Centro Literário, lê prosa decadista. O seu conto Flores mortuárias e Volta - tentativa de romance - são sintomáticos. Depois, ele é ardoroso propagandista de Cruz e Sousa, do poeta negro que escrevera a poesia 25 de março com o seguinte oferecimento :

"A província do Ceará, sendo o berço de Alencar e Francisco Nascimento - o Dragão do Mar - é consequentemente a mãe da literatura e a mãe da humanidade" (Alcides Mendes, Informação prestada ao autor a 12-7-1947). Do poeta negro que em 1884 passara pelo Ceará como ponto da Companhia Teatral Moreira de Vasconcelos, e que, anos depois, dissera a Alcides Mendes a ele apresentado por Tibúrcio de Freitas, que demorara na Terra da Luz durante dois meses (Mário Linhares, Gente nova, pgs. 23 e 102)" (Abelardo F, Montenegro, obra citada, p. 179).

A companhia opera ainda no Maranhão e Pará. Aqui era Presidente um catarinense, João Silveira de Sousa (desde agosto de 1884), professor em Recife.

No Maranhão assina Cruz e Sousa dois ensaios de natureza estética. Em Espectro do Rei (título tomado de versos de Moreira Vasconcelos) comenta demoradamente conceitos de literatura, especialmente de poesia. Eis a prova de que Cruz e Sousa estava já preocupado com teorias novas.

O projeto "Cambiantes"

Mais para o final da viagem de Cruz e Sousa pela costa Norte do Brasil, surge um primeiro projeto de livro. Já seguro de si mesmo, o jovem de 23 anos sonhava com uma publicação, que em parte realizou, mas que ele mesmo, após reexame e autocrítica, resolveu liquidar.

Fora este o projeto Cambiantes, cuja natureza a especulação procura hoje reconstruir. O que nos resta sob o título de Cambiantes, como foi publicado postumamente pelo Instituto Nacional do Livro, na coleção Obras Completas de Cruz e Sousa, representa meia dúzia de páginas, colocadas como secção inicial do Livro Derradeiro. Nesta reconstrução, Cambiantes inclui:

Supremos anseios (em O Rebate, de 19-3-1883) ; Após o noivado: Dormindo... ; Nerah; Amor; Escravocratas; Da senzala; Dilema; A revolta.

Do primeiro e volumoso Cambiantes se ocuparam os Jornais de Desterro e também de outras cidades do País.

Em Desterro, o órgão liberal A Regeneração, de 4 de março de 1884, quando a viagem de Cruz ia bastante avançada, já anuncia, como a surgir naquele ano o livro do jovem poeta.

O Despertador, do Partido Conservador, em 29 de outubro de 1884, meio ano após, já o descrevia, em artigo de Alfredo Delorme: ''volume de versos que terá mais ou menos 300 - páginas"... "uma manhã da natureza americana, nas exuberâncias prenhes de vida, de sol, de dor, de nervos e de harmonias"... "O poeta do Sul abrange retrospectivamente a natureza em todas as suas fases tangíveis, sonoras e brilhantes".

Em 31 de outubro, no mesmo jornal, Francisco Margarida subscreve notícia de que Cambiantes estava no prelo, em São Luiz do Maranhão.

No ano seguinte, em 1885, ao sair Tropos e Fantasias, da co-autoria de Virgílio Várzea e Cruz e Sousa, este já de volta, continua anunciada na capa, como ainda a sair, a coleção de sonetos Cambiantes

O poeta Antônio Moreira de Vasconcelos, irmão do dramaturgo Francisco Moreira de Vasconcelos, teve conhecimento do livro de Cruz e Sousa e influiu mesmo no seu destino. Efetivamente, a edição fora iniciada em São Luiz do Maranhão. Havendo-a trazido em parte impressa, não a prosseguiu, em vista das observações de Vasconcelos que o convenceram a correções no estilo. Preferiu destruir o que estava impresso, como também tudo o mais. Decide-se por criações inteiramente novas.

Numa entrevista de 11 de janeiro de 1926 a um jornal do Rio de Janeiro informou Antônio Moreira de Vasconcelos : "Ao partir dessa capital (Desterro, em 1883), meu irmão.. . ofereceu-lhe o lugar de ponto ou secretário da Companhia... O Cruz aceitou. E, deste modo, muito amigos, vivendo numa camaradagem literária de todos os dias, chegaram a São Luiz do Maranhão. Isto em 1884. Meu irmão, que tinha pronto o seu poema republicano, O Espectro do Rei, aí o fez imprimir em volume de duzentas e tantas páginas. O Cruz quis também, nessa ocasião imprimir o seu livro de sonetos Cambiantes, que era prefaciado por meu irmão. Não podendo, porém a companhia demorar-se aí por mais tempo, trouxe Cruz e Sousa o livro por acabar de imprimir, com o intuito de concluir aqui a sua publicação".

O conteúdo de Cambiantes também é abordado por Antônio Moreira de Vasconcelos, na mesma entrevista de 1-1-1926: "Cambiantes era bem a expressão do seu feitio. Iriado, furta-cores, uma espécie de pirotécnica de sons e brilhos, numa riqueza de colorações de pedras finas, batidas de sol, fulgurando nas suas rimas caras e bizarras, nem sempre engastadas com justeza, mas, denotando claramente o aparecimento de um poeta novo. Note que digo um poeta novo e não um novo poeta, porque ele, realmente, trazia qualquer coisa de inédito para a poesia brasileira. A sua arte ressentia-se, porém, da falta do apuro a que já aqui tinha atingido com Bilac, Raimundo, Teófilo e outros. Chamei a sua atenção para esse ponto. E, ele revendo os seus sonetos impressos e os que ainda se encontravam em manuscrito, reconheceu que muito havia a fazer, para que os mesmos tomassem uma forma perfeita. Desistiu, do trabalho de corrigi-los, pensando, como Álvares de Azevedo, naqueles seus versos célebres: Se a estátua não sai como pretendo B quebro-a, mas, nunca o seu metal emendo.

E é esse o tal livro, cuja publicação ficara por concluir? (pergunta o repórter). Exatamente; e de que ainda conservo a maior parte, obtida no armazém onde o Cruz, um dia, os mandou vender, como papel de embrulho".

Prossegue o texto da entrevista: "A. Moreira de Vasconcelos, abrindo a gaveta da sua mesa de trabalho, mostrou-nos o que salvara de Cambiantes e leu-nos, dentre outros, o seguinte soneto, que dá bem idéia do que era, então, o futuro ídolo do simbolismo no Brasil:

Guerra Junqueiro

Quando - ele do universo o largo supedâneo
galgou como os clarões - quebrando o que não serve,
fazendo que explodissem astros do seu crâneo,
as gemas da razão e os músculos da verve;

Quando ele esfusiou nos páramos as trompas,
as trompas marciais - as liras do estupendo,
pejadas de prodígio, assombros e de pompas,
crescendo em proporções, crescendo e recrescendo;

Quando ele retesou os nervos e as artérias
do verso orbicular - rasgando das misérias
o ventre - do ideal na forte hermathemeses.

Clamando - é minha a luz, que o século propague-a
quando ele avassalou os píncaros da águia,
o sol do Equador vibrou-lhe aquelas theses!

- E os outros, do livro, não impressos?

- Eram da mesma forma, Cambiantes, isto é, lampejos fortes de talento e nebulosidades... de escola. Queimou-os. Eram talvez uns cinquenta sonetos. Quando mais tarde eu soube disto, exprobrei-lhe amistosamente essa barbaridade. Respondeu-me que não queria perder mais tempo com aquilo.

- E que idade teria Cruz e Sousa nessa época?

- Não sei, ao certo; talvez, uns 22 anos, mais ou menos".

Pequena estada no Rio de Janeiro

(1885).

Um longo retorno vai trazendo Cruz e Sousa de volta. No caminho dissolve-se a Companhia Teatral de Moreira de Vasconcelos. O poeta negro vai tentando ligações com a imprensa, primeiramente na Bahia, depois no Rio de Janeiro, que já conhecera na ida (vd 33ss). Mas em vão.

Quando no Rio de Janeiro, onde permaneceu os primeiros meses de 1885, valeu-se da amizade estabelecida com o proprietário da Companhia Teatral a quem servira, a fim de ter onde ficar algum tempo. Assim Cruz e Sousa veio a ser conhecido pelo outro irmão, Antônio Moreira de Vasconcelos, também poeta. Através deste nos chegou a informação : "Aqui foi hospedar-se em casa de meus pais, até que pudesse arranjar uma colocação conveniente. Morávamos nós, então, à rua da Saúde, em frente à residência de Luiz Delfino, por quem ambos tínhamos uma grande admiração, e de que tanto se envaidecia o Cruz, por ser também catarinense o notável poeta de Solemnia Verba. Dias depois, tendo-se estabelecido entre nós uma afetuosa intimidade literária, o Cruz deu-me a ler a parte já impressa do seu livro (Cambiantes), toda ela constituída de sonetos" (entrevista de 1-1-1926) (5 ).

