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O capricho de elfa Por que me acusam? - dizia consigo a linda Elfa, passeando sozinha pelo seu salão, e levantando rapidamente, com um gesto ágil, o vestido de cauda, que quase derrubou, ao passar, um fino vaso de Sèvres. - Por que me acusam? É sem razão, de certo... Foi culpa minha, se a fatalidade... Dizem que por um capricho, um fútil capricho... eu expus, eu sacrifiquei a vida de um homem. Ah! por um capricho! E não vai de capricho em capricho a existência da mulher? E um capricho não é sagrado desejo, ordem divina, quando alguém nos adora? E como de outro modo saber se somos amadas? A lâmpada esparzia uma luz de leite, suave, dormente, através do cristal fosco do seu globo. Era uma luz de delicadezas e mistérios; a luz que convém, mais que a do pleno dia, mais que a dos teatros e dos bailes, ao triunfo perfeito da beleza que não quer deslumbrar, mas enfeitiçar, e possuir, e ser ambicionada por uma paixão profunda, profunda como a própria essência humana. Luz para quem espera, contando as horas, a presa que há de chegar segura, que segura há de ficar para sempre... Luz que é filtro estranho, que confunde a mente e entorpece a vontade, pondo em tudo reflexos de sonho dando uma tão mórbida doçura ao velho relógio de Saxe, onde se ouve pulsar um coração pequenino, e à Alméia de bronze que, dobrando-se em lasciva postura, tem no seu próprio corpo os máximos encantamentos, e às rosas cor de sangue, que, de envolta com palescentes violetas de Parma, se finam nas jarras de Viena, e às pregas dos reposteiros de seda brochada que se multiplicam no grande espelho veneziano... uma tão mórbida doçura especialmente às formas de Elfa, decotada, ornada como para um sarau, ao ar o colo e os ombros ebúrneos... mas o olhar velado e o sorriso enigmático não são de quem pensa em danças... - Fui imprudente - confessava ela - mas podia eu lá adivinhar? Por uma flor, uma flor soberba - nunca eu vira igual! Estávamos sós; sós íamos subindo a encosta sombreada; nas árvores os ninhos palpitavam cheios de músicas; o calor da tarde estiva nos penetrava e nos rendia; eu buscava apoio no braço dele, no seu peito, e quando para o seu rosto erguia os olhos, a boca se me prendia à sua boca, e tinha preguiça de a deixar. Eram beijos sem número fundidos num só beijo imenso... Por que vi eu a fatal flor? Que flor era essa? Não lhe sei até hoje o nome. Sei que era grande e rubra - uma granada sem preço, como não há nos ourives. Eu a desejei... eu lha pedi. Conheci que ela pendia, na ponta de um galho delgadíssimo, sobre um precipício, áspero de espinhos e calhaus? Conheci. E, ai de mim! assim mesmo lha pedi. E ele, sem hesitar, me deixou, sentada no caminho, sob a copa de uma velha mangueira. Célere galgou, de rochedo em rochedo, a íngreme subida, agarrou-se a um penhasco, estendeu o braço, e com um grito alegre de vitória empolgou a sublime flor vermelha... Mas nesse momento voltou-se para mim; quis ter dos meus olhos para os seus olhos a primeira recompensa. - De repente, sumiu-se tudo, não o vi mais, não vi mais a flor, e unicamente, aterrada, ouvi o baque de seu corpo no abismo. Trouxeram-no depois. - Ah! que belo estava, pálido assim, com a face de neve onde a boca ainda sorria docemente, desbotada... e por entre as mal cerradas pálpebras, as pupilas me fitavam, sem brilho, mas com tão estranha insistência na sua imobilidade! Ah! que belo e mais desejável que nunca! A flor, esqueceram-na lá, no despenhadeiro, ou perdeu-se, não a puderam encontrar mais... E disso me acusam. Foi culpa minha, se a fatalidade... Eu lera histórias de amantes que iam colher o edelweiss nos cumes alpinos, entre o gelo escorregadio, por manhãs de inverno; e de outros que se atiravam às águas de um lago para trazer um branco nenúfar pedido. Mas sempre havia fadas, ou ninfas, ou náiades, que os protegessem. Morria algum, por acaso; mas era raro... Enfim, passou. Eu chorei bastante, chorei: e fui muitas vezes enfeitar de grinaldas e ramalhetes o túmulo onde ele dorme. Mas ele dorme ainda, é para sempre que dorme. E agora me dizem: Ingrata! perjura! - porque outro me ama, porque eu me entreguei a outro. Que o seduzi? E sou criminosa se as minhas graças seduzem? Acusam-me, porque eu vivo, e não faço da minha vida a escrava submissa da morte. Ai! eu vivo, eu quero, preciso vida ao redor de mim, vida que se me dê em troca da minha vida... O morto está ausente há muito, está longe, no país de onde ainda ninguém tornou. Ele não pensa em mim: por que hei de pensar nele? E quem me afiança que nessas peregrinações ignotas, de astro em astro, ele não se tem dado a outras, à mercê dos encontros? Não, meu coração, ele nada sofre, com os teus afetos novos: ele nada sabe. E se soubesse... Da sua mansão eterna diria: "Ao menos, ela não escolheu um estranho, um desconhecido para me suceder. Escolheu um amigo meu um homem de confiança - Está bem protegida." E a sua paz seria completa. Não há fantasmas, não é verdade? Às vezes, em sonho... mas a manhã desfaz o pior sonho... Às vezes nesta sala onde ele também esteve, à claridade desta lâmpada que nos alumiou os colóquios... cuido ver... larvas da imaginação... Ah! batem à campainha. Que susto! Vamos lá. É o meu vivo! O outro não voltará... (Baladas e fantasias, 1900.) Carlos Magalhães de Azeredo
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