Obra poética reconhecida


Cântico XXVI
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste breve,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...


A Biblioteca Infantil, mais do que um sonho de Cecília Meireles embalado desde a infância, é um sucesso no Rio de Janeiro até 37, quando o Interventor do Distrito Federal invade o Centro e apreende AS AVENTURAS DE TOM SAWYER, de MARK TWAIN, um clássico norte-americano, sob acusação de comunismo. O caso repercute no Brasil e no exterior. Depois da invasão, o Centro de Cultura Infantil é fechado pelo Estado Novo. O ano de 38 marcará seu retorno à poesia. O livro VIAGEM, publicado no ano seguinte (1939), recebe da Academia Brasileira de Letras o Prêmio de Poesia. O reconhecimento se faz presente. VIAGEM é composto por doze poemas, que podem ser interpretados como doze etapas de uma trajetória espiritual, onde vida e poesia se confundem, da mesma maneira que a poeta e a natureza. Formalmente, convivem lado a lado versos de sete e oito sílabas e versos livres.



Canção
Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.
Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.
O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.
Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só se aquele mesmo vento
fechou teus olhos, também...


Reconhecida oficialmente, a partir do lançamento de VIAGEM, em 39, Cecília Meireles inicia um novo período de produção intelectual e de afetividade. Casa-se, em 1940, com Heitor Grillo, passa a lecionar literatura e Cultura Brasileira na Universidade do Texas, profere conferências no México e visita a Argentina, Uruguai e diversos países europeus. Até o final dos anos 40, produz intensamente. Em 42, publica VAGA MÚSICA, onde pergunta, em um poema: COISA QUE PASSA, COMO É TEU NOME? Três anos depois, publica MAR ABSOLUTO e, em 49, RETRATO NATURAL, transmitindo sua busca e perplexidade diante do enigma da existência humana.

 




Autoretrato

Mulher ao Espelho

Hoje, que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
Já fui Margarida e Beatriz,
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

publicado em MAR ABSOLUTO - 1945.



Quando lançado, RETRATO NATURAL foi assim recebido pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, que assinava coluna no Jornal de Letras do Rio de Janeiro: "Uma espécie de retrato natural da fisionomia da sra. Cecília Meireles, e que a situa definitivamente na corrente tradicional dos poetas peninsulares... Com a sra. Cecília Meireles, o verso português não sofre nenhuma distorção violenta. Apenas ficou mais fluido, adquiriu uma diferente e surda musicalidade. Bem a qualificou outro grande poeta, João Cabral de Melo Neto: libérrima e exata."

 


Canção

Não te fies do tempo
nem da eternidade,
que as nuvens
me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam
contra o meu desejo!
Apressa-te, amor,
que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe,
em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...


Na década de 50, Cecília Meireles intensifica as viagens para o exterior. Reconhecida, vive a plenitude, num período caracterizado pela felicidade e satisfação profissional. Em 51, participa do I Congresso Nacional do Folclore, no Rio Grande do Sul. Na infância, Cecília Meireles tomara contato com o folclore açoriano através da avó. A cultura popular fora-lhe transmitida através de uma pajem, que lhe contava histórias, contos, adivinhações e fábulas. O interesse pela cultura popular brasileira, que já havia levado a poeta e educadora para além das fronteiras nacionais, acaba por levá-la mais longe nos anos 50. Ainda em 51, após o lançamento de AMOR EM LEONORETA, viaja aos Açores, França, Bélgica e Holanda. No período, escreve DOZE NOTURNOS DE HOLANDA. O termo "noturno" tem conotação com os mistérios da noite, e também tem relação com a composição musical, melancólica e terna. A obra, composta por 12 noturnos, traduz a busca de Cecília, sua angustiada tentativa de penetrar a razão da existência humana. A crítica afirma que, em sentido figurado, "a idéia da noite percorre os doze poemas, como um sinônimo de questionamento do sentido da vida, da oportunidade de purificação ou da imagem da morte".


