Um raio de vida sobre a fria Udine
Araújo Netto
Correspondente ROMAAté o desembarque de Zico no aeroporto de Ronchi dei Legionari, no dia 15 de junho de 1983, Udine, com cem mil habitantes, era uma das cidades mais sem graça da Itália e quase sempre envolvida por um espesso manto de névoa.
O futebol de craque e o exemplo de humildade, de simplicidade com que Zico desembarcou naquele verão de vinte anos atrás, para jogar por um clube sem história e tradição no futebol italiano, levaram a redescobrir o charme discreto e a humanidade de Udine. Deram status e vida a uma cidade quieta e silenciosa demais.
Zico levou a Udine, todas as semanas, durante os dois anos em que jogou no Udinese, jornalistas de todo o país, de toda a Europa e de todo o mundo. Quem melhor sintetizou a grande metamorfose operada por ele foi o jornalista italiano, do "Il Gazzettino de Veneza", designado para seguir todos os passos de Zico, Luigi Maffei.
- Para nós, friulanos, Zico tem o mesmo significado de um motor da Ferrari colocado dentro de um fusca. Sentimo-nos os únicos no mundo a possuir um carro tão maravilhoso e absurdo.
Vinte anos depois, pedi a Luigi Maffei outro depoimento sobre a recordação deixada pelo craque. A primeira e mais forte lembrança de Maffei e tantos outros friulanos continua sendo a manifestação, única na história de Udine, que levou à Piazza XX Settembre 10 mil pessoas, que agitavam uma grande faixa na qual se lia uma ameaça que nunca tinha sido feita pelos friulanos: ou Zico ou Áustria.
Essa manifestação foi realizada por iniciativa da torcida do Udinese e pela população da cidade, em pé de guerra contra a manobra dos cartolas de Roma, que consideravam absurdo aprovar uma operação de US$ 4 milhões, a maior até então do futebol italiano, para a contratação de um jogador.
O recado do povo de Udine era muito claro: sem Zico, eles preferiam voltar sob o domínio austríaco, situação que perdurou no Friuli até 1866. Essa ameaça separatista foi levada muito a sério pelo ex-presidente da República Sandro Pertini, que interveio a favor da contratação de Zico.
Outro que não o esquece é Franco Marin, dono do hotel Lá di Moret, primeira casa de Zico em Udine.
- Na sua chegada, duas mil pessoas o esperavam. Parecia quase um papa acenando para a multidão.