Na Capital Catarinense o semanário O Moleque estava atento ás atividades de Cruz e Sousa. Uma notícia de O País, do Rio de Janeiro, é transcrita em 5 de fevereiro daquele ano de 1885, em que se dizia do "grande sucesso pelo Norte, onde os seus escritos foram vantajosamente apreciados" e que a Gazeta da Tarde da Bahia o houvera convidado para seu Redator Chefe, havendo agradecido a oferta. Em vez disto, Cruz se fez seu representante no Rio de Janeiro.

Participando da fundação do Clube dos Jornalistas, dirigiu carta á Comissão organizadora, enunciando esta sua condição e um parecer: "Como representante da Gazeta da Tarde, da Bahia, congratulo-me com o Clube dos Jornalistas, aplaudindo, no maior grau das minhas convicções sociais, esta brilhante idéia regeneradora. Assim como a biblioteca é o restaurante do espírito, a imprensa é o sol da consciência coletiva. Abraço por isso o jornalismo fluminense que deve ser a consubstanciação da democracia moderna. Cruz e Sousa".

Não se podendo manter na Capital do Império, retornou á da Província em abril de 1885, depois de dois anos de ausência. O novo homem que se apresenta em Desterro era agora muito representativo, em decorrência da viagem e dos muitos contatos exercidos. Mas certamente este retorno à pequena cidade, apesar do encanto oferecido pela terra natal e o convívio com os familiares, não expressava uma realização como a desejara.

Cruz e Sousa no espaço liberal

A fase ascensional da vida provinciana de João da Cruz e Sousa coincide com o domínio do poder liberal (1878.1885). Mesmo quando ausente em viagens os favores lhe sorriem. A balança do poder influenciava o sucesso da imprensa e a versatilidade das correntes filosóficas e literárias. O abolicionismo respirava mais forte e um preto tinha mais condições de acesso. No espaço liberal Cruz e Sousa é redator de O Moleque, participante do movimento realista Idéia Nova, imprime Tropos e Fantasias com Virgílio Várzea, agita fortemente suas idéias abolicionistas.

Depois do espaço liberal na política provincial de Santa Catarina, Cruz e Sousa, passa a ser um insucedido no acesso social, no que contribui também seu retraimento.

Controlaram os liberais a deputação geral e provincial de Santa Catarina, a primeira vez, de 1835 a 1847, de novo de 1857 a 1860, sempre com Jerônimo Coelho, e são responsáveis por inovações significativas.

Nascendo Cruz e Sousa em 1861, viu a luz sob o signo do Partido Conservador.

Os liberais, reconquistando a liderança em 1864, elegem os dois deputados gerais, João Silveira e João de Sousa Meio Alvim. Reelegem-se os dois deputados liberais para a legislatura de 1867 e 1868. Para contornar a situação conservadora dos professores do anterior Liceu Provincial o governo liberal ensaiou o frustrado colégio Santíssimo Salvador, de Jesuítas italianos.

Retomam os conservadores a maioria, orientando o ensino na forma que tomaria sob o titulo de Ateneu Provincial. Neste estudou Cruz e Sousa (vd 15).

Os liberais alcançam maioria no Gabinete do Império em 1878 e a conservando até meados de 1885. Em consequência ocorre a transformação política de Santa Catarina e que coincide com o movimento da Idéia Nova ou do realismo naturalista, promovido pelos moços saídos do ensino do Ateneu Provincial.

Entre os presidentes da província se destaca, do ponto de vista da proteção aos intelectuais liberais, Dr. Francisco Luiz da Gama Rosa (29-8-1883 a 9-9-1884). Procurou situar bem Virgílio Várzea e Santos Lostada, nomeando-os como oficiais de gabinete da presidência.

Difícil fora a transformação das deputações catarinenses. Na Assembléia Legislativa provincial a maioria dos liberais é conseguida em 1880, dois anos após a do gabinete do Império; mas enquanto este se conserva até 1885, a da assembléia liberal se mantém até 1886. Na deputação geral a progressão liberal foi ainda mais paulatina. A lei de 9 de janeiro de 1881 dividira a província em dois distritos, encabeçados por Laguna e Desterro. No de Laguna se elegeu o liberal Manoel da Silva Mafra (1882-1884), o qual ainda se reelegerá para a legislatura seguinte (1885- 1866), ao mesmo tempo que foi ser Ministro da Justiça e Conselheiro do Império. No distrito eleitoral de Desterro procura sobreviver politicamente o ex-Presidente da Província, o Conservador Alfredo D' Escragnolle Taunay, conhecido também como escritor. Ganhador em 1882, perde em 1884 para o liberal Dr. Duarte Paranhos Schuttel.

Nosso poeta João da Cruz e Sousa, ainda que não se fizesse conhecer como político militante, está relacionado com os liberais, tendo no Dr. Schuttel um amigo e protetor. Frequenta sua residência à Praça do Palácio, hoje XV de Novembro, onde, possuía tipografia e residência (no andar superior), na altura onde depois se estabeleceu o edifício dos Correios e Telégrafos. Desta amizade resultou uma dedicatória de soneto à senhora Schuttel.

O presidente Dr. Gama Rosa, admirador de Cruz e Sousa, procura situá-lo socialmente, enviando convite para promotor público. ''Ao que parece Cruz e Sousa não pôde assumir por se achar distante, integrado na companhia dramática de Moreira de Vasconcelos (6).

A presença do escritor Alfredo Taunay talvez não resultasse em contatos. Antes poderia ter tido Cruz e Sousa ligações com Silveira de Sousa, adversário de Taunay, mesmo porque Silveira de Sousa se encontrava no nordeste do pais, como professor da Faculdade de Direito de Recife. Recorde-se também que em 6 de setembro de 1886 alcançava a Senatoria por Santa Catarina Visconde Taunay, conservador, em prejuízo do ilustre catarinense João Silveira de Sousa, já citado, e então retido na Faculdade de Direito de Recife, em decorrência de sua posição de liberal.

O Partido Liberal se encontra fora do Gabinete do Império de meados de 1885 em diante, vindo depois a República; e ficou em minoria na Assembléia Provincial de Santa Catarina desde 1886. Esta circunstância retira aos jovens do movimento Idéia Nova, geralmente liberais e ainda sob a influência de Gama Rosa, a anterior versatilidade.

Diminuídas as oportunidades para os liberais, logicamente Cruz e Sousa nada conseguirá em Desterro que solidifique seu estado econômico e social.

Foi no espaço liberal que o movimento literário catarinense denominado Idéia Nova (vd 96) adquiriu mais destaque. Atribui-se a paternidade ao Dr. Gama Rosa, em vista de seu adiantado estado de espírito, adquirido por influência do monismo evolucionista de Fritz Müller e por seus contatos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, além do poder de sua posição de Presidente da Província.

O movimento Idéia Nova expressa uma renovação no mais amplo sentido, não só literário, mas da estética em geral e dos conceitos filosóficos, então positivistas e evolucionistas, além das idéias de liberdade de pensamento.

Com referência a Cruz e Sousa, participa do realismo da Idéia Nova, mesmo quando está fora da Província. E, quando retorna, acolhendo-se à residência dos seus familiares, continua batalhando. "Cruz e Sousa, na sua casinha de Praia de Fora, reunia toda a juventude intelectual, para cultivar os ideais da então Escola Nova, que compreendia o parnasianismo e o naturalismo" (A. Muricy, Prefácio p. XI).

Expressa-se a atuação de Idéia Nova de Cruz e Sousa no jornal O Moleque e no livro Tropos e Fantasias, de que cuidaremos logo a seguir. Mesmo transitando pelo Rio Grande do Sul em 1886 é lá um batalhador do realismo da Idéia Nova, como adiante também veremos.

Redator de "O Moleque"

Em 26 de abril de 1885, já sete meses após o governo de Gama Rosa, estava outra vez Cruz e Sousa de volta a sua cidade natal de Desterro, na pitoresca e bucólica Ilha de Santa Catarina. Reencontra seus amigos, que ainda não se haviam afastado da Província, Virgílio Várzea, Oscar Rosas e, no Continente em Coqueiros, Araújo Figueiredo.

O registro era dado pelo O Moleque: "Acha-se entre nós, depois de uma longa excursão por todo o Brasil, o valente e rutilante poeta realista Cruz e Sousa".

