Aspectos da vida do poeta

O estudo genético exaustivo da prosa e sobretudo da poesia reclama o conhecimento biográfico do autor, particularmente porque a expressão se funda na vivência dos temas e no desenvolvimento mental de quem os enuncia.

Uma divisão óbvia distingue as etapas do roteiro a ser seguido neste estudo a propósito de Cruz e Sousa, porquanto:

- há um Cruz e Sousa de Santa Catarina, que vai de seu nascimento em 1861 até 1883;
- um Cruz e Sousa de idas e vindas pelo País, de 1883 a 1890;
- um Cruz e Sousa estabelecido no Rio de Janeiro, até seu falecimento prematuro em 1898,

A primeira etapa é romântica, a segunda realista e a terceira simbolista.

O Cruz e Sousa catarinense

A vida do vate negro foi curta. Nasceu a 24 de novembro de 1861, em Desterro (como se chamava, em função sua padroeira N. Sra. do Desterro, a capital de Santa Catarina, até 1894, quando passou a ser denominada Florianópolis). Depois de muitas andanças foi, a 19 de março de 1898, falecer de doença pulmonar.

Seu registro de batismo, com o nome do santo do dia de seu nascimento - São João da Cruz, - ocorreu com a data de 4 de março de 1862 (Livro de Batizados da matriz de N. Sra. do Desterro, hoje Catedral, n.º 20, fl. 28).

Foi celebrado pelo então Arcipreste da Província e vigário da Matriz de N. Sra. do Desterro, Pe. Joaquim Gomes de Oliveira Paiva. Eis outro prendado escritor catarinense, também prematuramente falecido, em 1869, com menos de 50 anos.

Afinal, quem era o santo do seu dia de nascimento? São João da Cruz 1542-1591) fora um religioso carmelita espanhol, que se destacou como teólogo e místico. De novo afinidades com o nosso São João da Cruz e Souza, quer porque também o santo carmelita teve vida relativamente curta, quer porque fosse um místico.

Se o João da Cruz espanhol foi um santo, também o brasileiro o foi mui verdadeiramente. Acertou pois em cheio o ilustre Pe. Joaquim Gomes de Oliveira Paiva, vigário da Igreja Matriz de N. Sra. do Desterro, batizando como São João da Cruz e Sousa ao adorável pretinho da então presepial cidade capital de Santa Catarina.

As origens negras

João da Cruz e Sousa é filho dos negros GuiIherme e Carolina Eva da Conceição, africanos sem mescla. O pai, pedreiro. Ela, doméstica e lavadeira.

Porque houvessem estes formalizado um pouco depois o seu casamento diante da Igreja, foi João da Cruz registrado como filho natur.

Eis uma primeira crueldade contra João da Cruz e Sousa! Efetivamente, se de direito natural o casal é celebrante do seu casamento, os pais do poeta nascido estavam de fato casados, e ele nascia como legítimo, apesar do que a lei eclesiástica equivocadamente passou a dizer desde a Idade Média, quando os servos da gleba somente se podiam casar com a licença do Senhor, combinada logo também com a licença eclesiástica.

Guilherme, escravo nominal do então Coronel Guilherme Xavier de Sousa, depois Marechal de Campo, seria libertado em 1865, aos 4 anos do menino João da Cruz, quando o ilustre militar catarinense seguia para a Guerra do Paraguai.

Carolina, escrava de outro senhorio, já era crioula liberta, muito antes da lei do ventre livre de 1871. Por isso está errado dizer que Cruz de Sousa nascera de escravos (no plural).

Residiam Guilherme e Carolina no porão alto e amplo da casa senhorial do Coronel. Foi onde nasceram os filhos João da Cruz e Norberto.

O vistoso solar do casal Guilherme Xavier de Sousa e sua consorte Dona Clarinda Fagundes de Sousa ficava num plano ligeiramente elevado, no centro urbano, que hoje tem pela frente o grupo escolar Lauro Müller (este ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário).

A propriedade do Marechal Guilherme será de futuro conhecida como Chácara de Espanha, em vista de haver sido adquirida posteriormente pelo espanhol Garrido Portella. Uma vez revendida, foi penetrada pela rua Martinho Callado, que desce para os fundos dela.

A situação central da residência de Guilherme Xavier de Sousa permitia dali alcançar facilmente todos os pontos de interesse no perímetro urbano. Desmontada embora posteriormente sua casa, resta contudo ali o nome, perenizado que foi no nome da bem conhecida Rua Marechal Guilherme.

Por um lado, se ia à Chácara da Maçonaria, onde então, no término da rua do Ouvidor (atual rua Deodoro), se via um templo da ordem; hoje ali está apenas uma escadaria de acesso ao plano mais elevado da rua Marechal Guilherme, que corre pela frente do Grupo Escolar Lauro Müller e Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Por outro lado, ia-se para o Teatro Santa Isabel (hoje Álvaro de Carvalho) e a Praça do Palácio do Governo.

A circunstância de o casal Guilherme de Sousa e Clarinda Fagundes de Sousa não ter filhos, resultou em estender atenções maiores e muito afetivas aos meninos pretos. João da Cruz e Norberto, que, por isso mesmo, têm acesso desimpedido às dependências intimas do solar. Por muito tempo subsistiria o edifício, depois demolido, com a recordação dos tempos felizes do poeta que nascera em condições excepcionais à vista da situação dos demais meninos de sua raça negra.

Por muito tempo haveria de subsistir a descontração vivida naqueles altos do solar, ou pelas veredas da chácara bem plantada e conservada por Guilherme e Carolina Eva da Conceição, porquanto esta era a função deste afortunado casal de africanos.

A libertação que o Coronel conferira ao preto Guilherme, ainda que se possa creditá-la à bondade do ilustre cabo de guerra, pode haver-se apoiado também num sentimento de patriotismo, que então se alastrava em vista da Guerra do Paraguai. Aconselhava-se, então, aos Senhores das Províncias do Sul, que alforriassem os escravos a fim de que não fossem induzidos a fazer causa comum com os invasores, porquanto se sabia haver elementos enviados do exterior para insuflá-los.

O Marechal Guilherme, quando mais jovem, havia servido em São Paulo e na pacificação dos farroupilhas no Rio Grande do Sul. De novo serve a causa nacional, em 1851, no Uruguai, contra Oribe. Já como Tenente Coronel é comandante das Armas em Santa Catarina, sua terra natal, em 1861. Participou também da política, na qualidade de deputado à Assembléia Legislativa Provincial, como suplente convocado, 1864-1865. Marechal de Campo em 1-6-1867. No término da fase principal da luta no Paraguai, é a ele que, em Assunção, no dia 18 de Janeiro de 1869, Duque de Caxias passa o comando geral das forças.

Pouco depois retornou o Marechal Guilherme à Ilha de Santa Catarina, com a saúde abalada. Ainda um ano e faleceu a 20 de dezembro de 1870, Deixou em testamento uma parte de sua casa ao uso dos pretos que nela moravam, onde efetivamente ficaram mais algum tempo. Ao falecer, João da Cruz e Souza, que levava seu sobrenome, já era um menino de 9 anos, já sabendo ler e escrever.

Na Ilha da magia. Ao tempo da infância e adolescência, o menino João da Cruz pôde ver o mundo com relativo otimismo e preparar-se para ser o grande poeta que efetivamente chegou a ser. Estudou nas melhores escolas da capital da Província. Teve excelentes colegas. Expandiu-se por entre árvores frutíferas, com belo panorama em torno.

Aquilo tudo, que fazia o dia a dia do pretinho com jeito de elegante, era a romântica Ilha de Santa Catarina. A atual grande cidade era então ainda como um presépio de casas dispersivamente colocadas, ao longo de ruas, com aspecto mais de caminhos do que de vias urbanas.

E como eram então as praças de hoje? Ao arredor dessas praças de então havia algumas casas de comércio, mas no centro pastavam sempre alguns cavalos encilhados de compradores. Ora saíam uns, ora já vinham outros. Também carroças iam e vinham.

