Romances

Anarda

Romance IV

Aonde levas, pastora,
Essas tenras ovelhinhas?
Que para seu mal lhes basta
O seres tu, quem as guia.

Acaso vão para o vale,
Ou para a serra vizinha?
Vão acaso para o monte,
Que lá mais distante fica?

Vão porventura, pastora,
A beber as cristalinas,
Doces águas, que discorrem
Por entre estas verdes silvas?

Ah! Quem sabe, triste gado,
Onde a maior homicida
Dos corações, e das almas,
Convosco agora caminha!

Presumir, que cuidadosa
Vos conduz à serra altiva,
Imaginar, que à ribeira
Vos vai levando propícia;

Não o posso, não o posso;
Quando a conjetura avisa,
Que mal as ovelhas guarda;
Quem as almas traz perdidas.

Porém se a vossa ventura
De mais nobre se acredita,
Se podeis vencer de Anarda

A condição sempre esquiva;

Ela vos conduza: os passos
Segui da minha inimiga;
Enquanto para cantá?la
Meu instrumento se afina.

Mais que Títiro suave,
Aqui sentado à sombria
Copa desta verde faia,
Chorarei as penas minhas.

Farei, com que soe o bosque
A seu nome: esta campina,
Vereis, como só de Anarda
A doce glória respira;

Essas árvores, e troncos
Concorrendo à harmonia
Do meu canto, Orfeu nos vales,
Cuidarão, que ressuscita.

Eu repetirei contente
A cantilena, que tinha
Com Alcimedon composto,
Quando no monte vivia.

Direi aquelas cadências,
Que à casca de uma cortiça
Encomendou meu cuidado,
De meu sangue com a tinta.

Pastora (se bem me lembra
Assim meu verso dizia),
Mais branca, que a mesma nove,
Mais bela, do que a bonina;

Eu sou, quem estas ribeiras,
Sou, quem estes campos pisa,
Atrás de uma alma, que roubas,
Tão presa, como rendida.

Não te peco, que ma entregues:
Porque quem ta sacrifica,
De meu voluntário culto
Faz ostentação mais fina:

Quero só, que ma não deixes,
Que a não desampares; inda
Quando de Letes saudoso
Vires a margem sombria.

Mais seguro, e mais constante,
Que aquela mimosa ninfa,
Que no côncavo das penhas,
Por lei do destino, habita.

Eco serei destas rochas,
Aonde os clamores firam
Dos corações, que se queixam,
Das almas, que se lastimam.

Assim, cândidas ovelhas,
Assim clamarei: sozinhas
Correi embora contentes
O vale, o monte, a campina.