Estabelecido de novo na residência em Praia de Fora na modesta casinha de seus pais em Praia de Fora, está agora Cruz e Sousa com prestígio e é procurado. Seu nome logo figura nos jornais da cidade, com poesias cada vez mais apreciadas, além de outros textos. Recita e fala com eloquência em reuniões de circunstância.

Em maio os amigos do negro fascinante o promovem a Redator de O Moleque. Faz deste jornal uma réplica melhorada do anterior Colombo, de maneira que, além dos assuntos sociais, se ocupa dos literários. A diferença era que o anterior fizera prurido romanticista, ao passo que agora o barulho é do naturalismo, sob o clangor de uma expressão sonora: Idéia Nova.

O jornal pertencia a um jovem ex-comerciário, que o pusera em circulação semanal desde 22 de dezembro do ano anterior (de 1884). Não obstante o brilho e o valor com que Cruz e Sousa o conduziu, O Moleque não durou muito além de um ano.

Especula-se, qual seria a causa. A cor do Sr. Redator?! De outra parte, importa considerar o que aos poucos se diluia o poder dos liberais. Era o tempo fervente em que o Gabinete Liberal caía, quando os defensores da escravatura conseguiram maioria contra uma lei abolicionista.

Não só. Não se julgam coisas complexas com conceitos simples. O título do jornal era provocativo. Os outros órgãos de imprensa eram convidados para as festas e não o O Moleque.

O jornal de Cruz e Sousa não deixou de tomar atitudes ditas corajosas. Vituperou a atitude da Colônia Francesa, pela sua omissão em relação a O Moleque, ao comemorar ela a data nacional francesa de 14 de julho, em 1885. De novo, com referência ao Clube 12 de Agosto: ".,. Só não se distribuiu convite para O Moleque porque seu Redator-chefe é um crioulo e é preciso saber que esse crioulo não é imbecil".

Na apreciação de Nestor Vitor: "As perspectivas não foram inteiramente falazes para o rapaz que voltava. Nesse ano, 1885, Cruz conseguiu mesmo publicar ali em Desterro um jornal com ilustrações litografadas de que foi o diretor e que viveu até completar precisamente um ano. Chamava-se aquele jornal O Moleque. Suspendeu-se-lhe a publicação por falta de estímulo, embora sem dar prejuízo a ninguém senão à empresa, pelo que se lê no artigo de despedida. Vê-se, contudo, pelo texto da folha : nesse tempo Cruz e Sousa até se imiscuía na vida elegante da cidade, fazendo concurso de beleza entre as moças, animando teatrinhos particulares, etc." (Intr., 1923, p, 16).

Ressalvados os aspectos negativos de O Moleque, nele se sucedem ensaios de fineza e bom estilo. O mesmo Cruz e Sousa está agora relativamente moderado, sem a frase palavrosa e imaginativa que caracterizaram outras fases de sua linguagem.

Sejam lembrados os títulos recolhidos pela edição centenária, sob o título "Outras evocações" :

Elizirna (descrição de uma doce mulher, 19-7-1885) ;

Interjeições da lágrima (sobre o falecimento de Artur Rocha, autor de Filha da Escrava, (17-5-1885);

Perfis a vapor (a propósito de Carlos Schmidt, um adorável catarinense, 24-5-1885) ;

Vitor Hugo (visto como apotegma glorioso de mestre, 7-6-1885);

Major Camilo (o homem que ri, ri, como um doido do prazer, 14-6-1885) ;

Virgílio Várzea e Cruz e Sousa (dá conhecimento das apreciações críticas da imprensa do Rio de Janeiro sobre Tropos e Fantasias, 20-9-1885).

Abolicionismo (conferência de Cruz, na Bahia, 12-l0-1885).

Apresenta ainda O Moleque as poesias de Cruz e Sousa: Anda-me a alma; Quando eu partir, Noiva e triste; Ambos; Plenilúnio; Triste; Estas risadas; Mocidade; Na Fonte; Cega; A Ermida; Água-forte; Alma que chora; Chuva de ouro; Meus esplêndidos; Teus olhos. Aprecie-se este último texto:

Teus olhos - esses carinhos,
esse casal de ilusões
tão doces como os arminhos,
teus olhos - esses carinhos
parecem ser os dois ninhos
das minhas consolações,
teus olhos - esses carinhos
esse casal de ilusões!...

(O Moleque, 21 de julho de 1885).

Durante o tempo de O Moleque e também depois, Cruz e Sousa mantém contato com os órgãos de imprensa de Santa Catarina, quer se trate dos grandes, quer dos efêmeros.

Abolicionista, jornal aparecido em 25 de novembro de 1885 estimula causas semelhantes, do ponto de vista social, aos do extinto O Moleque. Por um ano incentivou a campanha de libertação dos escravos. Nele militaram Francisco Margarida (chefe de redação), José Prates, Firmino Costa, Carlos de Faria, Araújo de Figueiredo, P. Cardoso.

Cruz e Sousa, que não demorará seguir para o Rio Grande do Sul, também publicou textos no Abolicionista.

Digno de menção é ainda Tribuna Popular, bissemanário impresso por José Lopes Júnior. Ao tempo da Província foi a principal folha literária, em que militaram Cruz e Virgílio Várzea, pela Idéia Nova. Para o mesmo Virgílio era a "folha literária mais notável de Santa Catarina, entre 1881 e 1889".

Num inédito de Cruz e Sousa, em que este se dirige a Virgílio, se lê: "Evocando com emoção, com a mais intensa sensibilidade, a época floreal, combatente, bizarra, da saudosíssima Tribuna Popular, obscura ermida metida por entre as sombras da vegetação primitiva de uma província simples e onde uma campanha viva, chamejante, abria em messes de ouro. À camaradagem, à febre, ao entusiasmo, ao amor daqueles intrépidos e inolvidáveis tempos, sans peur et sans reproche, tempos de gládio e facho, sob as impressionativas emulações dos belos companheiros, hoje desgarrados : Araújo Figueiredo, Carlos de Faria, Horácio de Carvalho, e sob a repercutidora saudade de Santos Lostada. A esse tocante en arrière, que neste momento me faz profundamente e recordativamente viver. . . " (Cf. Cruz e Sousa, Obra Completa, Aguilar Ltda., 1961, p. 809).

Ainda no final de 1890 será na Tribuna Popular que Cruz e Sousa receberá seu novo amigo Nestor Vitor, quando de trânsito por Desterro.

Tropos e fantasias (1885).

Tropos e Fantasias, volume de apenas 64 páginas, editado em meados de 1885 por Virgílio Várzea e Cruz e Sousa, representa um documentário do movimento Idéia Nova, similar ao de O Moleque, com a diferença que era em livro e contendo apenas textos em prosa.

Araripe Júnior, do Rio de Janeiro, já então o enquadrava nestes termos: "Os Tropos e Fantasias quando outra qualidade não tivessem, seriam objeto de curiosidade pela audácia que revelam. Seus autores,. filiando-se à escola naturalista, atiram-se às formas literárias cultivadas por E. Zola e Eça de Queiroz, com um entusiasmo frenético só comparável à ansiedade e aos deslumbramentos do pioneer que pela primeira vez penetra em uma jazida aurífera".

A guerrilha também está viva, agora. O Mosquito se apressa em transcrever a apreciação de Araripe Júnior, em seu número 39, de 20 de setembro de 1885. Antes do texto, que reproduz depois, comenta:

"Temos a elevada honra de transladar para as nossas colunas um notabilíssimo e superior artigo crítico sobre os Tropos e Fantasias daqueles nossos amigos (Virgílio Várzea e Cruz e Sousa), inserto na Semana, da Corte, B a primeira revista crítica, científica e literária do país. O artigo é escrito por Araripe Júnior, o profundo crítico do Germinal, de Zola, e incontestavelmente um dos mais fortes talentos de combate. É isso um sério triunfo para os nossos amigos e uma esporada, um vibrante coup de balai na obtusidade córnea dos invejosos que queiram ou não queiram, gostem ou não gostem, apreciem-nos ou deixem de os apreciar, nunca conseguirão enfraquecer ou desvirtuar o seu inabalável merecimento. Morda-se, pois, toda a cáfila dos invejosos".