Era a ilha da magia, onde Cruz e Sousa fizera a sua juventude, e já declamava alguns versos, não raro com aplausos. Eis quando certamente devia estar presente o estímulo orgulhoso de Dona Clarinda Fagundes de Sousa, a viuva do Marechal. Transferira para o pretinho o seu amor de mãe.

Comparem-se estas regalias e estímulos,- que persistiram mesmo depois que o pomposo enterro levara o Marechal ao último descanso, - com os filhos dos brancos pobres, como aqueles do bairro da Toca junto do morro do Hospital de Caridade, ou da Pedreira junto do Quartel, e que não tiveram semelhantes oportunidades.

Livre desde o nascimento, João da Cruz frequenta, com participação relativa, as festas e novenas na Igreja dos Pretos, na airosa capela de Nossa Senhora do Rosário, ali perto.

Enfim, casa própria. Mais tarde, - quando Cruz já adolescente, - os pais construíram residência própria na Praia de Fora.

Era um quilômetro a partir do centro, pela rua Formosa (hoje Esteves Júnior), retilínea, embicando diretamente sobre a praia da Baia Norte. Naquele bairro prosperava uma rica colônia alemã, ostentando casas em um novo estilo, com belos jardins em torno. Tudo isto terá deixado também uma impressão indelével na admiração do poeta João da Cruz. Foi onde a música se fizera mais frequente aos seus ouvidos.

A nova residência fora possível, porque mestre Guilherme, sendo construtor de obras, arranjara recursos para tanto. O mesmo não haviam conseguido outros pretos.

Quando o poeta, nas suas perambulações futuras pelo Pais, não sentiu mais segurança, foi para ali que se recolheu. Encontrava ali sempre seus longevos pais africanos, por mais vezes que fosse e retornasse, até 1890 quando ficou definitivamente no Rio de Janeiro.

Da Praia de Fora era uma caminhada só, para alcançar o centro, ladeando pela chácara do falecido Marechal protetor, e chegar, ou ao Teatro ou à Praça, onde estava, junto ao mar da baia Sul. Muitas vezes caminhou até o mercado, em que serviu por algum tempo de Caixeiro, ou tipografia do suíço-alemão, Dr. Schuttel, onde se imprimia o jornal liberal, que acolheu muitos de seus versos.

Para Cruz e Sousa a sua cidade natal só poderia ser um encanto ao tempo da infância, da adolescência e do inicio da juventude.

Dona Clarinda Fagundes viveu até 1891, pouco tempo depois da transferência definitiva de João da Cruz para o Rio de Janeiro.

O preto Guilherme, que se dizia semelhante a João da Cruz, alcançou o ano de 1896. Reportando-se, então, ao fato, o poeta e pensador, seu filho, escreveu indagando:

"O que importa a Vida e o que importa a Morte, obscuro velhinho que tu foste, operário humilde da terra, que levantaste as torres das igrejas e o teto das casas, que fundaste os alicerces dela sobre pedra e areia como os teus únicos Sonhos?".

Via-o assim : " A tua figura paternal, que a condição ínfima das frívolas categorias sociais obumbrava profundamente na terra, tinha para mim o encanto místico de vetusto Deus d'alguma ilha abandonada... resignado, paciente, sem queixas".

Norberto aprendeu o oficio de tanoeiro, transferindo-se posteriormente para São Paulo. João da Cruz seguiu o caminho da inteligência, que lhe acenou a família do Marechal. Tentando superar as origens bárbaras, lançou-se por veredas de sofrimento em que as satisfações da estrada real do espirito contudo lhe foram numerosas. A mãe Carolina o quisera ver tanoeiro como o irmão; preferiu ao martelo do fazedor de tonéis, o pequeno metal da pena do escritor.

O riograndense do sul, Dr. Francisco Luiz da Gama Rosa (Uruguaiana, 1851, Rio de Janeiro, 1918), que viveu a década de 1860-1870 na Capital de Santa Catarina, ali cursando o Liceu Provincial e o Colégio SS. Salvador, testemunha o seguinte a respeito de Cruz e Sousa:

"Os inícios de sua formação mental derivaram de excepcionais disposições naturais e de cuidados preliminares do erudito general Guilherme Xavier de Sousa, de quem os pais de Cruz e Sousa haviam sido escravos. Era prezada "cria", educada com muito mimo, pelo general e consorte" (Gama Rosa, Sociologia e Estética, Rio, 1914, p. 278).

Depois da morte do Marechal protetor, em 1870, aos 9 anos de João da Cruz, a família dos ex-escravos continua sob as vistas generosas de Dona Clarinda, que goza de uma pensão oficial. Ocupa-se de diferentes misteres de atendimento aos moradores da cidade; Carolina em afazeres domésticos, entre outros e de fornecer alimentos (na informação de Manuel Roberto Rilla) e Guilherme em construir e rebocar paredes, levantar cumeeiras e erguer torres de igrejas.

João da Cruz tentará superar esta ordem de afazeres. Será o errante inteligente, que foge do trabalho de tanoeiro e que não gosta da função de caixeiro a que as circunstâncias o obrigaram na juventude. Prefere ser o professor particular. Ou o jornalista, que já cedo procura gratificações na tipografia do Dr. Schuttel. Melhor se sente quando consegue participar de festivais de teatro, com declamação de poesias de ocasião e, quem sabe, com alguma gratificação no balanço final das bilheterias. João da Cruz, desde menino, será diferente.

A derrota que o atingirá não se deverá à falta posterior de amigos brancos, embora estes não lhe tenham conseguido quanto merecia. O mal da doença pulmonar que o alcançará em 1897, para conduzi-lo no ano imediato à morte prematura, eis o que foi sua desgraça suprema. Houvesse podido viver mais tempo, o próprio sucesso do simbolismo, subsistindo até 1917, teria dado a Cruz e Sousa um planalto de glória

A educação do menino

A aproximação entre Dona Clarinda Fagundes de Sousa e os pretos libertos se tornara mais íntima, por força das circunstâncias, ao partir seu marido para a guerra. Portanto já muito antes que a família de Guilherme passara a ter casa própria a ação dos protetores atuou decisivamente sobre a formação de João Cruz e Sousa.

Ensinou Dona Clarinda as primeiras letras ao menino João da Cruz, à mesa de sua residência senhorial. Assim se passam os anos de 1865 e 1866, adiantando-se o pretinho precoce. A letra do poeta é caligráfica, levemente arredondada, elegante e de fácil leitura, como revelam seus manuscritos e cantos. O menino aprende a declamar. Tem o Marechal a oportunidade de ouvir seus primeiros versos quando de seu retorno da Campanha do Paraguai.

O ambiente é ótimo, até do ponto de vista cívico. É o tempo das campanhas patrióticas, da arregimentação de voluntários e dos desfiles dos que iam e depois dos que voltavam vitoriosos da guerra.

Em 1869, mal entrado nos 8 anos de idade, matricula-se o menino João da Cruz em estabelecimento público, a chamada "Escola do Velho Fagundes". Ora o Velho Fagundes é irmão de Dona Clarinda. Eis mais uma vez presente a família dos protetores de João da Cruz e Sousa em sua excelente educação.

Os resultados? "É o mais estudioso dos discípulos e um dos mais inteligentes", - declara uma professora de nome Camila (na informação colhida por Araújo de Figueiredo).

Viveu Cruz e Sousa os tempos em que se promoveu morosamente a construção do edifício do Teatro Santa Isabel (desde 1894 dito Teatro Álvaro de Carvalho). Iniciado em 1857, depois de anos viu a festa da cumeeira, finalmente a da inauguração em 1875. Já tinha João da Cruz 14 anos e se encontrava a um ano de concluir o curso no Ateneu Provincial. É este um local grandioso para a Época. Houve festivais em que ocorreram os primeiros aproveitamentos da versatilidade do menino ontem já admirado, e agora declaradamnete versátil. No teatro vieram a ser representados peças de Álvaro de Carvalho, de Horácio Nunes e de outros dramaturgos que a pequena capital viu então surgir.