Noturno

Quem tem coragem de perguntar,
na noite imensa?
E que valem as árvores,
as casas, a chuva,
o pequeno transeunte?
Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?
Que valem a conversa apenas murmurada,
a erma ternura, os delicados adeuses?
Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?(...)


 

Os Doze Noturnos de Holanda foram publicados em 52, mesmo ano do lançamento de O AERONAUTA, período em que a poeta encerra a pesquisa que resultará no ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, uma narrativa rimada, na definição da autora, que lhe consumiu dez anos de pesquisa. A temática, de caráter histórico e nacionalista, remete o leitor à Inconfidência Mineira. A poeta associa a verdade histórica com tradições e lendas e, ao utilizar-se da técnica ibérica dos romances populares, recria a atmosfera de Ouro Preto, Vila Rica dos Inconfidentes. Na obra aparecem, alternados, os "romances", os "cenários" e as "falas".

Os romances, reconstituindo a história, compõem o fio narrativo. Os cenários, situando os ambientes marcam as mudanças de atmosfera e localizam os acontecimentos. As falas, por sua vez, representam uma intervenção do poeta-narrador, tecendo comentários e levando o leitor à reflexão dos fatos referidos. Nas páginas do ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA encontram-se a mineração, as rivalidades e contendas, os impostos cobrados pela coroa, a conscientização de alguns intelectuais e os ideais de liberdade, além da defesa dos oprimidos.



Bandeira da Inconfidência

Através de grossas portas sentem-se luzes acesas
e há indagações minuciosas dentro das casas fronteiras
olhos colados aos vidros, mulheres e homens à espreita
caras disformes de insônia vigiando as ações alheias(...)
atrás de portas fechadas à luz de velas acesas
uns sugerem, uns recusam, uns ouvem, uns aconselham
se a derrama for lançada há levante com certeza
corre-se por essas ruas, corta-se alguma cabeça
no simo de alguma escada profere-se alguma arenga
que bandeira se desdobra?
com que figura ou legenda?
Coisas da maçonaria, do paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade, um gênio a quebrar algemas? Atrás de portas fechadas à luz de velas acesas
entre sigilo e espionagem acontece a Inconfidência
e diz o Vigário ao poeta "escreva-me aquela letra do versinho de Virgílio"
e dá-lhe o papel e a pena. E diz o poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados antes que tal verso escrevam" Liberdade, ainda que tarde, ouve-se em redor da mesa
e a bandeira já está viva e sobe na noite imensa
e seus tristes interventores já são réus, pois se atreveram a falar em liberdade,
que ninguém sabe o que seja através de grossas portas
sentem-se luzes acesas,
e há indagações minuciosas dentro das casas fronteiras...
Que estão fazendo tão tarde, que escrevem, conversam, pensam
mostram livros proibidos? lêem notícias nas gavetas?
terão recebido cartas de potências estrangeiras? Antigüidades de Minas, em Vila Rica suspensas
Cavalo de Lafaiete saltando vastas fronteiras
Oh, vitória, sestas, flores das lutas da Independência
Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda
e a vizinhança não dorme, murmura, imagina, inventa,
não fica bandeira escrita, mas fica escrita a sentença...

 

 

Ilustrações de
RENINA KATZ
para
Romanceiro da Inconfidência

 

 

 


No mesmo ano em que o Romanceiro é publicado, Cecília Meireles recebe o título de Doutor honoris causa da Universidade de Délhi, na Índia. Ela havia sido convidada pelo governo indiano a participar de um simpósio sobre a obra de Gandhi. O trabalho lhe rendeu o título concedido. Cecília, que desde a adolescência vivia o fascínio pela cultura oriental, extravasa a experiência vivida em sua poesia. Da viagem nascem os POEMAS ESCRITOS NA ÍNDIA, parte das crônicas-evocação que irão compor GIROFLÊ-GIROFLÁ, e a ELEGIA A GANDHI, hoje traduzida para inúmeras línguas. Antes de voltar ao Brasil, uma passagem pela Itália. Surgem os POEMAS ITALIANOS. Seguem-se, ainda, viagens a Porto Rico e Israel.

