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Microcosmo SUMÁRIO: Há vinte anos Rezando e chorando... A ironia do vencido Os louros que me furtaram Preso no Senado Uma inundação de bondade "Já vi o povo" Uma frase do Sr. Lafayette Punida pela Abolição A voz da justiça histórica. Foi em 1888. Era um domingo; mas já se tinha resolvido que pela urgência da matéria haveria sessão no Senado, onde por esse tempo era eu redator oficial dos debates. Um frêmito de impaciência agitava o espírito público. Pairava no ar qualquer cousa de insólito, de extraordinário, quase atingindo as raias do inverossímil. A abolição do cativeiro assim de chofre, num decreto de poucas linhas, transcendia a expectativa dos mais audazes e assoberbava as resistências dos mais conservadores. Todos nos sentíamos em uma dessas culminâncias, que são como que arestas por onde se efetua o divórcio das águas da História. Ouvi missa, nesse dia, na pequenina igreja de Santa Ifigênia, na Rua da Alfândega. Impressionava-me um grupo de pretos que ali se achavam; homens e mulheres, alguns bem velhos... Rezavam e choravam silenciosamente... Não apanhavam, decerto, em toda a sua importância o grande momento social; mas nas principais linhas não lhes podia ele escapar Não há brutalidades de opressão que matem o amor da liberdade. No Senado já se sabia que naquele mesmo dia tudo ficaria acabado. Esperavam-se contudo por um lado, receavam-se pelo outro as manifestações de Paulino de Sousa, um dos mais valentes e autorizados adversários do projeto libertador. O discurso veio, mas não inflamado de indignações e apenas saturado de pungentes e amargas ironias: Não demoremos, porém disse quase textualmente o ilustre filho do Visconde de Uruguai , não demoremos por mais tempo a vitória dos abolicionistas. Ouvem-se desta tribuna os sons festivos das músicas. Consta que para a assinatura do decreto legislativo já baixou do Paço Sua Alteza a Princesa Imperial. Não façamos esperar uma dama de tão alta jerarquia! Cito de memória, mas essas foram pouco mais ou menos as palavras do orador. Tenho ainda nos ouvidos a singular tonalidade com que as proferiu. Depois a votação... Quando se proclamou o resultado, houver as galerias uma explosão que repercutiu e se propagou por fora na multidão aglomerada às portas do Senado. Estava consumada a grande obra... Não havia mais escravos no Brasil! Foi invadido o recinto e vitoriado, por um grupo de abolicionistas, o Senador Dantas, que estava radioso lá no seu posto, na bancada à esquerda da mesa, dando e recebendo abraços infindáveis. Ofereceram-lhe uma enorme grinalda de flores artificiais, da qual ele arrancou algumas folhas para mas oferecer generoso! Tome (sic), fulano disse que também te cabem alguns destes louros. Pede a verdade se declare que nunca me distingui nos ardores da propaganda abolicionista, tal qual a planearam e foram executando os seus protagonistas; mas ao velho Dantas não era desconhecido o meu horror à escravidão, a franqueza com que no Jornal do Comércio mais de uma vez os verberei, e alguns quase nulos serviços que em tal sentido lhe havia prestado. As folhas dessa coroa eu as pus numa pasta que nove anos depois os republicanos me tomaram (contra a minha vontade) ali no edifício da Liberdade, quando o destruíram e lhe deitaram fogo. Não somente os livros têm curiosos destinos, mas também os pedacinhos de glória. Habent sua fata... Ainda não esqueci o aborrecido desgosto que tive de curtir ouvindo o fragor do turbilhão humano que se agitava na praça as aclamações incessantes, as notas estridentes das charangas, os foguetes, pontuação indispensável de todo o entusiasmo nacional ao passo que, retido pelas minhas funções, permanecia eu preso no velho casario da Rua do Areal, a consertar as frases dos excelentíssimos oradores. Um deles, o estimável Senador Correia, bem me lembra que com imagem menos correta terminou patrióticas ponderações. Ele exortava os concidadãos a construírem sobre aquela cicatriz o edifício da prosperidade nacional... Estava escrito (segredou-me o sarcástico Francisco Belisário) que isto de Abolição havia de acabar sempre errado! Quando logrei sair, na companhia do meu saudoso amigo Nicolau Midosi diretor de uma secção da Secretaria do Império e fundador de uma Revista Brasileira, que atingiu crescido número de volumes e antecedeu à