O relacionamento com o teatro e a facilidade declamatória influenciarão por alguns anos a vida de João da Cruz. Serão oportunidades de expressão social. Provam também que a cor e a origem não pesaram ao ponto de lhe serem recusadas exibições de talento.

Os métodos rijos da época separavam os alunos por sexo, em escolas masculinas e femininas. Sem ter irmãs em casa e sem ter a presença de meninas na sala de aula, João da Cruz talvez cedo fosse induzido a um comportamento respeitoso para com as mulheres, que será do seu tom durante toda a vida.

A finura das evocações poéticas relacionadas com o amor tem a remota origem na educação de infância. Pela sua formação de menino, o poeta João da Cruz e Sousa é um exemplo a ser oferecido à criança brasileira.

O tempo cultural do jovem

A infra-estrutura econômica e o volume demográfico de Desterro do final da Província já permitiam a manutenção de serviços como o do ensino médio e o da imprensa. Pelo recenseamento de 1872 a capital (ou Ilha) de Santa Catarina, limitada a uma Ilha, não obstante suficiente grande para ser um município, apresentava 25.709 habitantes (de que uns 5.000 eram pardos e pretos). Uma atuante colônia alemã, instalada dentro de uma cidade lusa, desenvolvia o comércio e a indústria, bem como praticava a arte, por exemplo, a do piano.

Não obstante, por muito tempo, a cidade insular de Desterro continuará quase estacionária. Diferentemente de outras capitais, o povoamento do interior não se fazia em termos de polarização em seu torno.

O estudante Cruz e Sousa ingressou no curso médio no final de 1871, quando se reinstalava em Desterro aquele nível de ensino. Até 1876, quando encerrou o curso, aos seus 15 anos, aprendera sobretudo o português, o francês e o inglês, capacitando-o para a carreira literária que se dispôs abraçar.

Importa um retrospecto sobre o tempo cultural em que viveu o jovem Cruz e Sousa. Terão influência sobre o adolescente a política (dividida entre liberais e conservadores) e os professores do ensino médio (então inclinados para o naturalismo filosófico).

Com a entrada no Império, iniciado com a independência em 1822, a Província de Santa Catarina despertou em todos os sentidos, também no plano cultural e literário. Ainda que em pequenas medidas, formou-se uma tradição progressiva

Para o desenvolvimento ideológico-politico contribuiu a criação da Assembléia Provincial, pelo ato adicional de 12 de agosto de 1834 à Constituição Geral de 1824. Anteriormente havia apenas eleições para um Senador e um Deputado Geral (dois a começar de 1860). Criada porém a Assembléia Provincial em 1834, nova vida política se estabeleceu na Capital. As inovações caberão sobretudo aos liberais, como depois aos republicanos. Deste lado estará sempre o nosso Cruz e Sousa; esta participação será mais ideológica do que eleitoral e ativista.

O expoente político e intelectual desta fase da província é Jerônimo Coelho (1806-1860), um líder liberal atuante em Desterro desde 1831, quando fundou o primeiro jornal "O Catarinense", uma biblioteca, uma tipografia, uma loja maçônica, surgindo como primeiro secretário da Assembléia Provincial em 1835 e logo depois como deputado geral.

Dividia-se a opinião pública, conforme já adiantamos, entre dois partidos, o liberal, com liderança de Jerônimo Coelho, e o conservador, em que milita o brilhante orador Pe. Joaquim Gomes de Oliveira Paiva (que se fez conhecer como Arcipreste Paiva). É de se notar que o apelido de partido judeu atribuído aos liberais, se deve à linha mais avançada de suas idéias. O outro, o conservador, chamado cristão, era em Desterro mais representativo da classe comercial e dos clérigos (vd 42ss.).

As feições gerais dos acontecimentos, até quase a metade do século, dividem a história da província em duas fases. O mesmo acontece com o grande Império brasileiro.

A primeira fase do Império ocorreu no governo de D. Pedro I (1822-1831) e na Regência (1831-1841). É claro haver uma pequena distinção entre o reinado de D. Pedro I e o da Regência; em Santa Catarina, por exemplo, o tempo da regência foi marcado pela presença e liderança de Jerônimo Coelho, aqui vindo em 1831. Mas, em conjunto, estes dois instantes apresentam uma imagem geral, distinta, tanto no Brasil, como em Santa Catarina, da que virá após 1841, quando se deu a maioridade legal de D. Pedro II, que assumia o trono.

No plano da cultura e das letras se oferece a mesma distinção. Em Santa Catarina a preocupação dos primeiros presidentes da província se concentrou, do ponto de vista cultural, no ensino primário. Nenhuma biblioteca e nenhum jornal conseguiu estabilidade. Apenas sob D. Pedro II se encaminharão os cuidados dos presidentes para o ensino médio e a situação cultural em geral.

Na segunda fase da província ocorrem condições imediatas, verdadeiramente capazes de influir as letras. Em relação à sistemática, podem ser arroladas da seguinte maneira:

Ocorrência de presidentes, como João José Coutinho, Alfredo d'Escragnolle Taunay (também senador) e Gama Rosa que influenciaram diretamente as condições da cultura ou mesmo participaram dela como intelectuais.

A fundação do ensino médio, com os cursos do Pe. Paiva (1843) e dos colégios Jesuíticos (1844-1853 e 1865-1870), bem como do governo provincial, o Liceu Provincial (1857-1864), o Ateneu Provincial (1874-1883), Escola Normal (1882, hoje Instituto de Educação Dias Velho) e outros colégios particulares, entre eles o do Capitão Paes Leme (1871-1873) e o Colégio Conceição, do mesmo (1873-1874), o Colégio Ramos e o Colégio Franco-brasileiro de Gustavo Richard, de origem francesa e que houvera estudado em Paris.

Edições regulares de livros, desde 1853, quando se imprimia Memórias do extinto regimento de linha de Santa Catarina, de Joaquim de Almeida Coelho.

Criação da Biblioteca Pública Provincial, hoje dita Estadual, em 1854.

Desenvolvimento da Imprensa, chegando ao Diário com O Argos em 1861 (cf. n. 23ss).

Cultivo de novas artes, como desenho e pintura (lembre-se Victor Meireles), música e teatro, além da construção do edifício do Teatro Santa Isabel (depois Álvaro de Carvalho).

Este elenco de títulos põe diferença profunda entre a primeira e a segunda fase da província, quando viveu Cruz e Sousa.

No Ateneu Provincial, até dezembro de 1876. O ensino médio provincial nos ocupa especialmente agora, em vista de estarmos abordando o curso realizado por João da Cruz e Sousa.

Não teria podido realizá-lo fora da província, como outros, anteriormente. E nem conseguiria continuar os estudos em faculdades superiores de direito ou de medicina, como sucedeu a outros catarinenses mais afortunados, como João Silveira de Sousa, Luiz Delfino, Sebastião Catão Callado, Duarte Paranhos Schuttel, José Cândido de Lacerda Coutinho e José Artur Boiteux.

Fundado embora o ensino médio em 1843 pelo Pe. Paiva, e sucedido pelo colégio dos jesuítas espanhóis de 1844 a começos de 1853, foi verdadeiramente significativo do ponto de vista do desenvolvimento mental da província só o ensino oficial posterior. Este amparou mestres ligados à terra, que proporcionaram livre desenvolvimento à sua filosofia pessoal, na cultura, nas antes e sobretudo nas letras.

O Liceu provincial, que funcionou de 1857 a 1864 e de novo sob a forma de Ateneu provincial de 1874 a 1883, foi apenas interrompido por uma nova política, a dos liberais que entregava de 1865 a 1870 o ensino a jesuítas italianos. A pressão dos velhos professores e do partido da oposição conseguiu seus objetivos, voltando-se ao anterior Liceu provincial, ainda que sob nova denominação, - Ateneu provincial, em que estudou João da Cruz e Sousa.

Por último, o Ateneu Provincial será absorvido pela Escola Normal, a que os liberais darão desenvolvimento.

