Arquitetura de algodão (poesia reunida)

Selo editorial letras da Bahia 132p.

Depois da mostra retrospectiva no Museu de Arte Moderna da Bahia que veio confirmar o lugar de Almandrade na linha de frente da arte contemporânea brasileira, este artista /poeta nos surpreende com um belíssimo livro de poesia, a começar pelo titulo: Arquitetura de Algodão. Projeções, planejamento, cálculo, idéia. A feliz tentativa de captar imagens impossíveis, pensamentos e corporifica-los. O mais original é a diluição do que entendemos como real numa composição abstrata e lúdica, como se escrever poesia fosse pintar um quadro. Uma declaração de amor à fragilidade, ao invisível e a leveza. Uma poesia destilada, cerebral, que namora com a filosofia, a lógica, Wittgenstein, Bérgson, Nietzsche se perder a ética e a liberdade do trabalho literário.

O que podemos detectar de comum entre o trabalho pictórico de Almandrade e sua poesia é a instauração de um estado de leveza e equilíbrio. O livro parece que veio anunciar o próximo milênio, cantando as virtudes da leveza, como uma proposta poética. Como não se lembrar de Ítalo Calvino e suas propostas. A evidente leveza dos versos e a arquitetura dos poemas nos convidam a ler e reler o livro.

A mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.

O tema ronda
a lógica
invade
a língua
disparidades
não faz
insiste
inquebrável
ao menos
não diz
a razão
é um pensamento
sem saída.

Fronteiras
que se repetem
ciclo limite
exaltação
atropelos
um fim
de século
ao meio-dia
circunstancial
inédito só
as pernas do sol.

O umbigo transborda
o éter
alva, lisa
sem marca
de cansaço
epiderme de mulher
o mar do nome
doce, leve
peixe
a dança refresca
o belo namora
a boca e as pernas.

Poemas do livro "Arquitetura de algodão"

Almandrade