do José Veríssimo estávamos persuadidos de que já se aplacara o movimento popular; mas quanto nos enganávamos! Era dificílimo romper a turba na Rua do Ouvidor. Para entrarmos no Jornal do Comércio, onde eu também colaborava na publicação dos debates, preciso nos foi, a mim e ao meu amigo, solicitar ingresso pela travessa lateral, aonde iam dar as oficinas. De muitas janelas discursavam oradores, alguns fardados, do Exército, e com figuras do mais levantado entusiasmo para com a "mulher sublime que num lance de pena quebrantara grilhões três vezes seculares". Abraçavam-se transeuntes que mal se conheciam. Nem uma desordem, nem uma disputa colérica! Uma inundação de bondade alagava todos os corações. Havia lágrimas em todos os olhos. O Sr. Artur Azevedo, cujo republicanismo larvado ainda não fizera explosão, teve em uma de suas crônicas feliz expressão para pintar a intensa vida desse dia, o mais interessante talvez da nossa História: Agora, sim disse ele já posso contar que vi o povo!... E era realmente o povo, o verdadeiro povo, quem a 13 de maio de 1888 estuava nas ruas, confraternizava nos hotéis, nos botequins, nos restaurantes, onde não havia um lugar vago, sendo preciso esperar cerca de um hora, para a mais incompleta refeição, pois que em toda a parte se tinham acabado as provisões... Pois se o povo, em massa, havia saído para a rua! Quando, depois da meia-noite, fatigado, quebrantado pelo trabalho, pelas emoções, pelo contágio daquela nevrose inaudita e inigualável, consegui chegar a casa, e mais sossegado entrei a ponderar sobre tamanhos sucessos, ainda lá embaixo, na cidade, eu ouvia, das alturas de Santa Teresa, o surdo rumor da cascata humana. Dentro de mim também soava o epinício da assinada vitória: Não há mais escravos no Brasil! Pareceu-me que mais acesas rebrilhavam as estrelas, e que nos rugidos do mar propínquo já não havia lamentos de escravos, senão rugidos de um povo senhor... Mas de repente uma frase se me acordou na lembrança, e gelidamente me impressionou. Eu a tinha ouvido uma vez, no Senado, dos lábios do Conselheiro Lafayette, o emérito burilador de sentenças que se recortam na memória, nítidas e frias como as agulhas de neve em que se aguçam as cordilheiras: "Têm-se visto (opinou S. Exa.) filhos que perdoam aos assassinos de seus pais; porém, jamais alguém viu que um homem perdoasse a quem lhe destruiu a fortuna." Triste, mas verdadeira observação, que muito não tardou a realizar-se! O povo que a 13 de maio atapetava de corações o caminho por onde ao trono ia passar Isabel, a Redentora, indiferente lhe volveu costas, quando um ano depois a viu abatida, caluniada, proscrita e punida, até na prole, pelo grande crime da Abolição... A mulher excepcional e abençoada a quem coube a dúplice glória de vibrar dois máximos golpes na escravidão, foi desamparada pelos seus colaboradores, pelos redimidos, e sozinha se achou acometida pelos rancores dos que na Monarquia, vingaram os prejuízos da fortuna... Ela que, interrompendo a fatalidade hereditária, mandou que de ventre escravo nascesse livre descendência, vê hoje prolongada nos filhos a pena do exílio que lhes veda o ingresso em terras do Brasil... ..................................................................................................................................... Estas reminiscências do magno dia, são instrutivas: elas têm uma filosofia prática mais fortemente acentuada que as exortações dos moralistas. Entre os delírios que circundavam o carro da Regente, em 1888, e o soturno embarque no cais do Pharoux, antes do alvorecer do 17 de novembro, há uma lição da instabilidade das coisas humanas, uma dolorosa evidência do nada que somos. Ovações, e protestos, discursos, poesias, palmas, flores, dedicações juradas, hinos, aclamações tudo como por encanto desapareceu; e de tanto só restou, na escuridão da noite fatal, a esteira fosforeante da lancha em que de vez se alongava Pedro II, com os seus. De pé na plaga, só um vulto ficou, imóvel, e que até hoje assim se conserva. Chamam-lhe Saudade, mas é a justiça da História, que incoercível desdenha as brutezas da tirania e os engodos da corrupção. Deixai-me dar uma voz a essa Justiça, que emudeceu dolorida: Benditas, benditas as mãos que em nossa pátria espedaçaram os últimos grilhões do cativeiro! (O País, 10-5-1908.) Carlos de Laet |