Similares aos estabelecimentos públicos são os colégios fundados por cidadãos ligados à tradição da cidade, como o Colégio Conceição, o Colégio Ramos e o Colégio Franco-brasileiro. A multiplicação demonstra um crescimento numérico de professores e de alunos.

Na época em que João da Cruz e Sousa devia iniciar o ciclo secundário havia problemas graves com a formulação do ensino médio na província. Poderá ter estudado em suas diferentes organizações, para finalmente concluir em dezembro de 1876, aos seus 15 anos.

Fechado tumultuadamente o Colégio SS. Salvador em março de 1870, subsistindo contudo em Mato Grosso (atual Praça Getúlio Vargas) a casa em que este Colégio e já o Liceu funcionavam, nela se estabeleceram cursos precários, de cuja evolução vai tomando novamente ânimo o ensino.

Em fins de 1871 ali funciona primário e secundário sob a direção do capitão tenente da marinha Jacinto Furtado de Mendonça Pais Leme. Em maio de 1873 se transforma a iniciativa em Colégio Conceição e finalmente em julho de 1874 tudo é convertido em oficioso Ateneu Provincial, em meio a uma jubilosa festa professores e alunos, entre os quais se presume ter estado Cruz e Souza

Pelo visto passaram de novo a ser evolutivas as perspectivas do ensino médio, pouco depois que Cruz e Sousa entrara a cursar línguas e outras matérias.

O ensino estava sob a influência inovadora da Europa e dos Estados Unidos, com referência ao naturalismo e ao evolucionismo. Este particular influencia desde cedo a mentalidade ideológica de João da Cruz e Sousa, conforme abordaremos depois (vd 132 ss.).

Elogio do Presidente da Província. São detalhes do perfil escolar de Cruz e Sousa, aos seus treze anos, em dezembro de 1874, aprovado em português, em francês (2º ano), em inglês (1.º- ano). De outra parte, considerando que o Ateneu Provincial abrira as aulas em julho, estando agora apenas com meio ano de atividade escolar, devem as disciplinas como português e francês ter sido estudadas em cursos existentes anteriormente.

Em 1875 é também aprovado em português, francês e inglês, ocorrendo então um elogio do Presidente da Província, que assistira ao exame como membro de banca e tivera oportunidade de admirar os conhecimentos de Cruz e Sousa.

Com dezesseis anos encerra o curso secundário em dezembro de 1876. Obtinha, então aprovação em inglês (3º. ano) e geografia ( 1º ano). Deixa de prestar exame de matemática, por não ter sido ministrado o programa.

Presença de Fritz Müller. Era o professor de matemática o eminente Fritz Müller, que já o fora ao tempo do Liceu (1857-1864). Ao abrir o Ateneu Provincial em julho de 1874 inscreveram-se 46 alunos para este curso.

Fritz Müller, que desde o fechamento em 1864 do Liceu Provincial se encontrava em Blumenau exercendo experiências de aclimatação de plantas, continuando com o seu anterior ordenado de professor, é agora convocado a retomar a cadeira do Ateneu Provincial, sob pena de perder a subvenção de cinquenta mil réis que lhe era dada. Deixando sua família, veio para a capital, retornando todavia em outubro de 1874, do mesmo ano, em face de uma licença alcançada. A partir de julho de 1875 não lhe foi pago o vencimento, vindo de novo em novembro para a capital. Depois de curto tempo é incumbido de acompanhar um naturalista francês e outro do Museu Nacional no estudo dos sambaquis. Em 1876 é nomeado naturalista viajante do referido Museu Nacional (2).

Assim aconteceu que o magistério de Fritz Müller não é contínuo e não se sabe quanto pudera ter sido professor de João da Cruz e Sousa.

Além desta possibilidade escolar de haver sido discípulo do grande mestre a partir de julho de 1874 até outubro, mais uma vez em fins de 1875 e talvez ainda em inícios de 1876, só temos a afirmação direta de Virgílio Várzea, aluno do Ateneu em 1876 e 1877:

"Nascido sob os tetos aristocráticos e opulentos, severos e disciplinares do lar de um notável soldado do Império, o Marechal Guilherme Xavier de Sousa, de quem tomara o nome de família, recebera primorosa educação, boa instrução primária e fizera com brilho o curso de humanidades no Ateneu Provincial, onde o insigne naturalista Fritz Müller, sábio de reputação universal, colaborador e amigo íntimo de Darwin e Haeckel, regendo ali cadeiras de matemáticas e ciências naturais, encantado pelas suas qualidades, aplicação e talento, lhe chamava afetuosa e carinhosamente o seu "discípulo amado" (V. Várzea, Impressões da. Província, 1907).

Não tem consistência a atribuição, que por algum tempo se fez, dos termos de uma carta de Fritz Müller, de 30 de maio de 1860 (citada por Roquete Pinto como sendo de 1876) com referência a Cruz e Sousa, então ainda não nascido.

Aquela carta, como se encontra nas obras completas de Fritz Müller, declara: "Entre os meus discípulos deste ano o melhor é um preto de puro sangue africano". A seguir exalta as qualidades da raça negra, apoiado naquele personagem, que hoje não sabemos quem fosse.

O trânsito do pensamento de Fritz Müller (1822-1891) para Cruz e Sousa (1861-1898) se fará através de Gama Rosa (1852-1918), o qual no Ateneu, fora discípulo do sábio imigrante de 1862 a 1864. Encaminhando-se para o curso superior de Medicina do Rio de Janeiro, tinha melhores condições para assimilar o monismo evolucionista. Quando João da Cruz e Sousa, já como autodidata, se ocupa do problema, serão os contatos com os escritos de Gama Rosa e outros que o iniciarão no assunto. Sem dúvida que a imagem de Fritz Müller ele a terá na mente, junto com as de Darwin e Haeckel.

O referido trânsito de pensamento também se deve ao professor de francês do Ateneu, o inteligente autodidata João José de Rosas Ribeiro, pai de Oscar Rosas, com os quais convive muito de perto Cruz e Sousa.

O pensamento religioso, com alguns detalhes tecnicistas, é possível que lhe tenha vindo do orientalista Pe. Mendes de Almeida, professor do Ateneu e por último seu diretor.

Ao tempo de Cruz e Sousa a Província de Santa Catarina era um Arciprestado, como subdivisão do bispado do Rio de Janeiro. Emprestava o Arcipreste alguma pomposidade ao cerimonial religioso da cidade do poeta negro que utilizou o instrumental dos ritos católicos como recurso estético.

Como eco dos seus estudos, João da Cruz tentou o magistério particular em 1877, logo no ano seguinte ao término de seu curso no Ateneu Provincial. Não restam noticias claras sobre este episódio e o tempo em que nele atuou. Talvez fosse apenas como preparador dos menos capazes, em lições particulares (vd 19). Ainda muito jovem para uma função maior.

Suas habilidades o libertam dos ofícios que atendiam pelo esforço físico. Sabe-se que em 1881 era empregado modesto de um comerciante estabelecido no Mercado Público, que então ficava a um canto da Praça Central, junto do cais, onde atracavam as canoas dos feirantes.

Foi Araújo de Figueiredo quem transmitiu a informação, com o detalhe: "... da casa comercial do Camilo, vendedor de charque de Montevidéu, num dos compartimentos do mercado, da qual era ele, o Cruz e Sousa, caixeiro cobrador e mesmo de balcão, em 1881".

Noutro passe de suas memórias, diz mais sobre o jovem Cruz e Sousa; "era caixeiro a contragosto, unicamente para não andar sem trabalho numa cidade pequena e muito cheia de preocupações banais com a vida da gente, naquele tempo de preconceitos".

Ainda em fins de 1881, aos seus 20 anos, passará ao emprego de "ponto" de uma Companhia Teatral (vd 29).

Em decorrência de seus pendores conduz seus estudos como autodidata, apreciando os livros e os jornais, especialmente a conversação com pessoas eruditas e atualizadas com os últimos movimentos estéticos da literatura.