Colocado o texto de Araripe Júnior, que também contém reservas, ao lado do elogio, continua o calor da guerrilha, com estes dizeres finais: "Depois disto, após esse juízo espontâneo é observador, após esta vergalhada mestra, todos os imbecis que morram na noite da sua vulgaridade, embrulhados nos farrapos das suas idéias, ficando sabendo que, quer leiam os escritos dos nossos amigos, quer não leiam, eles com isso nada têm a perder, nem a ganhar, porque esses imbecis não formam tribunal julgador por não terem competência intelectual, nem nome que lhes faculte o direito para isso. É verdade que os imbecis encontram sempre outros imbecis que os aplaudam B mas isso é natural B porque, quando não entendem uma coisa, dizem que não presta, unicamente por não terem a coragem precisa de dizer frase de mais senso. São assim as nulidades cínicas. O brilhantíssimo escrito de Araripe Júnior chama-se a justiça, o dever da crítica literária, não se chama ignorância" (vd 127).

Os outros jornais são mais moderados em manifestações.

A Regeneração em cuja tipografia o libreto fora impresso informava que era "da autoria de dois jovens de espírito adiantado que trilham nas letras veredas novas, seguindo os modernos mestres" (12-7-1885).

O Jornal do Comércio é inteiramente lacônico, apenas registrando o lançamento (1 4-7-1885 ).

Tropos e Fantasias, conforme adiantamos, foi impresso na tipografia do jornal A Regeneração. Esta circunstância revela a ligação de Virgílio e Cruz com a imprensa liberal e o Dr. Schuttel.

O mesmo informam as entrelinhas da dedicatória: "A Luiz Delfino, Oscar Rosas e Santos Lostada, as três mentalidades pujantes da nova fase literária catarinense".

Com referência a Santos Lostada, então promotor público em Itajaí, escreveu uma carta aberta ao A Regeneração, comentando o livro (Carta de 15-7-1885).

A apresentação é assinada pelos dois autores e tem estes termos: "CASOS E COUSAS. As ilusões são como as cerejas. Se estas se desprendem uma a uma, quando as tentamos apanhar juntas, também aquelas. Tropos e Fantasias sintetizam um punhado de ilusões... avigoradas no idealismo, emigrando, leves, leves, para os espíritos asseados e limpos, na higiene e na salutariedade essencial da luz. E foi nestes casos que publicamos estas cousas. (Assinado) Virgílio Várzea e Cruz e Sousa".

O conteúdo desta apresentação, típica de Cruz, revela que já desde cedo se debatia por idéias, caráter este que se tornará verdadeiramente apostolar no futuro. A partir de casos e coisas extrair idéias.

Os seis títulos de que se compõe a segunda parte, pertencente a Cruz e Sousa, já falam bem alto de seus ideais. Todas as páginas de Tropos e Fantasias estão perpassadas de calor pela humanização de sentimentos.

Piano e Coração aborda o homem sob a perspectiva de sua sensibilidade à música; descreve-o como sentimento. A propósito menciona, como faz com frequência em vários dos seus escritos, os compositores da música erudita, Chopin, Gounod, Métra, Strauss, Beethoven, Gottschalk; não deixará de citar Haydn, Schubert, etc., em outros artigos.

O Padre é um dos títulos mais significativos, porquanto o enfoque é o do abolicionismo; revela a contradição intrínseca do padre escravocrata, então existente (vd 55).

Em Pontos e Vírgulas a piedade é reclamada aos privilegiados da nobreza, juntamente com uma proclamação da democracia: "Deixai as vossas aristocracias de Princesas bourbônicas, as vossas reverências e cortesias fidalgas, desapertar o colete do estilo, quebrai a linha da hereditariedade titular, saí por um momento, dos arminhos flácidos das vossas alcovas elegantes e confortáveis, arquiteturadas, cinzeluradas de azul, brosladas de prata, cheias de caprichos arabescados de arte. Sede democratas, uma vez. Com a democracia dos sentimentos, preclaros, decentes, bonitos, galgareis o corrimão feito de rosas e madressilvas e jasmins da escadaria sutilíssima, madreperolizada, da aristocracia da virtude".

O último item Sabiá-Rei é uma sinfonia que merece ser lida. No texto se destacam conteúdos importantes da temática de Cruz e Sousa, a música, a evolução da natureza, a ingratidão, B tudo visto dentro da fanfarra geral da natureza.

"... fazia bem, ouvir-se, os artísticos concertos do incomparável maestro das sinfonias selvagens, do empório largo da natureza criadora".

Mais adiante, a propósito do sabiá morto pelo caçador, conclui:

"Nos seus olhos havia ainda os derradeiros lampejos do tropicalismo da raça. E o sangue a rebentar-lhe da ferida aberta, como que parecia também salmodiar a nênia sombria da ingratidão dos homens pelas Aves da Luz".

A capa do livrinho promete, de Cruz e Sousa, mais quatro obras: Cambiantes (sonetos), Cirrus e Nimbus (versos), Jambos e Morangos (prosa), Coleiros e Gaturamas (versos).

Os planos não lhe saem como o prometido, mas algo conseguirá, não obstante haver a tipografia de A Regeneração meses após a impressão advertido aos autores de Tropos e Fantasias a pagarem a última prestação.

O abolicionismo e Cruz e Sousa

Para a visão de síntese de Cruz e Sousa, a injustiça escravocrata não se oferece apenas como um episódio. Ocupando-se com o tema universal da ascensão da natureza e de sua dor, ele mesmo se conhece a si como um lutador de sua ascensão pessoal, desde a barbárie africana até o cimo da arte ariana. É o invectivador dos passadistas, pregando ele apostolarmente a Idéia Nova e depois a elevação simbolista. Opõe-se ao conservadorismo aristocrático, sendo ele mesmo um espírito liberal.

Nesta linha de conduta combate a desumanidade da escravatura, integrando-se no movimento abolicionista, com reflexos em sua poesia e nos escritos em prosa.

De Cruz não restam muitas notícias e nem escritos consideráveis, referentes ao abolicionismo, porque sua maturidade de homem de letras é posterior à Lei Áurea de 13 de maio de 1888, pela qual se dera liberdade generalizada aos escravos. Mas sobra muito mais do que pensaram os primeiros que examinaram a posição abolicionista de Cruz e Sousa.

Esta aparente falta de notícias no primeiro instante pode dar a impressão de que Cruz se evadira do problema negro (como Machado de Assis e outros mulatos ou meio mestiços). Na verdade Cruz não sofreu diretamente a escravidão e teve uma posição social superior a qualquer outro preto na cidade de Desterro.

A aspiração pela arte e civilização ariana, pudera fazer-se pela evasão à sua raça, o que conseguiria assim mais comodamente. Assim poder-se-a à primeira vista pensar de Cruz e Sousa. Mas não foi o seu caso.

Cruz e Sousa foi fiel às suas origens, do ponto de vista da raça. Continuou negro - porque não deixou de estimar os seus. Conseguiu ser branco, enquanto alcançou o nível de sua cultura. A aspiração de ser branco, era, em Cruz e Sousa, apenas social. Cruz é negro pela sua fidelidade às raízes. É branco pela sua personalidade cultural. Cruz e Sousa é um negro-branco. Este é o seu maior titulo. No terceiro milênio efetivamente as raças se misturarão e com isso resultará a própria miscigenação das culturas, evidentemente com predomínio dos elementos fortes de cada uma.

Os poucos escritos anteriores ao ano de 1888, época da abolição, refletem seu pensamento abolicionista de maneira muito clara. Continuam alguns ecos nas publicações posteriores; mas não se deve procurar nestas últimas manifestações o seu pensamento abolicionista, em vista de já não ser temática da ordem do dia.

Tudo começa na conferência "Abolicionismo" de 1884 na Bahia, seguida logo de outra no Ceará (cf. O Moleque, n. 43, 12-10-1885). O discurso da Bahia é algo retórico e o deverá ter sido sobretudo na voz emotiva do ilustre poeta negro em viagem pelo País: "Estamos em face de um acontecimento estupendo, cidadãos: A Abolição da Escravatura no Brasil. Neste momento, do alto desta tribuna, onde se tem derramado, em ondas de inspiração, o verbo vigoroso e másculo de diversos outros oradores eu vou tentar vibrar nas vossas almas, cidadãos, no futuro de vossos corações irmanados na Abolição; eu vou apelar para vossas mães, para vossos filhos, para vossas esposas. A Abolição, a grande obra do progresso, é uma torrente que despenca; não há mais pôr-lhe embaraços à sua carreira vertiginosa".

Continua com evocações dos ideais da revolução francesa: "As consciências compenetram-se dos seus altos deveres e caminham pela vereda da luz, pela vereda da liberdade, igualdade e fraternidade, essa trilogia enorme, pregada pelo filósofo do cristianismo e ampliada pelos autos dos - Chatiments, - o velho Hugo. Já é tempo, cidadãos, de empunharmos o archote incendiário das revoluções da idéia, e lançarmos a luz onde houver treva, o riso onde houver pranto, e abundância onde houver fome".

