Lá quando a tua voz deu ser ao nada
LXIV
Lá quando a tua voz deu ser ao nada,
Frágil criaste, ó Deus, a natureza;
Quiseste que aos encantos da beleza
Amorosa paixão fosse ligada.
Às vezes em seus gostos desmandada,
Nos excessos deslisa-se a fraqueza:
Fingem-te então com ímpeto, e braveza
Erguendo contra nós a destra armada.
Ó almas sem acordo, e sem brandura,
Falsos órgãos do Eterno! Ah!... Profanai-o,
Dando-lhe condição tirana e dura!
Trovejai, que eu não tremo, e não desmaio;
Se um Deus fulmina os erros da ternura,
Uma lágrima só lhe apaga o raio.
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