Neste sentido o melhor e o mais antigo testemunho é do Dr. Gama Rosa: "Cruz e Sousa era um negro de pequena estatura, com feições e organismo delicados, vibrando incessantemente ao sopro de infinitas agitações.

A sua preocupação exclusiva concretizava-se na estética, mantendo absoluto desdém e hostilidade contra todas as reputações literárias do nosso pais.

Esse absorvente sentimento atingia a paixão e ao rancor, não tanto por sugestões de rivalidade, mas por espontânea incompatibilidade e intransigência artísticas.

A sua elocução fácil e exaltada, em palavras ríspidas e sibilantes, passava os dois a praticar derrocadas na estética nacional".

Ligou-se Cruz e Sousa definitivamente a um grupo de jovens literatos catarinenses que, na capital, procuravam fazer prevalecer as teorias darwinianistas, os processos do realismo e as impetuosas composições poéticas de Guerra Junqueira, todas as manifestações, em suma, da escola moderna.

Faziam parte desse grupo Virgílio Várzea, Santos Lostada, Araújo Figueiredo, Horácio de Carvalho, com ramificações na cidade do Rio de Janeiro, representadas em Luiz Delfino e Oscar Rosas.

Sob a ação, intensa e entusiasta, desse ambiente intelectual, foi constituída a personalidade de Cruz e Sousa.

O poeta dos Broquéis jamais foi inclinado a leituras persistentes, contentando-se com explanações verbais dos companheiros, apreendendo-as com maravilhosa intuição. Conclui, então, Gama Rosa, com esta importante observação referente ao nível temático (vd 156) :

"Esse fato, sem dúvida, prejudicou a erudição de Cruz e Sousa, revelada em superficialidades e incertezas, não tanto em poesia, amparada pelo ritmo musical, mas em externações de prosa, desprovidas parcialmente de concatenação e coerência" (Gama Rosa, Sociologia e Estética, 1914, p . 278-279 ).

A observação firme de Gama Rosa é certamente verdadeira. Faltou a Cruz e Sousa a oportunidade de um curso superior e principalmente lhe faltou a longa vida. Como não tivesse conseguido nem o curso superior e nem a longa vida, sua temática, de uma admirável filosofia de vida, não atingiu tão altos níveis, quanto o seu sucesso meramente formal na expressão simbolista. Profundo por vezes, não o foi muitas vezes, pairando embora sempre seguro no instrumental poético.

Retrato físico e social

Como menino, Cruz e Sousa foi tímido. Como jovem, algum tanto introspectivo e preocupado com o aspecto exterior de sua pessoa.

Gama Rosa, que o conheceu na qualidade de mais velho, o descreveu como "um negro de pequena estatura, com feições e organismo delicados", conforme já citamos.

Araújo Figueiredo é bastante meticuloso em suas memórias ao referir-se àquele preto inteligente: "Não tinha o cabelo de todo encarapinhado e repulsivo, antes um pouco aveludado, macio; nem o seu bigode era áspero como o de quase todo negro. Usava a barba seguidamente escanhoada, aparecendo-lhe as faces e o queixo sempre lisos, sem nenhuma protuberância, Nunca saía à rua sem os sapatos completamente lustrosos, preferindo gastar com eles o último dinheiro que tivesse, embora lhe faltasse para o café, o qual ele, no entanto, saboreava muitas vezes ao dia, bebendo-os aos tragos, como se bebem licores. Sem os sapatos lustrosos, dizia ele, fugiam-lhe as idéias e a sua vida tornava-se como a de um pavão, dessa ave simbolizadora da vaidade sobre um monturo de misérias e decepções. Preferia andar só do que com pessoas com que a sua alma não vibrasse nas mesmas percepções das coisas da vida".

A bengala e o chapéu tinham importância para sua personalidade conforme também descreve Araújo Figueiredo: "E a sua bengala predileta representava a cabeça de um gravoche; bengala que ele fincava no chão a cada passo que dava, com o corpo aprumado, sempre ritmado. E ele muito ria quando eu lhe dizia ser cada uma de suas passadas uma rima de ouro, pois na verdade o seu andar parecia cadenciado como uma rima junta de outra rima. Sempre usou chapéu duro, para melhor cumprimentar, com riscos violentos, da esquerda para a direita, as pessoas amigas e conhecidos, e nas apresentações balofas e ao encontro da burrice presumida, o seu chapéu, no entanto, era apenas pegado de leve, pela aba, e não tinha senão uma saudação muito fria, muito fria". Complementa sobre o seu caráter: "Nunca encontrei-o disposto a rebater insultos, menos diante de um vilão que a nossa terra adora e aqui espera criar um monumento... Nesse dia, vi-o eu capaz de lançar à cara desse vilão o seu belo gravoche de Peroba. Afastei-o, meti-me entre os dois". Esta mansidão, aliás, lhe era própria como filho da raça africana.

Virgílio Várzea, um pouco mais novo que Cruz e Sousa, tendo nascido no interior da Ilha de S. Catarina, em Canasvieiras, veio conhecê-lo em 1876 e 1877 ao freqüentar os colégios de Desterro e nos muitos contatos posteriores. Saindo a viajar, encontra-se de volta em 1881. Deste tempo deve ser o perfil em que retrata o jovem Cruz e Sousa:

"Era um crioulo de compleição magra e estatura meã. Não obstante, tinha o rosto cheio e oval, de traços delicados e de um conjunto atraente, simpático. Nos seus olhos, grandes e bonitos, havia um forte brilho intelectual e uma vaga expressão de tristeza e humildade" (Correio da Manhã, de 10-3-1907).

Vendo-o ainda como professor, continua Virgílio:

"De um talhe espiègle e elegante, muito preocupado com a sua pessoa, Cruz, como os pais não precisassem do seu auxilio para viver, gastava tudo o que ganhava nas lições particulares que tinha, em trajes variados, finos e bem feitos, pelo que andava sempre muito asseado e bem vestido, despertando ainda, por esse lado, maiores odiosidades e invejas. Tinha uns dentes belíssimos e alvos, fazendo, quando sorria, uma pequenina lua de opala, a sua boca negra escarlate, onde bailava uma ironia casquilhante e perene".

Nestor Vítor, que com ele entrou em contato no ano de 1890, transmite uma observação similar, destacando o aspecto mais respeitoso que o homenzinho foi assumindo ao ingressar na maturidade dos trinta, quando o conheceu. Fora esse caráter a razão porque investigou sobre o seu passado:

"Contam que ainda adolescente Cruz e Sousa tinha às vezes, lá na província, em horas de abstração e sem dúvida de pressentimento de seu valor, andando sozinho, um ar em que havia qualquer coisa de solene, de principesco, já como depois aqui no Rio tantos ainda hoje se lembram de tê-lo visto, caminhando, sem pensar, sem querer" (N. Vítor, Intr. 1923, p. 17).

Mais adiante, o mesmo Nestor Vítor, já do ponto de vista psicológico : "Deu-me a impressão de um preto estrangeiro, moço, chegado recentemente de grandes viagens, bem posto, com uma pontazinha de insolência, que achei, contudo, antes simpático do que irritante, por vir-nos não sei que prestigioso fluído, não sei que vaga eletricidade de todo o seu ser" (ib. p. 17).

"Parecia-se muito fisicamente e moralmente com o pai, que, na sua cor, era um honrado mestre pedreiro, segundo ainda informações de Virgílio Várzea, colhidas por Tibúrcio (Freitas). Ele e outros amigos de Cruz, boamente, por naturalismo, chamavam ao velho o homem de Darwin" (ib., p. l0)

Frota Aguiar (1875-1951), um estudioso do fenômeno simbolista, compara Cruz e Nestor:

"Eles dois eram o centro de um círculo de artistas, amadores e esnobes, que a tarde rondavam, vagarosos e paradores, por pontos prediletos, certos cafés, certas redações, certas esquinas, discutindo arte, os dois pontificando de comum acordo, na mais completa harmonia e os mais abeberando-se e arriscando de quando em quando uns apartes complementares. Cruz e Sousa, meio corcunda, com uma estudada serenidade na face de ébano, a mover os olhos vivos, dizendo as coisas com uma loquacidade nervosa truncando as frases, dizendo-as aos borbotões, grifando-as, comentando-as com a expressão inteligente de olhar, com a gesticulação vivaz e uns sorrisos amargos e baços; e Nestor Vítor, lívido e forte, pairando com estridor, às grandes gargalhadas sonoras, cabeça desajeitadamente inclinada, seu piscar d'olhos, um trejeito gracioso e cômico nos lábios finos, a criar frases ferinas, contra os burgueses e os medíocres, imagens grotescas e ridículas" (em Gazeta de Passos, Sul de Minas, 18-7-1899).

