Ao Luar

Esperaba, desperado.

III

Era-a do vulto da janela-uma dessas feições que os Sóis do meio-dia parecem ter avivado com o primor de seus lumes-e o fogo de seus verdes.

-Ler-se-lhe-ia em cada traço, nos cabelos corridos e ondados, no bigode negro, nos olhos acesos e até nessa morena descor, que pelas válvulas das veias desse homem borbulhavam os fervores de Sarraceno, fundidos na branquidão, de fleugma das raças loiras do Norte-e nos vestígios dos bustos varonis dos soberbos Romanos.

-Não havia engranar-se: era um Espanhol ou um Siciliano.

Ao certo contudo ninguém sabia quem era o Conde Tancredo.-Donde vinha, onde ia, como vivia-calava-o ele.-Sua vida era um mistério-para uns era um doidejar de mancebo leviano, rebuçado nas orgias' dormindo nos haréns venais do lupanar, embriagado nos seios torneados na fluidez de cores de um corpo que freme nos abraços seminus das cinturas acetinadas no fresco dos cabelos das Frinés belas.

Para outros essa vida louca e perdulária-o isolado de seu palácio fechado durante o dia, o frenesi dos banquetes, o tumultuar das ceias fascinantes pelo quedar das horas mortas-a figura desse palácio mudo, como um fantasma de pedra, durante o dia-e refletindo de noite nas águas esverdeadas seus vinte olhos de luz-parecia acobertar algum crime: era um tapete de felpos séricos e flores turcas sobre uma nódoa ainda úmida de sangue.

Era contudo de nobre raça, uma dessas feições onde logo se adivinha a nobreza de herança-frontes soberbas onde melhor que nos brasões heráldicos se lê o senho do orgulho dinástico. O Conde Tancredo era assim.Era um homem de estranhas usanças.-Muitos o viram passar do riso mais alegre à spleenalgia mais sombrosa, do volver mais doce de olhos ao cintilar injetado de sangue de um olhar de cólera muda.

E quando dormia-muitas vezes a amante das noites se erguera de seu lado, fria e pávida,-ao ouvir os gemidos cavernosos de seu peito, e os gritos de raiva rangendo entre seus dentes cerrados-no volver da mão negra de um pesadelo.Isso que uns chamavam sonambulismo acordava em outros idéias de que a palidez desse homem podia ser um crime, e seus pesadelos um remorso

IV

O mancebo desaparecia às vezes do balcão da sacada - e suas passadas ressoavam pelo salão escuro-outras reaparecia na janela, estendendo olhares ávidos aos aléns do Canal.

O Árabe sentado no mármore da escadaria, parecia também esperar.

Disséreis contudo que a pessoa que ele esperava parecia não ser a mesma que inquietava tanto o Conde. A direção de seus olhares era oposta inteiramente.

Cada vez, contudo, que o rosto do mancebo embranquecido pela chuva de luzes lívidas da lua aparecia na sombra de seu manto negro, como no fundo escuro de um painel de Téniers ou Van-Dyck-a fronte escura do escravo se erguia-seu olhar brilhava mais ardente -e ele parecia dizer:

-Ele espera também!

V

A noite ia límpida e bela-as virações corriam medo no deslizar das ondas. Fazia-se tarde-só se ouvia às vezes o estalar das águas no cair dos remos reluzentes de umidez, dalguma gôndola solitária, passando muda e negra nas águas.

A noite ia-se límpida e bela.-O ar respirava a bafagem dos laranjais em flor. Entre o ramalhar das folhas, ao sussurrar das ondas, exalava-se às vezes a cantilena monótona do barqueiro-ou o descante ao longe de alguma barca iluminada.

VI

O céu se escurecia sob o crepe das nuvens que avultavam no horizonte, em ondas negras. A lua sumira seu fantasma ebúrneo sob as cortinas da escuridão.

Gotas mornas de chuva começavam a cair…

Davam nesse instante 10 horas em S. Marcos.

Os dois vultos-o da janela e o da escadaria permaneciam ansiosos.

Uma gôndola escura dobrou o canal-e aproximava-se lenta como uma ave negra aquática, com a cabeça sob a asa, resvalando em seu dormir pelo vidro das águas.

A gôndola vinha sempre-o mancebo permanecia imóvel na escada.

A gôndola parou no cais defronte do palácio

-Aí-aí-disse uma voz argentina de mulher. .

O conde ficou imóvel como bebendo a doçura daquela voz-o Árabe como despertado por ela foi até o cais…

Nesse momento uma forma peregrina de mulher saltava em terra com seus pés mimosos nuns mágicos e curtos sapatos de cetim, envolta numa manta de seda, cujas franjas lhe cobriam o rosto como uma máscara, mas não tanto que algumas doiradas mechas de cabelo lhe não sobressaíssem entre elas…

-É ela-disse o moço pálido, desaparecendo da janela.

-Não é ela-murmurou em sua língua bárbara o selvagem filho do deserto, voltando a embuçar-se no albornoz e a recostar a fronte escura no frio das pilastras de pedra.

-Ide-disse ela ao gondoleiro, atirando-lhe uma moeda de oiro. . .

A gôndola partia quando ela passava o peristilo do palácio.

-Adeus, Ali-disse ela, batendo-lhe com o leque.

-Não falas, estátua?

A face queimada do estrangeiro não se moveu.

Sonhava?

Esperava?

Talvez ambas as coisas.