 


Giroflê-Giroflá
Tempo do Giroflê A vida vai sendo levada para longe, como um livro, que tristes querubins contemplam, resignados. (...) Ah, mas as pálidas imagens ainda resistem: saem dos seus primitivos lugares, aparecem onde não as esperávamos, desdobram-se de outras figuras que nos apresentam, acordam as primeiras experiências, as indeléveis curiosidades do nosso amanhecer no mundo. (...) A bondade está ali - detrás daquela porta que se abre em silêncio, na sala onde a mesa está sempre posta - Inutilmente o relógio marca o dia e a noite, pois a vida é sem fim. Ninguém estremece. Ninguém pensa nas horas muito a sério. Todos se sucedem, todos se lembram uns dos outros. Todos estão ali à espera dos que chegam.(...)

 

Giroflê, Giroflá foi publicado, em edição limitada, em 56 e reeditado em 1981. O livro, composto por crônicas, em prosa poética, reúne as impressões de Meireles recolhidas em suas viagens pela Índia e Itália. De volta ao Brasil, depois de passar por Porto Rico e Israel, em 58, Cecília Meireles acompanha a publicação da sua OBRA POÉTICA, que consistiu no reconhecimento do mercado editorial do seu valor e talento literário e artístico. Até 64, a poeta lançaria, ainda, METAL ROSICLER e SOLOMBRA, em 60 e 63.

Cecília Meireles morre no Rio, em 9 de novembro de 1964. Em plena atividade literária, deixando incompleto um poema épico-lírico, escrito em comemoração ao quarto centenário do Rio de Janeiro, sua cidade Natal. Além deste poema, deixa inúmeros textos inéditos. No ano seguinte à sua morte, a Academia Brasileira de Letras concede-lhe o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra. Amada pelo público - até hoje, Cecília Meireles é a poeta mais lida do Brasil, sendo ultrapassada apenas por Vinícius de Morais e Carlos Drummond de Andrade -, Cecília Meireles permanece um desafio para a crítica nacional. Ela partiu do pós-simbolismo e do lirismo português. À margem do modernismo, construiu uma obra de dicção muito pessoal, que a faz admirada não apenas pelo público, mas também por colegas, como Drummond, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. E alcançou uma meta:





"acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação - mas por uma contemplação poética afetuosa e participante."

 


O crítico e ensaísta Davi Arrigucci Jr. afirma que ela era uma poeta altamente técnica, uma grande artista do verso, que deixou expressa em sua obra a tensão entre o sentimento do fugidio e rigor que ela própria se impunha para expressar esse sentimento. Arrigucci prossegue: "extremamente musical, com metáforas fortemente sensoriais e sua insistência no uso da primeira pessoa, Cecília Meireles parece ter cantado sempre o mesmo tema:"a busca do eterno no transitório, do transcendente no contingente, do milênio no minuto".


Definição:

Concha, mas de orelha;
Água, mas de lágrima;
Ar com sentimento. - Brisa, viração.
Da asa de uma abelha.
Manuel Bandeira, sobre Cecília Meireles e sua poesia.




Retrato

"Eu não tinha esse rosto de hoje,
assim calmo, assim triste,
assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo
eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas
eu não tinha este coração
que nem se mostra
eu não dei por esta mudança tão simples,
tão certa, tão fácil
em que espelho ficou perdida minha face?"





TEXTO EXTRAÍDO, NA ÍNTEGRA, DO PROGRAMA "ÍNDICE CULTURA - Editoria Especial"
Produzido pela CULTURA FM Ficha Técnica:
Roteiro, produção e apresentação: Patrícia Coelho
Apoio de Produção: Thays Barca
Coordenação: Regina Porto
No programa, a poesia de Cecília Meireles pela autora, em gravações gentilmente cedidas pelo colecionador Waldemar Torres.
Demais poesias na voz de Fernando Uzeda.
Citações de Cecília Meireles na leitura de Adriana Braga.

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