Outros e outros lhe descreveram o tipo geral de "homem negro, de estatura regular, olhos cismadores, feições doces, voz timbrada sobre o forte, palavra fácil, quente, vibrátil" (Gustavo Santiago, n. 1872).

A isto se acrescenta uma informação de Gonzaga Duque (1863-1911), numa colocação de negro para negro:

"Assim, de quando em quando, ele me aparecia nervoso, todo trejeitos na figurinha franzina; o duro queixo rapado em arremesso carniceiro de destruir; a boca, sob o bigode lanígero, em repuxado de ódio e aflição; largas narinas palpitas no afilado mestiço do nariz; os olhinhos fulgurantes a queixar-se que fugira da Repartição porque o chefe, que era mulato, o perseguia e hostilizava,

- É que eu lhe recordo a origem - dizia-me tenho talvez a cor da mãe ... e ele, que quer ser moreno à força, esbarra-se comigo, vê-me como a afirmação tremenda do seu passado, sou o espectro recordativo da macumba que o despejou no mundo!

Era devido a isso que o seu tipo tomou o feitio retraído, melhor caracterizando-o esconso, que lhe dava à exterioridade o que quer que fosse de arisco e agressivo ao mesmo tempo, pondo-lhe fulgores de sátira nos olhozinhos rebuscadores e arrepanhando-lhe a comissura dos lábios, à direita, num vinco de motejo em permanente ameaça. Esse exterior prejudicou-lhe muitas vezes" (publicado em 1909, reproduzido em Careta 30-1-1960).

Fotografias e retratos. A mais antiga fotografia do poeta é de março de 1883, aos seus 21 anos, época de sua viagem do Sul ao Norte do País. A seguinte é de 1884 e foi inicialmente mais difundida, constando na edição de suas Obras Completas, de 1923. Outro retrato o mostra aos 26 anos, ao lado de Oscar Rosas, de corpo inteiro, de 1887, quando já pensavam estabelecer-se definitivamente no Rio de Janeiro.

Finalmente, há uma fotografia, que foi reproduzida na edição do centenário, em que se encontra acompanhado de Virgílio Várzea e Horácio de Carvalho, todos a rigor e com muito charme, de colete, cartola e bengala. Ele e a figura do centro e mais bem composta, com menos superficialidade, olhar levemente orientado para o alto e o infinito, feito o homem diferente entre os seus, ainda que discretamente, por obra do talento e da elevação poética.

Com referência à primeiríssima fotografia de 1883, apresenta bigode sobre os lábios não muito cheios; o rosto exibe ainda o contorno bem nutrido dos jovens, como posteriormente Cruz não mais terá; o cabelo é pouco exuberante.

Também o retrataram pintores contemporâneos, devendo-se citar com destaque Maurício Jubim autor de "Cruz e Sousa morto", Cidade do Rio (20-3-1898), o retrato na edição de Evocações (1898), outro na revista Rosa Cruz (1901) (3).

De Pedra a Gavita. O poeta namorou cedo. A luta pelo sucesso que demorava, teria sido a razão porque só fosse casar aos quase 32 anos, em 9 de novembro de 1893, em circunstâncias muito diferentes, no Rio de Janeiro, com Gavita.

Dos tempos românticos do jovem Cruz e Sousa, conforme referência que nos deixou Araújo Figueiredo, a namorada fora Pedra. Era "uma rapariga de sua cor, que morava num recanto da Ilha, numa casa de pau a pique". . . "no caminho abaixo do cemitério público, perto da fortaleza de Santa Ana".

Hoje ainda ali está a fortaleza de Santa Ana, sendo que no alto se projeta a ponte pênsil Hercílio Luz, demandando o Continente. Já não se encontra o cemitério e já deixou o local de ser um recanto fora da cidade, onde nos tempos de Cruz e Sousa havia apenas um caminho, ao longo do qual se erguiam casas pobres, uma ou outra de negros. Não continua mais assim.

Mas aquele lugar, tantas vezes apreciado por Cruz e Sousa, era, como ainda hoje, um dos recantos mais pitorescos, floridos e arborizados, dignos de por ele transitar um poeta de sua estirpe. Terá lido ali Álvares de Azevedo e Castro Alves. Imitando aqueles vates, também Cruz e Sousa versejou para a namorada da Ilha:

"Amor, meu anjo, é a sagrada chama

Que o peito inflama na voraz paixão
Amo-te muito, eu t'o juro ainda,
Deidade fiada que não tem senão!"

Um prenúncio do futuro... pois no Rio de Janeiro também encontrará junto ao caminho do cemitério sua namorada e igualmente lá ela seria uma preta. A fidelidade à raça também aqui principia sua manifestação, porquanto os iguais se gostam.

A uma observação de Araújo Figueiredo, - "Por que não procuras uma rapariga pelo menos cor de jambo, para aperfeiçoares a raça?", respondeu, - "'Para que ela, julgando-se quase branca, não me chame maliciosamente de negro!"

Boemia e primeiros ensaios na imprensa

Há uma relação entre a boêmia e a literatura dos jovens. Finalmente, o resultado vai para a imprensa, como necessidade de expressão e luta inovadora. Mal saído dos bancos escolares e com os primeiros ensaios no magistério, a aventura na imprensa era mais um passo a ser dado por Cruz e Sousa e que tinha então o seu momento certo como aspirante a uma posição nas letras.

Os esforços juvenis do preto de 18 anos se solidificam ao começar 1879. É de então que se arrolam as primeiras produções de que chegaram notícias concretas até nós. Ainda que de índole principiante, elas merecem ser arroladas, como logo adiante faremos, em item sobre tais ensaios.

São colegas de primeira boêmia literária de Cruz e Sousa os moços de sua idade: Virgílio Várzea, Santos Lostada, Juvêncio de Araújo Figueiredo, Horácio de Carvalho, Carlos de Faria, Oscar Rosas e José Artur Boiteux, vários deles lembrados numa citação de Gama Rosa.

Virgílio Várzea (1863-1941). Dois anos mais jovem que Cruz e Sousa, viera de Canasvieiras, Norte da Ilha de Santa Catarina. Conforme já adiantamos, estudara em Desterro em 1876 e 1877, formando-se no Ateneu Provincial um ano depois de Cruz e Sousa. Filho de um aventureiro português fugido do seminário, meteu-se também ele logo em aventuras marítimas, para estar de retorno à Província em 1881, onde permaneceu até 1890.

Neste espaço de tempo exerceu uma atividade bastante relacionada com João da Cruz e Sousa. Favoreceu a este quanto pôde nas funções que exerceu como Oficial de Gabinete do Presidente da Província, Dr. Gama Rosa, como Promotor Público de São José (1884-1885) e como Secretário da Capitania do Porto (1885-1890). Finalmente, no Rio de Janeiro, encaminha um emprego para Cruz e Sousa, que logo também se traslada.

É o companheiro de boêmia literária, dos mais íntimos, com quem edita em co-autoria, em 1885, Tropos e Fantasias. O mesmo Virgílio Várzea terá uma carreira literária relativamente brilhante, com algumas tentativas de ingresso na Academia Brasileira de Letras. Editará Julieta dos Santos (1882), Traços azuis (1884, versos), Rase Castle (1895, novela), Mares e Campos. (1891, contos), etc. ... Mas, não acompanhará João da Cruz, quando este se encaminhar para o simbolismo.

