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Roberto Marinho: Coerência na vida pública e no jornalismoO homem que negava ter o poder que lhe atribuíam era ouvido por presidentes, ministros e líderes internacionais
RIO - Roberto Marinho já foi descrito como um liberal por temperamento, um democrata por natureza, um empreendedor por vocação. Mas o que pensava Roberto Marinho de si mesmo? Certamente, nunca que fosse o rei que muitos, para o bem ou para o mal, insistiam em ver nele. Negava metade do poder que lhe atribuíam.
Modéstia? Não exatamente. Costumava lembrar um episódio ocorrido às vésperas da Revolução de 30. Eurycles de Mattos era secretário de redação do GLOBO e, como tal, encarregado de traçar a linha editorial do jornal. Roberto Marinho até ali deixara por conta dele o perfil político do GLOBO. Até que Júlio Prestes e Getúlio Vargas despontaram como candidatos às eleições presidenciais de 1930. Eurycles batia-se pela neutralidade do jornal. Roberto Marinho discordava. A não ser que se defendesse a idéia absurda de que se devia importar um candidato, O GLOBO tinha que escolher um. Tomar posição nos momentos críticos da política era obrigação de um jornal.
"Todo grande jornal é, à sua maneira, influente" disse, numa entrevista de 1979. "O GLOBO é apenas um grande jornal".
Foi o seu modo de exercer o poder. Ficou com Getúlio Vargas em 1930, contra os comunistas em 1935, contra os integralistas logo depois, contra Getúlio quando da redemocratização ao fim da guerra. Em 1964, apoiou o movimento militar, em sua opinião o caminho para preservar as "instituições democráticas ameaçadas pela radicalização ideológica" dos últimos meses do governo Jango. Foi um gesto de fidelidade aos "tenentes e bacharéis", ao lado de quem estava desde 1930.
Mas, em todos os momentos do regime que vigoraria nas próximas duas décadas, Roberto Marinho haveria de seguir seu temperamento liberal e sua natureza democrática. Não concordou com a censura e, menos ainda, com as perseguições políticas. Na redação do GLOBO, abrigou inimigos do regime, esquerdistas assumidos, e fez isto não como atitude política mas porque, aos seus olhos, era pela competência que um profissional devia ser julgado. Ministros chamaram sua atenção para o que entendiam como infiltração comunista no jornal. Ficou conhecida a sua resposta:
- Não há nada a temer: eles se infiltram e eu os filtro.
Nenhuma demissão, nenhuma atitude discriminatória foi tomada por qualquer dos braços das Organizações Globo contra profissionais anti-revolucionários. Nem mesmo quando lhe fizeram pressões. Uma delas lhe chegou um dia por parte do ministro da Justiça Juracy Magalhães, que praticamente exigia que algumas cabeças marcadas fossem cortadas na redação. Roberto Marinho desconversou:
- Os comunistas no GLOBO são uns quatro ou cinco, mas me responsabilizo por eles. E nenhuma cabeça rolou.
Roberto Marinho era, também, um diplomata vocacional. Extremamente delicado, nunca alterando a voz, embora falando sempre com a firmeza dos líderes. Desde Getúlio Vargas, o de 1930, teve contato pessoal com todos os presidentes do Brasil, civis e militares. Almoçou com eles, recebeu-os em casa, visitou-os, trocou cartas (em geral abertas) com quase todos. Governadores, prefeitos, candidatos também estiveram em sua sala no GLOBO, para falar de seus projetos e intenções.
Participar da política brasileira é algo de que Roberto Marinho nunca abriu mão. Desde o episódio com Eurycles de Mattos, em 1930, fez questão de que seu jornal não se omitisse. Mas, de seus apoios a futuros presidentes, só se arrependeria de dois: Jânio Quadros e Fernando Collor. Assim mesmo, no caso de Collor, não chegou a ser um arrependimento: "Tinha boas idéias, era mesmo o melhor candidato".
Também em relação a 1964, faria uma revisão de algumas de suas posições. Jamais escondeu sua admiração por Castelo Branco, situava Geisel no mesmo nível de Vargas ("a atuação de ambos foi acima da média"), não ia a tanto em relação a Médici e não guardava boas recordações de Costa e Silva e Figueiredo. Em Costa e Silva vira apenas uma alternativa à ditadura que já se esboçara antes de 1968, e a Figueiredo se opôs quando este não concordou com uma alternância civil-militar na Presidência da República.
Sem jamais negar seu apoio ao movimento de 1964, Roberto Marinho reconheceu que "em alguns dos governos da Revolução houve indiscutível perda de liberdade". E pelo menos uma vez registrou suas apreensões: "Nos regimes fortes, a informação é frágil. E, por mais que se tente manipulá-la, ela de nada vale com um conteúdo falso".
No crepúsculo do regime militar, apoiou Tancredo Neves em oposição a Paulo Maluf. A partir do comício pelas diretas na Candelária, seu compromisso com a redemocratização fez-se claro. Depois, apoiaria Aureliano, Collor e Fernando Henrique.
Fonte: O Globo
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