O poeta e orador negro lança agora um estardalhaço retórico sobre a situação : "Basta de gargalhadas! Este século, se tem rido muito, e se o riso é um cáustico para a dor física, é um veneno para a dor moral, e o século ri-se à porta da dor, ri-se como um Voltaire, ri-se como Polichinelo. O riso, cidadãos, torna-se a síntese de todos os tempos. Mas, há ocasiões, em que se observam as palavras da Escritura: Quem com ferro fere, com ferro será ferido. E então, o riso, esse riso secular, que zombou da lágrima, levanta-se a favor dela e a seu turno convence, vinga-se também. É aí que desaparecem, na noite da história, os Carlos I e Luís XVI, as Maria Antonieta e Rainha Isabel, é aí que desaparece o cetro, para dar lugar à República, a única forma de governo compatível com a dignidade humana, na frase de Assis Brasil, no seu belo livro República Federal". (Continua, -- diz o texto publicado, mas não temos possibilidade de reencontrar os números seguintes do jornal O Moleque).

Basta este tópico do discurso de Cruz e Sousa para se avaliar a qualidade do seu trabalho de pregador abolicionista, na Província e no Brasil. O final do texto ainda revela que pregava a República.

Em Tropos e Fantasias, libreto de 1885, reencontramos a pregação abolicionista. O item O Padre, com meia dúzia de páginas, revela a acomodação da igreja católica com a situação da escravatura.

Os jesuítas, defensores dos índios, tinham de outra parte escravos pretos. Os jesuítas do colégio de Desterro, de 1751 a 1759, tiveram a seu serviço um escravo. As igrejas eram construídas por escravos no atinente aos trabalhos mais duros. Uma rica mulher, de Rio Tavares, então do distrito sede de Desterro, construiu a Igreja de São Sebastião, ainda existente, com os seus escravos. Nas fazendas dos padres havia escravos. Em 1867 falecia o vigário de São João do Rio Vermelho, no Norte da Ilha de S. Catarina, Pe. Antônio de Sta. Pulchéria de Oliveira, anteriormente Arcipreste da Província, o qual possuía escravos; ficou na voz da tradição popular que houvera doado os seus bens à Irmandade do Sr. dos Passos, continuando todavia os escravos a residir nas terras por algum tempo.

Cruz e Sousa teve a ousadia, porque na Província a crítica ao clero se agravara com a presença dos jesuítas italianos, de 1865 a 1870, quando pregavam com a peculiar agressividade do clero europeu da imigração, exatamente na igreja dos pretos, dando panos ao sopro da crítica (7).

Assim começa o texto de Cruz e Sousa: "O PADRE (título), Um padre escravocrata!... Horror! Um padre, o apóstolo da Igreja, que deveria ser o arrimo dos que sofrem, o sacrário da bondade, o amparo da inocência, o atleta civilizador da cruz, a cornucópia do amor, das bênçãos imaculadas, o reflexo de Cristo...

Um padre que comunga, que bate nos peitos, religiosamente, automaticamente, que se confessa, que jejua, que reza o - Orate Frates, que prega os preceitos evangélicos, bradando aos que caem surge et ambula.

Um escravocrata de. . . batina e breviário. . . horror!

Fazer da Igreja uma senzala, dos dogmas sacros leis de impiedade, da estola um vergalho, do missal um prostíbulo....

Um padre amancebado com a treva, de espingarda a tiracolo como um pirata negreiro, de navalha em punho como um garoto, para. assassinar a consciência".

Segue o rosário de considerações de Cruz e Sousa, em meticulosas observações, por vezes sugerindo outros males...

Súbito reage, proclamando e anunciando a abolição: "Um padre que deixando explodir todas as interjeições da ira, estigmatiza a abolição.

Ela há de fazer-se malgrado os exorcismos crus dos padres escravocratas; depende de um esforço moral e os esforços físicos - o fio condutor da restauração política de um país!".

O poeta se propõe substituir as escravas por loiras... É muito arrojo seu abordar a questão por este lado, o que somente se explica por um forte sentimento abolicionista, ao ponto de se aproveitar de uma situação moral a que estavam sujeitas as escravas frente ao apetite dos senhores: "Pois façamos uma coisa:- Eu escrevo um livro de versos que entitularei: O abutre de batina, puros alexandrinos, todos iguais, correios, com os acentos indispensáveis, com aquele tic de sexta, - tipo elzevir, papel melado - e ofereço-te, dou-to. Prescindo dos meus direitos de autor e tu o assinas!...

Com os diabos, hás de ter influência no teu círculo. Imprimes um milhão de exemplares, vende-os e assim terás loiras para a tua subsistência, porque tu és paupérrimo, padre, e necessitas mesmo de dinheiro, porque tens família, muitos afilhados que te pedem a bênção e precisas dar-lhes no dia de teu santo nome um mimo qualquer. Faz isso, mas ... não te metas com o abolicionismo; é a idéia que se avigora".

Mais adiante, conclui, com esta peroração: "É tempo de Zurzirmos os escravocratas no trono do direito, a vergastadas de luz... Sejam-te as virtudes teologais, padre B a liberdade, a igualdade e a fraternidade - maravilhosa trilogia do amor. Unge-te nas claridões modernas e expansivas dessas três veias - artérias da verdadeira Filosofia Universal". É possível que este capítulo de Cruz seja um discurso abolicionista convertido em texto literário, tal é a emoção retórica.

Arrolam-se como textos abolicionistas Dor negra (de Evocações, 1898), Consciência tranquila (inédito, arrolado em Outras evocações).

Consciência tranquila é a terrível verdade sobre a escravidão. É a mais terrível página da literatura catarinense do século XIX. Nada de melhor foi escrito naqueles dias de Apocalipse oculto pelas formalidades aprovadas por uma sociedade de privilégios. O assunto é este, anunciado nas primeiras linhas:

"O ilustre, o douto homem rico, o poderoso senhor de escravos está já, segundo a previsão do seu médico, quase às portas da morte".

Não se pode resumir a relação de crueldade de um senhor de escravos, como este e que teve muitos similares.

São dez páginas que Cruz e Sousa não publicou mas que a verdade não permitiu que se perdessem para a história. Leiam-se (Cf. Cruz e Sousa, Obra Completa, Outras evocações, no item Consciência tranquila, Aguilar Ltda., 1961, p. 668-677).

A obra poética, de fundo abolicionista, é representada por 4 sonetos: 25 de março (quando de viagem no Nordeste brasileiro, veja-se n. 37, onde reproduzimos o texto) ; Escravocratas (de Cambiantes) ; Dilema (de Cambiantes); Auréola equatorial (Outros sonetos).

Em Escravocratas o poeta se faz orador terrível, mais duro que o bronco profeta Joel, ao concluir o soneto:

"Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d'estrépido, gongórico,
castrar-vos como um touro - ouvindo-vos urrar!"

Eis aí um evidente abolicionista, que agride o mal, com todas as armas! Não chora apenas a dor e a miséria dos pretos e de suas crianças infelizes. Faz tudo, chora e luta.

Finalmente, são ainda de evidente feição abolicionista 4 poemas : Na senzala; Grito de guerra; Entre luz e sombra; Sete de setembro.

Este último poema, Sete de setembro, ainda que singelo é dos mais representativos, porque aos vinte anos do poeta. Remonta aos festivais de que participava na velha Desterro, aos dias anteriores á sua integração na Companhia, dramática Julieta Santos, de Moreira de Vasconcelos. Depois de três estrofes de exaltação à independência do Brasil, o jovem abolicionista pondera à festiva assistência:

Mas, embora, meus senhores
se festeje a Liberdade,
a gentil Fraternidade
não raiou de todo, não!...

(Publicado o poema integralmente, em A Regeneração de 10-9-1882). É o mais antigo documento do abolicionismo de Cruz e Sousa.

De outra parte, como aos abolicionistas em geral, faltou a Cruz e Sousa uma visão integrada do problema da servidão. O que importava, era, não somente a liberdade, mas ainda converter a servidão em direitos, como hoje se atribui à classe trabalhadora. Ser escravo era como hoje ter emprego; ser escravo liberto, era como hoje ser desempregado. Era preciso não ter convertido a liberdade em desemprego, mas dar a liberdade juntamente com o emprego. Isto não era fácil, e por isso não aconteceu. Somente de pouco em pouco as leis sociais foram surgindo, delas precisando principalmente os mais despreparados para o regime do trabalho livre.

A terceira viagem ao Rio Grande do Sul

(1886).