Manoel dos Santos Lostada (1860-1923). Depois de vir de Enseada de Brito, no Continente, e ser empregado no comércio, ao mesmo tempo que jornalista, chegará a Oficial de Gabinete do Presidente Dr. Gama Rosa. Promotor público em Itajaí, logo a seguir. Mais tarde deputado estadual. Poeta. Adere ao espiritismo.

Relacionado sempre com Cruz e Sousa, ocupar-se-á dos interesses deste em Santa Catarina quando da doença a morte do mesmo em 1898 (vd 83).

Juvêncio de Araújo Figueiredo (1864-1927). Também espírita, foi muito apreciado pelas suas qualidades humanas, venerado como se fosse um santo. Tipógrafo do jornal liberal A Regeneração, onde também publicou cedo seus versos, tal como Lostada e Cruz e Sousa. Nascido na Ilha de Santa Catarina, estabeleceu-se em Coqueiros, no Continente fronteiriço. Instavelmente passou a rumos diversos. Quando no Rio de Janeiro, hospedou a Cruz e Sousa em 1890, quando este então para ali também se trasladava.

Mas Araújo Figueiredo retorna, como promotor público de Tubarão e depois professor em Laguna, para finalmente voltar a Coqueiros, ali exercendo a mediunidade e a caridade. Autor de Madrigais (1888), Versos antigos (datados de 1889), Ascetério. Deixará inédito No caminho do Destino, memórias em que se encontram elementos biográficos de Cruz e Sousa (cf. n. 5).

No prefácio de Ascetério lemos um particular interessantíssimo: "Araújo Figueiredo foi o companheiro amigo e o irmão predileto do genial Cruz e Sousa, esse rebelde augusto que as ironias da vida despedaçaram sem poder dar-lhe morte" (Monsenhor Manfredo Leite). O testemunho de Manfredo Leite, nascido em 1876, em Desterro, membro da Academia Paulista de Letras, tem a validade de sua antiguidade e pela convivência tida com Araújo Figueiredo, o bom espírita, venerado como santo pelo povo; Manfredo estudava no Rio de Janeiro ao tempo quando Cruz e Sousa ali vivia, podendo já então ter conhecido sua obra publicada.

Oscar Rosas Ribeiro (1862-1925). Em Desterro foi amigo e condiscípulo de Cruz e Sousa. Transferindo-se para o Rio de Janeiro ao aposentar-se o seu pai em 1888, insistiu naquele ano que João da Cruz fizesse o mesmo.

Como saberemos depois ... uma desinteligência, que o impediu de ficar hospedado com o amigo, fê-lo retornar em princípios de 1889. Não obstante Oscar Rosas, como secretário de Novidades, lhe facilitará publicar nesse jornal.

Carlos Faria (c. 1865-1899), autor de poesias bucólicas, é o companheiro de Cruz e Sousa no movimento abolicionista pela imprensa.

Todos inicialmente românticos, tendo a preocupação da última novidade, serão os pioneiros do realismo. Tão logo desponte o simbolismo, com exceção de Virgílio Várzea, também se baterão pelo novo ideal artístico.

Imprensa Liberal. Cruz e Sousa escreve para a imprensa liberal, porque esta estava melhor relacionada com as idéias renovadoras, abolicionistas, republicanas, de liberdade política e religiosa, de conceitos artísticos avançados, filosofia naturalista, evolucionista, monista, panteísta. Além disto, estava ele mesmo no contexto do partido liberal.

Não obstante, quase por exceção, o órgão conservador, - O Despertador, - de 18-8-1883, estampava um soneto remetido de Santos, onde então se encontrava o poeta em trânsito.

A imprensa liberal tem raiz no primeiro jornal da Província, - O Catarinense, fundado em 1831 por Jerônimo Coelho (1806-1860). Este liberal e ministro do Império foi a maior expressão política de S. Catarina ao tempo da Monarquia. A estabilização da imprensa catarinense ocorre apenas na segunda fase do Império. Tendo nos objetivos políticos seu principal apoio, era claro que houvesse um jornal liberal e outro conservador. Mesmo com mudança dos empresários, os novos que surgissem manteriam a dialética dos dois contrários. E assim também as duas tipografias mais poderosas se transferiam de dono para dono, mantendo a dupla origem.

O Conciliador, liberal, aparece em 1849, às quartas feiras e aos sábados.

Novo íris dá início em 1850 à imprensa conservadora; em 1852 passa a denominar-se simplesmente O Conservador.

Controlado pelo jornalista baiano aqui estabelecido, José Joaquim Lopes, O Conservador é conduzido finalmente a diário, sob o título de O Argos, em 1861, exatamente quando nascia João da Cruz e Sousa e o partido conservador se encontrava no poder.

A imprensa liberal teve variadas manifestações e transformações nessa segunda fase do império, com destaque: Cruzeiro do Sul (1858), de Ribeiro Marques, e O Mercantil (1860) sucessivamente sob a direção de Raposo de Almeida, Joaquim do Livramento, Ribeiro Marques, José Elisiário Quintanilha, todos liberais. Com referência a Quintanilha, era um festejado poeta romântico.

No final da Província, no tempo jovem de Cruz e Sousa, os órgãos mais representativos da imprensa eram:

O Despertador, conservador, que vinha desde 1863 e alcançava o ano de 1885;

A Regeneração, liberal, que, remontando a 1868, alcançará a transição do Império para a República;

Jornal do Comércio, de José Joaquim Cascaes, que, em vista de sua neutralidade relativa, pôde manter-se de 1880, quando nasceu, até 1894.

Terminados os distúrbios da revolução federalista (1893-1894), Santa Catarina ingressa em um novo tempo não só jornalístico, como também político.

Por entre os jornais dominantes, surgem as folhas efêmeras e por vezes fortemente inspirados em ideais superiores.

Tal é a fisionomia deste jornal que levou o titulo sugestivo de COLOMBO, impresso de 7 de maio de 1881 a 24 de setembro do mesmo ano, fundado e redigido por Virgílio Várzea, que mal houvera retornado de uma viagem de aventuras, e por João da Cruz e Sousa, que ainda não houvera completado seus vinte anos e era caixeiro de um comerciante do Mercado Público. Impresso tipograficamente, o semanário representa um documentário de jovens escritores que estavam para deslanchar, não obstante o estilo inicial balofo e canhestro. Cruz e Sousa é o principal produtor, como se pode verificar diretamente nos poucos exemplares que ainda restam na Biblioteca Nacional e na Biblioteca Central da Universidade Federal de S. Catarina.

O esperançoso negro já tem uma doutrina com vistas à função do jornal: "Como a imprensa é a principal mensageira de feitos notáveis, a precursora do progresso, onde sair fora do limite espedaçai seus prelos, onde ensinar, onde mostrar o verdadeiro caminho aos cegos de nascença, erigi panteão, cujo pedestal, cuja base seja a igualdade e cujo coruchéu seja a união".

Ainda sem clareza com o gênero literário a seguir, iniciou Cruz e Sousa uma novela, como se vê no exemplar de Colombo de 14 de maio de 1881.Começou sob o título: "Margarida, cap. 1º - Sorrisos e lágrimas de Margarida". A mesma tentativa fará no teatro, do qual se ocupa neste tempo e em longa viagem percorrerá todo o país. Deixará de futuro, um e outro desses gêneros de ficção.

O elan dos literatos estreantes é Castro Alves (vd 93). O verso romântico tivera em Desterro um representante de merecimento, falecido prematuramente em 1877, cujos Lírios e Rosas mantinham aceso o seu espírito, o sempre festejado Quintanilha. E assim também é mantida a memória viva de Castro Alves por todos os poetas jovens de Santa Catarina, que lhe dedicam, no décimo ano de seu falecimento, a edição de 7 de julho de 1881.

Neste número de Colombo comemorativo de Castro Alves é visível a liderança de Cruz e Sousa, além da de Sílvio Pélico de Freitas Noronha, Dr. Sinfrônio e Henrique Boiteux, que também assinam produções. Lê-se ainda: "Propriedade de Manuel Lostada, João da Cruz e Virgílio Várzea".

