Luto oficial pela morte de Roberto Marinho

RIO - O jornalista Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, morreu ontem (06/08/03) à noite no Rio, aos 98 anos, após sofrer um edema pulmonar provocado por uma trombose. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou luto oficial de três dias e o Congresso parou para homenagear um dos mais importantes jornalistas brasileiros. "O Brasil perde um homem que passou a vida acreditando no Brasil. Como dizia o nosso amigo Carlito Maia, tem gente que vem ao mundo a passeio e gente que vem ao mundo a serviço. Roberto Marinho foi um homem que veio ao mundo a serviço. Quase um século de vida de serviços prestados à comunicação, à educação e ao futuro do Brasil. À família, aos amigos e aos funcionários das Organizações Globo, rendo as minhas homenagens póstumas", disse Lula em comunicado oficial.

Roberto Marinho construiu uma organização de comunicação de massa de vulto internacional a partir de um pequeno jornal herdado do pai. Com o vespertino batizado num concurso entre leitores, ele aos poucos construiu um conglomerado de informação, cultura e serviço público nunca visto na área de telecomunicações e entretenimento no país.

O Rio em que ele nasceu, em 3 de dezembro de 1904, ainda estava longe de ser uma cidade de grandes empresas e grandes empresários. Rodrigues Alves presidente, Pereira Passos prefeito, a capital da República proclamada 15 anos antes só então começava a modernizar-se. Nesta cidade ainda emergente, o futuro de um homem vitorioso não parecia destinado ao menino nascido no modesto bairro do Estácio.

Os pais de Roberto - Irineu Marinho Coelho de Barros e Francisca Pisani Marinho - tinham eles próprios origem modesta. Tiveram cinco filhos - Roberto, Heloísa, Ricardo, Hilda e Rogério - e foi para educá-los que Irineu trabalhou mais de 15 horas por dia até se tornar chefe de redação de "A Noite", vespertino que ajudara a fundar em 1911.

Nesse quadro, o destino de Roberto Marinho parecia, mesmo, o de um moço simples. Como ele disse em sua famosa carta aberta a Luiz Inácio Lula da Silva, pouco após as eleições presidenciais de 1989: "Durante a minha atribulada formação, em plena adolescência, matriculei-me no Instituto Profissional Sousa Aguiar. Todo dia, às quinze para as sete, eu entrava na sala onde estavam os armários com o número de cada um, e era pelo número que me conheciam: eu era o Treze, conforme estava estampado no uniforme, um macacão de zuarte. Fiz meu aprendizado nas profissões de entalhador, porque gostava de transformar pedaços de madeira em objetos úteis e bonitos, e de mecânico, por me fascinar a mágica dos processos industriais. (...) Não tivesse a vida de meu pai florescido com extraordinário êxito, produto de um talento e de uma coragem que se refletiriam na criação do vitorioso vespertino 'A Noite' (...) e eu poderia ter tido por destino ser, com muita honra, um colega do operário Lula."

A figura paterna foi por duas vezes fundamental na mudança de seu destino. Na primeira, influenciando-o e aos irmãos na escolha da profissão. Na segunda, com a morte de Irineu, aos 49 anos, em 21 de agosto de 1925, logo passaria para as mãos do primogênito, mais que um sonho, o dever de torná-lo realidade.

A fundação do GLOBO foi um episódio que Roberto Marinho viveu muito de perto e com certa perplexidade. Admirava a ousadia do pai, homem que voltara de uma viagem à Europa decidido a fundar um jornal que fosse livre, politicamente descompromissado e porta-voz de todas as aspirações do povo carioca.

"Nenhum homem de imprensa foi mais homem de imprensa que meu pai", afirmaria Roberto Marinho num texto de 1957.

O jornal começou a circular sem máquinas próprias, num andar de um edifício na esquina da Rua Bittencourt da Silva com o Largo da Carioca (hoje, o prédio da Caixa Econômica). Mas desde seu primeiro dia na redação, após a morte do pai, Roberto esteve empenhado em fazer do GLOBO mais que uma empresa modesta.