Com o desimpedimento de homem solteiro e ainda não ligado a qualquer cargo remunerado, porquanto não o conseguira ainda ao nível de suas aspirações, Cruz e Sousa, aos 25 anos, sai de novo a andar. Os tempos não são propícios para os liberais, agora alijados do poder. De outra parte, sua viagem por todo o país, lhe dera o conhecimento para tentar onde quer que fosse um modo de viver. No Rio de Janeiro, como se sabe, não conseguiu firmar-se (vd 41). Retornando a Desterro na época dos liberais conseguiu manter-se, ainda que precariamente, na imprensa.

A versão muitas vezes repetida (inclusive de Nestor Vítor) de que o meio não o favoreceu, talvez não fosse só por causa de sua cor. Como sempre insistimos, as condições ambientais, com os liberais fora do poder, já não o favorecem. A situação política em transformação, de 1885 e 1886, deve ser a razão mais remota do que acontecia. Vai, então, experimentar a vida no Rio Grande do Sul.

É possível que sua viagem se fizesse não antes de 18 de abril de 1886, porque então ainda publicava em Desterro, um soneto, conhecido por suas peculiaridades simbolistas, - Delírio do som (A Regeneração, 18-4-1886).

Esta última viagem ao Rio Grande do Sul cobre praticamente todo o ano de 1886, até 2 de fevereiro de 1887.

"Em 1886 ele deixava o Desterro de novo indo numa excursão artística, provavelmente com alguma companhia dramática para o Rio Grande do Sul. Esta inquietação bem que nos indica: Cruz, afinal continuava sentindo-se constrangido em sua terra" (Nestor Vítor, Introdução, 1923, p, 17).

Foi de certo triunfo para o poeta. Virgílio Várzea o felicita, em carta de setembro de 1886, "pelos sucessos literários" na província dos pampas. Andrade Muricy acresce: "... tendo a sua passagem marcado ali uma data literária sensacional" (A. Muricy, Prefácio, 1925, p. XII).

Na província do Rio Grande do Sul transitou por Porto Alegre, Pelotas, D. Pedrito e Bagé.

Sabe-se de um perfil escrito sobre sua pessoa, de um artigo seu e de uma tentativa de edição de livro.

O jornal de D. Pedrito, - Eco do Sul, - em outubro de 1886 publicou um Perfil de Cruz e Sousa, assinado por Oscar. Foi estampado também em Desterro pelo jornal A Regeneração, em 13 de fevereiro de 1887, quando o poeta já se encontrava de retorno alguns dias. O valioso documento contemporâneo nos oferece a imagem que dera de si mesmo aos riograndenses:.

"Cruz e Sousa é aquele moço tratável e delicado que os leitores sem dúvida conheceram; despediu-se de nós, não sem nos ter deixado uma lembrança de si : é o brilhante artigo sob a rubrica Instrução Pública - que sai publicado em outro lugar desta folha. Cruz e Sousa é um desses talentos hábeis criados para impor-se pelo mérito, para ser lido com a sensação e ver suas obras elevadas a um poderoso grau de valor e apreço. É o poeta de gosto e erudição, adota a moderna escola realista; seus versos são fluentes, duma cadência natural e expressiva, e filhos de florida e fácil inspiração. Dedica-se de preferência ao soneto, uma das mais exigentes combinações poéticas, de que temos alguns sublimes, escritos em linguagem que arrebata. Pode-se dele dizer que é poeta tão distinto quanto modesto; suas produções jazem no olvido e ele vive sem ambições nem cuidados, efeitos da suave harmonia que lhe vai pela alma".

Este tópico inicial do Perfil revela que o jovem catarinense era uma presença já triunfante aos 25 anos.

O artigo Instrução Pública, em Eco do Sul, foi reproduzido também por A Regeneração, de Desterro, em 16 de dezembro de 1886.

A respeito das tentativas de publicação, informa o autor do Perfil, em continuação imediata: "Devido a escassez de meios ele ainda não pôde por em circulação um só livro de versos, porque Cruz e Sousa é pobre, vive parcamente dos honorários de seu penoso trabalho. Animado dos melhores sentimentos o proprietário do Diário de Bagé. Sr. Antenor Soares, prestou-se a auxiliá-lo fazendo publicar em sua tipografia os Coleiros e Gaturamos, do inspirado poeta. Foi aberta em casa dos Srs. Viza Chaubet & Comp. uma inscrição para todos os que desejassem possuir um volume da referida obra. Não sabemos se já saíram do prelo os exemplares; é digna de encômios a ação que acaba de praticar aquele cavalheiro, que por essa forma mostra compreender o valor literário do livro de Cruz e Sousa. Ele está agora dedicando-se de corpo e alma a formar um escrínio de onde brotam pérolas de fino quilate, isto é, sonetos primorosos, como só ele o sabe fazer. Queremos falar das Baladas e Canções, dignas sucessoras do Coleiros".

Trata-se de livro de versos já anunciado na capa de Tropos e Fantasias, de 1885. Mas, ao que se sabe, não conseguiu Cruz e Sousa levar a efeito a edição de nenhum livro no Rio Grande do Sul.

Em 18 de janeiro de 1887 uma carta, de Carlos Pinto, editor de Pelotas, se escusa a João da Cruz e Sousa, delicadamente, de não poder editar seu livro (8). Não se sabe a que livro se refere.

Em vista das dificuldades de edição em livro, A Regeneração, de Desterro, que sempre lhe deu ampla cobertura, iniciou em 5 de abril de 1887, a publicação em série de Baladas e Canções. Precedeu o seguinte anúncio: "Com este título começamos hoje a publicar uma esplêndida coleção de cintilantes sonetos, do distinto poeta Cruz e Sousa".

Ano de revisão

(1887-1888).

A 5 de fevereiro de 1887 Cruz e Sousa já se encontrava de retorno à cidade de Desterro. "Acha-se entre nós, vindo do Sul, o nosso distinto conterrâneo João da Cruz e Sousa" (A Regeneração, 5-2-1887 ) .

O ano de 1887, desde fevereiro, passa-o Cruz e Sousa em Desterro até depois de meados de 1888, quando faz um novo ensaio de se estabelecer no Rio de Janeiro. Seus velhos pais ainda eram vivos. João da Cruz e Sousa tinha pessoa em vista para casar. A idéia de seguir para o Rio de Janeiro foi talvez a razão porque desistisse do intento.

Aparentemente é vazio o tempo que vai de meados de 1887 a meados de 1888 para Cruz e Sousa. Não há grandes elencos de criação sob seu nome na imprensa. Nem se sabe de livros que quisesse publicar. Uns poucos escritos, e nada mais. É o ano de revisão: Cruz e Sousa vive orientado pela intenção de se transferir para o Rio de Janeiro. Em consequência, não havia planos novos a atender em Desterro. Importava ler e estudar, conduzindo avante as lições que os contatos externos lhe haviam proporcionado. Se produzia, não o fazia com intenção de publicação imediata.

A situação geral da política induzida ao mesmo pensar, aos outros dentre os seus jovens amigos liberais. O Ministério está em mãos dos conservadores de 1885 a 1889. Na província de Santa Catarina os candidatos conservadores à deputação geral vencem em 1886. O conservador Alfredo Taunay vai mesmo a senador em 1886, afastando as pretensões do liberal João Silveira de Sousa, residente em Recife. Também os conservadores alcançam o domínio na Assembléia Provincial em 1886 e com isto o controle de todas as nomeações. Os jovens intelectuais liberais de Santa Catarina, fora do poder, se dispersam paulatinamente. E aqueles, que nada tinham, como Cruz e Sousa, outra coisa não poderiam fazer que desistir definitivamente.

Oscar Rosas se transferiu para o Rio de Janeiro em 1888, aproveitando a aposentadoria do pai João José Rosas; este, aliás, fora do partido conservador em tempos idos. Oscar estuda e se dedica à imprensa.

Juvêncio de Araújo Figueiredo, tipógrafo de A Regeneração, estará no Rio de Janeiro de 1890 a 1892.

Virgílio Várzea que deixa a promotoria de São José em 1885 e se mantém apagadamente como secretário da Capitania do Porto, de 1885 a 1890, transfere-se em fins de 1890 para o Rio de Janeiro.

José Artur Boiteux, republicano que estudara no Ateneu Provincial, cursa medicina no Rio de Janeiro de 1887 a 1889, interrompendo depois paira retornar sob o governo republicano a Santa Catarina.

Dr. Gama Rosa, demissionário da Presidência, já seguira em 1884 para o Rio de Janeiro.

Dr. Duarte Paranhos Schuttel (1837-1901) já era profissionalmente estabelecido como médico e proprietário de tipografia; não se alteraram suas condições com as diferentes crises políticas .