Cessa de circular o Colombo ao iniciarem as viagens de Cruz e Sousa como ponto de Companhias teatrais. Depois a boêmia literária terá sua continuidade com o Moleque e a Folha Popular (vd 47), quando estes jovens entram a propugnar o realismo e o naturalismo sob o título de Idéia Nova (vd 44).

Advertimos ainda para a presença do nome de Henrique Boiteux no Jornal Colombo na edição comemorativa de 7 de julho de 1881. Em 17 de setembro de 1880 dedicará Cruz e Sousa versos a José Artur Boiteux. Trata-se dos irmãos Boiteux, republicanos e positivistas, além de literatos historiadores, que por longo tempo participam da vida intelectual catarinense, no Estado e no Rio de Janeiro, dedicados depois também na permanência da memória de Cruz e Sousa.

Descendem do imigrante suiço-francês, Cel. Boiteux pela seguinte ordem: Henrique Boiteux (1863- 1847), militar; José Boiteux (1865-1934), jurista e político; Lucas Boiteux (1881-1947), militar e o historiador mais representativo.

Primeiros ensaios poéticos

Às primeiras manifestações da poesia espontânea dos anos escolares se seguiram as criações que mereceram acolhida nos palcos e órgãos da imprensa da cidade. Essas primeiras manifestações do espírito privilegiado de Cruz e Sousa datam de 1879 a 1880, aos 18 e 19 anos do poeta. Ainda que deficientes e bajulatórias, são prenúncio do que virá sempre melhor. As mais antigas que se conhecem foram conservadas nos raros exemplares de O Artista, da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (Cf. R. Magalhães Júnior, Poesia e Vida de Cruz e Sousa, 2 p. 13, nota 1).

Quadra do Soneto de 11-7-1879, dedicado a M. Bernardino A. Varela:

"Probo Pai, bom cidadão.
Sois dos seres melhor ser.
Por saber profundo ter,
Sois ilustre qual Catão".
Já são melhores os tercetos de um Soneto:

"Só eu triste padeço feras dores.
Imensas e de fel, sem terem fim,
Envolto no véu dos dissabores,
Oh! Cristo eu não sei se só a mim
Destes essa vida de amargores,
Pois que é demais sofrer-se assim!"

O conteúdo é evidentemente raciocinativo e pouco evocativo. Com referência a Bernardino Varela, com o qual se relaciona João da Cruz e Sousa, ela representa uma informação representativa, Este "probo pai e bom cidadão" está ligado a diferentes manifestações culturais e educacionais da Capital, desde os tempos do Padre Joaquim Gomes de Oliveira Paiva, de quem por exemplo retranscreveu o discurso de fundação de ensino médio em 1843 e o conservou para a posteridade.

Em 1880 o poeta transita de sua fase de versos soltos para o cuidado da versificação estudada. Essa transição encontra prova em uma notícia publicada em A República, de 19 de março de 1902, de Florianópolis. O articulista, que recorda o aniversário da morte de Cruz e Sousa, lembra fatos por ele presenciados, destacando a súbita elevação do poeta. Assinando apenas por G., diz, entre várias recordações :

"Outro fato que também não devemos esquecer, a 8 de setembro de 1880, por ocasião da instalação da Sociedade Beneficente dos Artistas, de cuja idéia fomos o iniciador, foi que pela primeira vez Cruz e Sousa revelou-se distinto poeta em versos soltos, sendo nós o alvo de sua sublime inspiração, nos ofertando uma coroa de belíssimas flores".

Pouco adiante: "No entretanto, parece crível, que ele nunca tenha ouvido falar em metrificação, e por isso prometeu-nos que não deixaria de conhecê-la".

Não obstante, a forma não alcança primor e nem o tema deixa de ser ocasional na maior parte das vezes. Continua nítido o relacionamento com a sociedade local e até com o teatro. A seguinte dedicatória ao Soneto de 24.12-1880 (publicado em A Regeneração de 15-1-1882) é ilustrativa: "oferecido ao distinto e modesto músico catarinense, o Ilmo. Sr, José Brasílico de Sousa, como prova, se bem que por demais simples e mesquinha, do sincero respeito e admiração que consagro ao seu caráter probo e mui brilhante talento, já musical, já literário".

Hoje as primeiras publicações de Cruz e Sousa estão reunidas sob o título de Dispersas (Cf. Edição Aguilar, 1961, p. 291ss.).

Relação das criações poéticas de 1880 aos 18 anos:

Avante, sobrescrito com a data de 17-9-1880, fragmento inédito de quatro estrofes, dedicada "ao distinto e talentoso jovem José Artur Boiteux".

Poesia, em A Regeneração, de 21-10-1880, de doze estrofes, oferecida à diretoria da Sociedade Musical Guarani, recitada anteriormente, em 17 de outubro, pelo autor, na reunião estreante da nova sociedade.

Saudação, sobrescrita de 14-11-1880 em A Regeneração, de 21.ll-1880, oferecida à S. D. P. "Fraternal Beneficente", proferida num espetáculo a favor das vítimas da inundação do rio Itajaí. Por causa da referida inundação fora transferida a instalação do recém criado município de Blumenau.

A Imprensa, sobrescrita em 21-11-1880, no Jornal do Comércio, de 8-12-1880, oferecida às Redações de O Despertador, A Regeneração, Progressão, Artista, Jornal do Comércio, representadas pessoalmente. Observe-se que estão presentes todos os jornais, conservadores e liberais.

Ainda como sendo do ano de 1880, mas não constante da edição da obra completa do centenário (Aguilar Ltda., 1961), deixou Cruz e Sousa uma intercalação no já mencionado fragmento Avante e dedicado a José Artur Boiteux. Tivemos ocasião de ver uma cópia manuscrita, esta datada de 30-1-1898, por Etelvina Boiteux, entre os papéis póstumos de Lucas Boiteux, do mesmo ano do falecimento do poeta (vd 94).

Criações de 1881:

Versos, no Jornal do Comércio de 13-4-1881 e no jornal Colombo.

Em 1882 multiplicam-se as produções de Cruz e Sousa. Pode-se acreditar que fossem bem mais numerosas as poesias criadas nesses anos, em vista de se saber que Cruz e Sousa destruiu um de seus livros denominado Cambiantes, projetado em 1884, de que voltaremos a falar.

Pela sua antiguidade, aprecie-se:

Avante (17 set. 1880)

Ao distinto e talentoso jovem José Artur Boiteux

Avante, sempre nessa luz serena,
empunha a pena, sem temor, com fé!
Eleva às turbas as idéias d'oiro,
que um tesouro tua fronte é!. . .

Eia, caminha nessa senda nobre,
na pátria pobre, no teu berço aqui!...
prossegue altivo, sem parar, constante,
faz-te gigante, diz depois: Venci...

Imita os grandes, incansáveis vultos.
que lá sepultos no pó negro estão!...
Anda, romeiro dos vergéis divinos,
mergulha em hinos a gentil razão!...

Eia, que sempre na brasílea história
de alta glória colherá o jus!. ..
O livro augusto do Porvir descerra,
Sê desta terra o precursor da luz!...

A esse tempo, de 1880, José Boiteux ia concluindo seu curso secundário no Ateneu Provincial, aos 15 anos, e não demoraria a seguir pata um curso superior no Rio de Janeiro. Cruz e Sousa vê profeticamente o destino do ilustre catarinense e o incita: "Sê desta terra o precursor da luz".

Na verdade veio a fundar a Academia Catarinense de Letras e a sua primeira Escola Superior.

Estes são os primeiros versos de "A imprensa"

(21 nov. 1880)

A lâmpada gigantesca
das glórias do porvir,
turíbulo majestoso
no mundo a irradir,
é a imprensa tesouro

e c'roa de verde louro
à fronte da escritor!
É centelha sublimada
que vem do céu arrojada
à treva dando fulgor!