Amiguinhos

Engraçado lembrar de uma infância meio solitária.

Minha mãe costumava dizer que era até meio autista, que ficava horas fechada desenhando, brincando de bonecas sozinha, sem muito interagir com as outras meninas.
Pois então, eu não interagia mesmo.

Sabe, eu era a menina rotulada como mimadinha, certinha, arrumadinha, obediente demais, aquela que não se suja para o papai não brigar, não faz arte para papai não brigar, não falava com os meninos com medo de ralharem, aquela que a governanta ia para todo os lugares.

Vivia de Maria-Chiquinha, engomadinha sem um errinho aqui ou ali.

Inteligente, boas notinhas, sempre obediente á professora e perfeitinha demais para as "patricinhas" do condomínio e da escola lá de São Conrado.

Elas me achavam a pobrezinha, tipo, eu tinha as bonecas mais baratas, as roupas de supermercado e as bugigangas de feira-livre enquanto elas tinham tudo de marca as bonecas melhores e eram os diabos.

Uma vez, recordo de uma competição de um desfile de bonecas, onde as meninas arrasaram com a minha, mas como eu havia feito sem máquina nem nada o vestido da minha Susie eles me deram o prêmio. Quase apanhei de todos lá, pois falaram que roubaram por sentir pena da menina pobrezinha.

Puxavam minha trança, levantavam minha saia, tiravam meu biquíni e eu muito grandona e meio desajeitada e desastrada sempre levava a pior, não conseguia me defender e quando consegui fizeram queixa para o meu pai e ele e minha mãe me castigaram, apanhei fiquei sem regalias lutadas e conquistadas com muito esforço.

Aquelas nojentinhas não sabiam o que eu passava e o pior seus pais não imaginavam os rituais de rejeição, perversidade por uma discriminação que passava e sofria na minha carne, o pior que minha governanta bem que tentava me ajudar, me proteger e delatar, mas eu era sempre a errada e a vergonha da família.

Sempre fui o motivo das brigas e discórdias pelos meus problemas de adaptação e aceitação social, mas eram motivos externos, não por mim mesma, por má índole.

Cheguei a achar que era deficiente mental, que era adotada sei lá, essas coisas que criança pensa quando chora no escuro lanhada pela cinta e a dor de ardência das bordoadas do pai.

Com certeza, com o tempo foi piorando e as coisas indo mais para o lado da rejeição e isolamento, mas tentarei lembrar de casos, lembranças e relatar em prosa.

Quero fazer esse presente a mim, um balancete de tudo que fui eu para encontrar onde estão os erros, quem sabe alguém de fora com a cabeça mais fresca não ajuda?
Quem sabe eu não encontre aonde eu errei tanto?