O liberal Silveira de Sousa, por muitos anos longe da província, fora relegado pelo Imperador na escolha da senatoria vitalícia, em favor de Taunay; não consegue religar-se a Santa Catarina, permanecendo em Recife.

Quanto ao companheiro Manoel dos Santos Lostada fora exonerado em 1886 do cargo de Promotor Público de Itajaí. Aguardando melhores tempos, retornou ao posto, em 1889, dali voltando em 1900 como deputado estadual.

Além disto, no Rio de Janeiro se haviam radicado de longa data os poetas Luiz Delfino e José Cândido de Lacerda Coutinho, além dos recentes que para lá se encaminharam.

Estas circunstâncias e as crescentes relações com outros e outros intelectuais da Corte, induzem João da Cruz e Sousa a cogitar em sua transferência para o Rio de Janeiro.

Leituras. Antes de seguir para o Rio de Janeiro, que fez Cruz e Sousa ainda em Desterro?

Lê sobre sociologia, filosofia da arte e o pensamento filosófico em geral, ao mesmo tempo que literatura. Pelo que se infere dos seus escritos, estava lendo Emílio Zola, Flaubert, A. Daudet, Guy de Maupassant, os Goncourt, H. Heine, Alphonse Kair, Theophile Gautier, enfim os franceses encontradiços então no mercado brasileiro, ou de alemães e ingleses em tradução francesa, além dos portugueses.

Escreve Biologia e Sociologia do Casamento, apreciando livro do mesmo título, do Dr. Gama Rosa, através do qual estuda a Filosofia evolucionista. A data do ensaio talvez fosse o ano de 1887. Em abril de 1887 redigiu outro estudo. Um novo livro, dedicado "ao eminente filósofo Dr. Gama Rosa", a propósito de um livro que veio então a ser publicado, Miudezas, de Virgílio Várzea. Estendem-se as preocupações de Cruz e Sousa até a Alemanha no ensaio titulado Guilherme I, elaborado em 1888 e publicado em Novidades, em 4 de fevereiro de 1892, no Rio de Janeiro.

Depois de dizer: "O Imperador Guilherme morreu, morreu o Imperador Guilherme", - se alarga em considerações sobre os grandes nomes da literatura alemã, a técnica belicosa do transcendentalismo alemão, o protestantismo livre".

Talvez agora, ou não muito depois. lê Schopenhauer, Eduard Hartmann, Edgard Poe, Baudelaire e outros, talvez já conhecendo a todos em parte.

O conteúdo ideológico, filosófico e sociológico destes trabalhos, revelam bastante leitura de livros franceses por parte de Cruz e Sousa. Alguns dos que ele cita são de elevado nível técnico como a Filosofia da Arte de H. Taine e a Estética de Eugênio Veron. Não é fácil determinar o que tenha lido do espiritualismo eclético francês, no qual em parte vinha se inspirando o simbolismo. Remonta ainda a 1887 um estudo sobre Emílio Zola (publicado em O Tempo de 3 de julho de 1891, do Rio de Janeiro).

Meio ano no Rio de Janeiro

(Junho de 1888 - inícios de 1889).

Com o fim de obter recursos para uma viagem ao Rio de Janeiro, João da Cruz e Sousa escreveu carta em 2 de abril de 1888 a um comerciante de Desterro, Germano Wendhausen, líder abolicionista.

A carta manuscrita,- que ainda hoje se pode ler no original, como a vimos no espólio de Lucas Boiteux, leva a assinatura bem lavrada de João da Cruz e Sousa. Com brevidade e fineza revela sua real situação de precariedade e consequente necessidade de ir em busca de uma oportunidade. É a única carta deste gênero, dentre as que temos visto do poeta negro. A carta é o equilíbrio da humildade e da grandeza. Honram o poeta e o comerciante que mereceu recebê-la.

Partia logo depois da abolição da escravatura (13-5-1888), quando o País entrou em debacle econômica e os empregos se tornaram difíceis. Mas apoiava-se em Oscar Rosas, o seu bom antigo, de há pouco transferido para o Rio de Janeiro e que se estabelecera em Catumbi. Enquanto não consegue emprego, reside na casa deste. E assim se manteve em vão de junho de 1888 até março de 1889, sem alcançar seu objetivo.

A frustração ocorreu, todavia, porque um incidente inesperado o obrigara a deixar a casa de Oscar Rosas, ficando desvalido e sem outra alternativa senão a de retornar à acolhedora terra natal.

As memórias de Araújo Figueiredo é que nos informam a respeito: "De ações violentas, sem ordem, sem disciplina, o Oscar quisera bater na mulher e, como o poeta interviesse, reprovando o ato, fora-lhe apontada a porta da rua. E o poeta saiu, de cabeça erguida na serenidade da justiça que acabara de fazer, sendo obrigado, porém, pela força das circunstâncias pecuniárias, a meter-se num paquete e vir cair nos braços dos antigos companheiros".

Nestor Vítor, um pouco mais distante dos episódios, não parece seguro, ainda que saibamos que tenha havido uma reconciliação entre Cruz e Sousa e Oscar Rosas, mesmo porque em parte alguma o poeta faz menção pessoal do ocorrido: "Valeu-lhe, enquanto aqui esteve, a amizade entusiástica de Oscar Rosas, que foi levá-lo a bordo, sentidíssimo de vê-lo partir, por cujos insistentes oferecimentos, de rapaz pobre, embora, o poeta abalou-se a esse primeiro ensaio de vida no Rio" (N. Vítor, Intr., p, 18).

Valeu-se de um amigo residente em Botafogo, Raul Hammann, que o ajudou a voltar para Santa Catarina, pelo Rio Apa, em 17 de março de 1889. Este bom rapaz sobrenome alemão virá a ser compadre de Cruz e Sousa mais tarde.

Sobre as dificuldades de se estabelecer no Rio de Janeiro escrevia a Virgílio Várzea, em 8 de Janeiro: "Adorado Virgílio - Estou em maré de enjôo físico e mentalmente fatigado. Fatigado de tudo: de ver e ouvir tanto burro, de escutar tanta sandice e bestialidade e de esperar sem fim por acessos na vida, que nunca chegam. Estou fatalmente condenado á vida de miséria e sordidez, passando-a numa indolência persa, bastante prejudicial à atividade do meu espírito e ao próprio organismo que fica depois amarrado para o trabalho. Não sei onde vai parar esta coisa".

Intercala uma declaração de saudade: "Estou profundamente mal, e ao mesmo tempo, longe daí.., só tenho a minha família, só tenho a ti, a tua belíssima família, o Horácio e todos os outros nobres e bons amigos, que poucos são. Só dessa linda falange de afeições me aflige estar longe e morro, morro sim de saudades".

Volta ao seu estado de dificuldades; "Não imaginas o que se tem passado por meu ser, vendo a dificuldade tremendíssima, formidável em que a vida no Rio de Janeiro. Perde-se, em vão, tempo e nada se consegue. Tudo está furado de um furo monstro. Não há por onde seguir".

Passa para uma análise, cujos termos são valiosos para a interpretação parapsicológica da poesia de Cruz e Sousa, como ariana: "Todas as portas e atalhos fechados ao caminho da vida, e, para mim, pobre artista ariano, ariano sim porque adquiri, por adoção sistemática, as qualidades altas desta grande raça, para mim que sonho com a torre de luar da graça e da ilusão, tudo vi escarnecedoramente, diabólicamente, num tom grotesco de ópera bufa".

Segue um misto de compreensão panpsiquista, pitagórica, espiritista, bem como de arrependimento e sabedoria; "Quem me mandou vir cá abaixo á terra arrastar a calceta da vida! Procurar ser elemento entre o espírito humano?! Para que? Um triste negro, odiado pelas castas cultas, batido das sociedades, mas sempre batido, cuspido de todo o lar como um leproso sinistro! Pois como! Ser artista com esta cor! Vir pela hierarquia de Eça, ou de Zola, generalizar Spencer ou Gama Rosa, ter estesia artística e verve, com esta cor? Horrível!".

Seguem-se intimidades, que revelam a delicadeza de Cruz e Sousa: "És um coração partido, acabo de saber pela tua chorosa carta. Broken Heart! Broken Heart! A tua Lilly emigrou, doce pássaro d'amor, para esta tumultuosa cidade. Hoje vou vê-la e à mãe e as flores que elas espalharam pela tua lembrança e pelo teu coração, eu farei com que cheguem ainda vivas e cheirosas junto de ti. Quero ver como essa avezinha escocesa trina de amor e saudade... Adeus! Saudades infinitas a tua encantadora família, e que eu lhe desejo bons anos de ouro e de festas alegríssimas no meio da mais soberana das satisfações. Abraços no celestial Horácio, no Araújo, no Jansen e no digno Lores da nossa Tribuna e no excelente e adorabilíssimo Bittencourt. Veste o "croisé" e vai, por minha parte, apresentar as tuas exmas. primas, pela morte do cavalheiro, do limpo homem de distinção José Feliciano Alves de Brito, Não te esqueças. Honra-me por esse modo delicado e gentil. Abraça-te terrivelmente saudoso. Cruz e Sousa".

