'Jico' também é rei do outro lado do mundoShinichiro Nakaba
Correspondente TÓQUIODemorou 11 anos, mas aconteceu. Zico, enfim, era anunciado como técnico da seleção japonesa logo após o fim da Copa de 2002. Era o destino reservado a quem já chegou no Japão como unanimidade e, lá, a confirmou com muito suor e talento.
A trajetória do Galinho foi longa e paciente, como exige a cultura oriental. Sua vida profissional no Japão começou do zero, assim como o futebol, que era amador. Sua estréia em 1991 foi num gramado impróprio para a prática do esporte e num time da segunda divisão, o Sumitomo - que depois virou Kashima Antlers. Só o amor pelo esporte e um senso profissional extremo conseguem explicar o que ele fazia do outro lado do mundo, numa equipe que reunia funcionários de uma siderúrgica que atuavam como jogadores nas horas vagas. No começo, apesar de ter sido contratado somente como técnico, foi obrigado a jogar. Acabou como artilheiro daquele ano com 22 gols.
Situação constrangedora viveu Mitsuru Suzuki, com experiência de 10 anos como jogador e três como treinador. Acabou virando, de uma hora para a outra, técnico de Zico. Além de entender muito menos de futebol, era mais novo. A hierarquia pela idade - que é regra em toda a sociedade japonesa - é mais acentuada no mundo esportivo. Como técnico da equipe, tinha que executar o que era exigido por Zico.
- A falta de estrutura deixava o Zico apreensivo no começo. Mas aos poucos conseguimos atender às exigências e criar as condições pedidas. Aprendemos muito com ele, mas Zico também assimilou muita coisa da gente. Ele está muito mais paciente e tem noções do planejamento japonês - disse Suzuki, hoje diretor esportivo do Kashima.
O futebol se tornou profissional um ano e meio após a chegada de Zico no Japão. De cara, na primeira partida da J. League contra o Nagoya, marcou os três gols da vitória do Kashima. Os títulos foram muitos, incluindo os como coordenador: quatro troféus da J. League e três Copas Nabisco, que equivale à Copa do Brasil. "Jico", como é chamado no Japão, virou estátua de bronze em Kashima, uma cidade de 45 mil habitantes que saiu do anonimato e virou um símbolo popular em todo o arquipélago.