Em 5 de maio de 1931, morreu Euricles de Mattos, secretário de redação. Três dias depois, Roberto Marinho, com 26 anos, substituía-o na direção do GLOBO. O jornalista e escritor Franklin de Oliveira contaria mais tarde:

- Quando faleceu Euricles de Mattos, Roberto Marinho já tinha o domínio completo do fazer jornalístico. Chegava à redação às 4h e só a deixava à noite. Conhecia profundamente todos os segredos da profissão, além de dominar, com seu senso estético, a produção gráfica do jornal, da diagramação à tipologia. Exigia objetividade no noticiário, mas sem sacrifício de seu lado humano: objetividade não significa frieza diante dos fatos, e um jornal é a própria vida escrita. Nos editoriais, repudiava os transbordos de linguagem.

O GLOBO funcionou no mesmo lugar até 1954, quando oficina e redação transferiram-se da Bittencourt da Silva para um prédio recém-construído na Rua Irineu Marinho. Nele, o jornal está até hoje em instalações que foram sendo ampliadas e modernizadas a cada ano. Situando-se entre os jornais mais modernos do mundo, O GLOBO é o sonho de Irineu Marinho materializado pelo seu filho.

Em abril de 1998, nascia o EXTRA, hoje o mais bem sucedido jornal popular do Rio de Janeiro. E, em 2000, somou-se à organização o DIÁRIO DE S. PAULO, uma vitoriosa investida no mercado jornalístico paulista.

Aquilo de que ele mais se orgulhava era, simplesmente, de sua condição de jornalista. Numa entrevista de 1967, às perguntas que tratavam de seus êxitos como empresário respondia sucintamente, atribuindo-os a muito trabalho, certa ousadia e alguma sorte. Já quando o assunto era sua carreira como jornalista, o tom era diferente:

- Em 1924, minha família embarcou para a Europa. Viajamos no velho Giulio Cesare. Epitácio Pessoa, que deixara a Presidência da República algum tempo antes, também estava a bordo. Escrevi a um amigo uma carta descrevendo a viagem. Nela, fazia grandes elogios à dignidade do ex-presidente, a quem meu pai fizera, em "A Noite", tenaz oposição. Pedi que juntassem a carta ao malote de correspondência da família. A minha carta foi lida por meu pai, que consertou alguns solecismos e mandou publicá-la, na íntegra, na primeira página de "A Noite".

Este foi o primeiro dos muitos exemplos do homem que sempre esteve no lugar certo na hora certa. No caso, testemunhando a postura digna de um ex-presidente em meio a uma viagem com a família.

O crescimento do patrimônio empresarial de Roberto Marinho deve-se, como ele dizia, a muito trabalho e alguma sorte - mas sobretudo à ousadia de um homem que mesmo ao passar dos 90 anos jamais deixara de pensar no futuro, investindo sempre.

O padrão de qualidade da Rede Globo, por exemplo, não se fez apenas graças às conquistas tecnológicas. O que se via na telinha era resultado principalmente do seu estilo, da sua linguagem, da forma de combinar o instinto do jornalista com a vocação do empresário. A começar pelo "Jornal Nacional", que com pouco tempo superou o aparentemente insuplantável "Repórter Esso", da TV Tupi, a Globo faria de cada um seus programas uma permanente busca da perfeição.

O telejornalismo foi realmente o ponto de partida para o fenômeno em que se transformou a TV Globo. Como o próprio Roberto Marinho os definiria, seus programas noticiosos passaram a ser, para os telespectadores brasileiros, "uma nova maneira de ver o mundo". Era, sim, uma nova maneira de ver o mundo, mas com olhos de um brasileiro. Cujo projeto de vida incluía profunda dedicação à cultura e à educação, espelhada em iniciativas como a Fundação Roberto Marinho e a TV Futura. Em tudo, a cabeça do empresário servia ao coração do brasileiro:

- Sou um otimista nato - proclamava.

Em 19 de outubro de 1993, a Academia Brasileira de Letras transformou-o em imortal.

O velório de Roberto Marinho será na sua casa do Cosme Velho, a partir das 9h da manhã de hoje. O sepultamento será no Cemitério São João Batista, às 16h.

fonte: jornal O Globo

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