Nestor Vítor, que muito fará pela sua glória futura, quer porque lhe recolheu os escritos, quer porque lhe escreveu a primeira biografia em 1923, viu-o agora pela primeira vez. "Foi nesse tempo que conheci, provavelmente não muito antes de sua volta para a província, porque não nos vimos então mais do que uma vez" (Introdução, 1923, p. 23)

O primeiro contato foi rápido, servindo mais para despertar o interesse de Nestor sobre Cruz, do que este sobre Nestor. "Vímo-nos é quase um modo de falar. Cruz mal se apercebeu de mim, dando-me forte Shake-Hand, mas quase que distraídamente, no café de Londres, onde Oscar, entre a balbúrdia do ambiente, ali pelas três da tarde, o apresentava a todo um grupo de rapazes como eu. Meu nome lhe soava ao ouvido, certo, pela primeira vez, enquanto que o do poeta já me era conhecido por versos de sua lavra que lera com admiração, e por informações que ainda mais curioso me deixaram em relação àquela criatura, cuja epiderme bastava para singularizá-la, até no Brasil, desde que ele se propunha a ser alguém no mundo, ao menos pelo espírito" (Nestor Vítor, Ibidem, p. 23).

Efetivamente, Cruz deixava impressão. O mesmo Nestor Vítor descreveu a sua e que terá sido a de todos os demais. A singularidade era favorável ao poeta, ainda que o prejudicasse em parte. "Havia nele talvez um nervosismo secreto ao ver-se naquele vertiginoso ambiente, nervosismo que o levava, por contradição, a esse desembaraço já quase protetorial. Sua cor de ébano, era por isso mesmo um fenômeno interessante aos olhos de quem gostasse do inédito, do imprevisto, e fosse generoso" (Ibidem, d. 24).

Também a individualidade da poesia de Cruz, já era marcante. Neste sentido Nestor Vítor cita Papoula, versos dedicados a Oscar Rosas, e Arte, estes outros publicados a primeira vez em Novidades, em 1-1-1891, no Rio de Janeiro.

Nestor Vítor estabelecerá maior contato em novembro de 1890, quando estará em Desterro. "Convivemos reiteradamente nos poucos dias de minha demora ali" (Ibidem, p. 30). "Nem assim ficamos íntimos. Ele, mais velho do que eu seis anos, não tinha mais então os fáceis entusiasmos, a porosidade intacta que permite endosmoses francas na convivência com o primeiro que nos bate à porta. Delicado, afável, generoso mesmo, já era, contudo, de prevenção bastante manifesta, tanto mais que meu chapéu alto, de uso geral naquele tempo, e que eu trazia, além disso, por andar então com pruridos de político, parece que lhe inspirou algum receio (Cruz era tímido diante dos grandes) e até certa inconfiança no meu espírito. Já um forte orgulho intelectual encouraçava intimamente aquele admirável e triste ser" (Ibidem, p, 31).

Voltamos ao Rio de Janeiro de 1888-1889 quando ali esteve Cruz, para observar como tinha sido visto: foi nesta oportunidade que Nestor ouviu, conforme já foi citado anteriormente (vd 19), como lhe tendo dado a impressão de um preto estrangeiro, moço, chegado recentemente de grandes viagens, bem posto, com uma pontinha de insolência, que achei, contudo, antes simpática do que irritante, por vir-nos não sei que prestigioso fruído, não sei que vaga eletricidade de todo o seu ser" (16, p. 23).

Grande significado tem para Cruz e Sousa esse meio ano de estada na cidade da Corte, no último ano do Império. Circulavam, então, no Rio de Janeiro, as obras dos simbolistas franceses. O Dr. Gama Rosa lhe oferta livros, entre eles os de Villiers de L'Isle Adam (precursor).

"Se Cruz e Sousa não conseguira de modo algum inserir-se desta vez na entrosagem da Corte, que era ainda então esta metrópole, foi, contudo, decisivo para a formação de seu espírito esse ano passado em tal atmosfera" (Nestor Vítor, Intr., p, 19).

"Suas leituras eram, então, naturalistas (Zola, Daudet, Flaubert, Maupassant, os Goncourt), mas também lia Heine, Gautier, Gonçalves Crespo, Guilherme de Azevedo, João Penha, Cesário Verde e Guerra Junqueiro" (A. Murici, Prefácio, 1925, p. XII).

O realismo de Cruz e Sousa chegará agora ao seu desenvolvimento pleno, ao mesmo tempo que se prenunciam sinais de tempos novos. Os temas bucólicos da Província começam a ceder lugar às grandes paisagens do espírito.

Consegue publicar poesias várias na imprensa do Rio de Janeiro, marcando, pois, sua passagem. Elas aparecem em Novidades, onde o introduzira Oscar Rosas: Doente (15-6-1888); Lirial ( 14-1-1884); Manhã (21-1-1889 ); Aspiração ( 3-4-1889 ) .

A este tempo circulavam os escritos de Medeiros e Albuquerque, que, regressando da Europa, publicava em 1887 Canções da Decadência e em 1889 Pecados, com uma "Proclamação Decadente". O pioneiro brasileiro do simbolismo não terá passado despercebido de Cruz e Sousa, atento a tudo o que se apresentava como novo (vd 102 ss.).

Último ano e meio em Santa Catarina

(1889-1890, dezembro).

Retornando em março de 1889 a Desterro, o fato é consignado tardiamente pelo semanário O Mosquito, em l1 de abril (9).

Em novembro de 1890 transitou Nestor Vítor por Desterro, agora na qualidade de político e diretor do Diário do Paraná. Dali derivou num retrato de Cruz e Sousa nas últimas semanas em sua terra natal:

"Delicado, afável, generoso mesmo, já era, contudo, de prevenção bastante manifesta, tanto mais que o meu chapéu alto, de uso geral naquela época, e que eu trazia além disso, por andar então com pruridos de político, parece que lhe inspirou algum receio e até certa inconfiança no meu espírito, Já um forte orgulho intelectual encouraçava intimamente aquele admirável e triste ser. Ainda me recebeu na redação da Tribuna Popular, que fora órgão de suas lutas, por tantos anos. No momento festejava ele, por gentileza, com bonitos versos, uma menina violinista, Giulieta Dionesi, de passagem pela futura Florianópolis. Mentalmente, porém, Cruz e Sousa já vivia meio de costas para o microcosmo a que outrora tão pura e ardentemente se havia consagrado para tanto sofrer. Ao próprio teatro voltava um fraco desdém agora. Era ele nesse instante, enfim, como um albatroz peregrinamente negro pousado num penhasco à flor das ondas, mas querendo desferir vôo para outros horizontes, e de uma vez para sempre" (Nestor Vítor, Introdução, p. 31).

Já era proclamada a República, assumindo o governo do Estado de Santa Catarina o jovem T-te engenheiro Lauro Severiano Müller. Também este praticara um pouco a poesia. Não sabemos do relacionamento de Cruz e Souza com o Governo que se instalava, e que foi de uma intensidade política imediata muito grande.

A ausência quase total de publicações de Cruz e Sousa em 1890 (ano em que ainda está em Desterro até dezembro) e a imediata profusão em 1891 (quando já se encontra no Rio de Janeiro), só é explicável como produção anteriormente acumulada. Missal, prosa impressa em 1893 no Rio de Janeiro, contém páginas bucólicas, paisagens e marinhas, que remontam certamente ao tempo da Província; já fora a opinião de Nestor Vítor (Cf. Introdução, 1923, p. 34).

Outras páginas são nitidamente novas, como por exemplo o item inicial, - Oração ao Sol, - ou a final, - Oração ao mar, - apresentando claramente o novo clima do pensamento de Cruz e Sousa. Por isso mesmo, quando se abordar diretamente seu pensamento (cap. 2), deverão ser citadas. Seu conteúdo vai superando o realismo naturalista das idéias, para alcançar um sentido monístico-panteístico ou até brahamânico. O mesmo acontece com a superação do realismo, por um verbalismo que assume o caráter livre das sugestões simbolistas. Diferentemente, Broquéis, do mesmo ano de 1893, já é todo poesia do Rio de Janeiro, com raras exceções.