O legado da perseverança
Fellipe Awi
Vai começar tudo de novo, doutor'. A frase de Zico para o médico Giuseppe Taranto, num simples coletivo do Flamengo em que o craque saiu com a mão no joelho, em 1988, foi repetida várias vezes. Para ser o que foi, Zico teve de driblar torções, estiramentos, fraturas e operações. Entre cadeiras de roda e mesas de cirurgia, o ídolo mostrou uma persistência que assombrava àqueles que o acompanhavam mais de perto.
- Zico é um exemplo de perseverança. Vi o quanto ele lutou para continuar jogando. Por isso, sei como foi injusta aquela derrota para a França - conta o amigo e ex-lateral Júnior.
O ex-companheiro se refere à perda da Copa de 86, que tinha tudo para ser o grand finale da luta de Zico contra seu próprio corpo. O drama começou um ano antes, em 29 de agosto de 1985, quando o zagueiro Márcio Nunes, do Bangu, deu o carrinho mais cruel da história do Flamengo. Uma torção grave no joelho esquerdo, três cirurgias, noites sem dormir e morfina para conter dores que, como dizia Zico, "eram como algo querendo sair do joelho". Nada disso fez o craque desistir de jogar sua terceira Copa. Ninguém mais que ele merecia o título, que não veio.
Hoje, poucos duvidam de que Zico poderia exibir seu talento por mais tempo não fosse aquele carrinho. Mas, antes e depois disso, o craque teve de superar dezenas de outras lesões com a mesma persistência.
- A carreira do Zico tem lances de verdadeiro heroísmo. Passou por todo sofrimento sem a menor garantia de que voltaria a jogar. Chorava de dor, mas jamais reclamou - conclui Taranto.