| As marcas do estilo
Poucos poetas utilizaram, na Língua Portuguesa,
tantas reticências, travessões e pontos de exclamação
quanto Castro Alves. A cada página do livro, os exemplos se
sucedem:
Pesa-me a vida!
está deserto o Forum!
E o tédio!
o tédio!
que infernal idéia!
Através destes recursos gráficos, o
poeta procura reproduzir a oralidade do discurso exaltado da praça
pública ou das declamações nos palcos. As reticências
apontam as pausas dramáticas que reforçam a ênfase
discursiva marcada pelos pontos de exclamação. Já
os travessões têm dupla função. Por vezes
aparecem, como as reticências, como marcas de pausa da elocução:
- Ave te espera da lufada o açoite.
- Estrela guia-te uma luz falaz.
- Aurora minha só te aguarda a noite,
- Pobre inocente já maldito estás.
Em muitos outros momentos, aparecem como marca do
discurso direto, apresentando uma fala que se dirige a um interlocutor
específico:
- Olhai, Signora
além dessas cortinas,
O que vedes?
-- Eu vejo a imensidade!
- E eu vejo
a Grécia
e sobre a plaga errante
Uma virgem chorando
É vossa amante?
- Tu disseste-o, Condessa! É a Liberdade!!!
O estilo retórico condoreiro se traduz na
linguagem escrita através dos sinais de pontuação,
como as reticências, os travessões e os pontos de exclamação!...
Ênfase Social
Castro Alves, o maior representante da última geração
romântica, diferente dos seus predecessores, como Junqueira
Freire e Álvares de Azevedo,
projeta o drama interior do escritor (o eu), sua intensa contradição
psicológica, sobre o mundo. Enquanto que, para a geração
anterior, o conflito faz o escritor voltar-se sobre si mesmo, pois
a desarmonia é resultado das lutas internas (ultra-romantismo),
para Castro Alves, são as lutas externas (do homem contra a
sociedade, do oprimido contra o opressor) que provocam essa desarmonia.
É outro modo de representar o conflito entre o bem e o mal,
tão prezado pelos românticos.
Portanto, a poética deve se identificar profundamente
com o ritmo da vida social e expressar o processo de busca da humanidade
por redenção, justiça e liberdade. O poeta "condoreiro"
tem um papel messiânico e afinado com o seu momento histórico.
Esse comprometimento faz a poesia se aproximar do discurso, incorporando
a ênfase oratória e a eloqüência.
Nos poemas de Os Escravos, a poesia é suplantada
pelo discurso político grandiloqüente e até verborrágico.
Para atingir o alvo e persuadir o leitor e, muito mais, o ouvinte,
o poeta abusa de antíteses e hipérboles e apresenta
uma sucessão vertiginosa de metáforas que procuram traduzir
a mesma idéia. A poesia é feita para ser declamada e
o exagero das imagens é intencional, deliberado, para reforçar
a idéia do poema. Os versos devem ressoar e traduzir o constante
movimento de forças antagônicas, como se nota logo no
primeiro poema, O Século:
O séclo é grande
No espaço
Há um drama de treva e luz.
Como o Cristo a liberdade
Sangra no poste da cruz.
Um corvo escuro, anegrado,
Obumbra o manto azulado,
Das asas dáguia dos céus
Arquejam peitos e frontes
Nos lábios dos horizontes
Há um riso de luz
É Deus.
Ou no célebre O
Navio Negreiro:
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura
se é verdade
Tanto horror perante os céus
Ó mar! por que não apagas
Coa esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
A poesia social de Castro Alves é caracterizada:
pelo discurso retórico, declamativo; uso exagerado de hipérboles
e antíteses; acúmulo sucessivo de metáforas;
movimento, com o objetivo de demonstrar concretamente o ritmo da luta
da humanidade em busca da liberdade; e impressionante capacidade de
comunicação. A poesia, portanto, perde terreno para
a propaganda política. Pragmático, o poeta usa a poesia
para levar o leitor à ação, para transformar
e não só para deleitar. Trata-se de uma arte engajada
no marketing das idéias sociais e políticas:
Quebre-se o cetro do Papa,
Faça-se dele - uma cruz!
A púrpura sirva ao povo
Pra cobrir os ombros nus.
Convite à senzala
Para convencer o ouvinte/leitor, Castro Alves convida-o
a descer à senzala e conhecer o terrível drama humano
que lá se encena:
Leitor, se não tens desprezo
De vir descer às senzalas,
Trocar tapetes e salas
Por um alcouce cruel,
Vem comigo, mas
cuidado
Que o teu vestido bordado
Não fique no chão manchado,
No chão do imundo bordel.
(
)
Vinde ver como rasgam-se as entranhas
De uma raça de novos Prometeus,
Ai, vamos ver guilhotinadas almas
Da senzala nos vivos mausoléus.
E, assim, ao longo de Os Escravos e A Cachoeira de Paulo Afonso,
Castro Alves vai apresentando ao leitor a vida do cativo, negro
ou mestiço, sujeito à crueldade dos senhores, que
arrancam os filhos dos braços das mães para os vender,
estupram as mulheres, torturam e matam impunemente os Homens
simples, fortes, bravos
/ Hoje míseros escravos/ Sem
ar, sem luz, sem razão
Para isso, Castro
Alves não hesita em explorar ao máximo as expressões
que apelam aos sentimentos do leitor, abusando dos vocativos, das
interpelações e das evocações, como
em Vozes dÁfrica:
Deus! Ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em questrela tu tescondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito
Onde estás, Senhor Deus?
ou em A Órfã
na Sepultura:
Mãe, minha voz já me assusta
Alguém na floresta adusta
Repete os soluços meus.
Sacode a terra
desperta!
Ou dá-me a mesma coberta,
Minha mãe
meu céu
meu Deus
ou, ainda, em O Bandolim
da Desgraça, de A Cachoeira de Paulo Afonso:
Assim, Desgraça, quando tu, maldita!
As cordas dalma delirante vibras
Como os teus dedos espedaçam rijos
Uma por uma do infeliz as fibras!
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O tema da escravidão
O Navio Negreiro
Uma fonte alemã.
A Cachoeira de Paulo Afonso
Memórias póstumas de Castro
Alves
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